Exploração com sucesso no Ceará
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Rodolfo Spínola Agência Estado 
O Ceará é o maior produtor de água-de-coco do Brasil, com seus quase 15 mil hectares plantados de coqueiro-anão, produzindo água a todo vapor. A produção de água-de-coco ainda não está definida, porque as empresas que extraem e engarrafam o precioso líquido não revelam os seus números, explicou o presidente do Sindicato dos Produtores de Frutas do Ceará, Euvaldo Bringel, ao revelar que essa é a fruta da vez, porque o mercado está saturado de produtos elaborados com aditivos, conservantes e outras substâncias maléficas para a saúde. Hoje, por existir uma maior consciência ecológica, uma maior preocupação com a saúde, chegou a vez dos produtos naturais e, quem tiver tecnologia e produção, vai virar o século com a perspectiva de ganhar muito dinheiro.
Os produtores, que estão entusiasmados com as perspectivas econômicas a partir de um bom aproveitamento da água-de-coco, têm essa mesma convicção: as futuras gerações não deixarão de beber uma água de um produto natural, rica em nutrientes, para tomar um refrigerante, ou um suco que é mais coquetel de aditivos, corantes, conservantes e outras substâncias, previu o empresário e ecologista João Jaime Gomes Marinho de Andrade, um ardoroso defensor dos alimentos saudáveis, sem nenhuma pontinha de agrotóxicos.
Exploração consorciada Com uma área plantada de 100 hectares na fazenda Papagaio, em Acaraú, deixada pelo seu avô, com quase 15 mil plantas, Marinho de Andrade, quer atravessar o século com no mínimo 30 mil coqueiros-anões em plena produção, o suficiente para fazer girar uma indústria envasadora de água-de-coco. Para tanto, ele dividiu sua propriedade, de quase 2.000 hectares, em diversos blocos, para desenvolver algumas experiências. Uma delas, por exemplo, é de plantar coqueiro-anão consorciado com feijão. Outra, é com melão. Outro campo está sendo roçado por caprinos e ovinos.
Aqui, pretendemos produzir os melhores coqueiros-anões do País, desde a escolha das plantas-mães, suas mudas, que são rigorosamente acompanhadas por agrônomos, até na idade adulta, quando fazemos sistematicamente exames feliculares para identificarmos possíveis ataques de pragas e doenças, disse o empresário ao revelar que atualmente só recebemos sementes do projeto de Curu-Paraipaba, no Ceará, onde estão as mais bem cuidadas plantações de coqueiros-anões do Nordeste.
Os nossos plantios, iniciados em 1996, irrigados com microaspersão, vão começar a produzir os primeiros frutos a partir de julho do próximo ano. Marinho de Andrade, que já tem inclusive o projeto para instalação da unidade industrial pronto, sonha em envasar toda a sua produção, quando existir, dentro de mais alguns anos, tecnologia para engarrafá-la em embalagens tetra-park, com o nome Papagaio, afinal ninguém vai para o supermercado para comprar 20 cocos verdes, mas é factível levar para casa uma caixa, com 20 embalagens de água-de-coco, sem ter o trabalho de, depois, dar um fim na sua casca.
História recenteA história da cocoicultura no Ceará é recente, embora as primeiras mudas tenham desembarcado com os primeiros colonizadores. No início de 1990, com a abertura do mercado brasileiro para produtos importados, a indústria de beneficiamento local não teve como aguentar os preços dos cocos produzidos na Ásia e África, que chegavam mais baratos.
Muitas empresas quebraram, porque não tinham como enfrentar a concorrência. Isso gerou uma reviravolta no mercado de coco in natura, resultando no abandono da matéria-prima no campo. Havia um colapso na cadeia produtiva do coco do Litoral do Ceará. A alternativa encontrada pelos pequenos e médios produtores foi direcionar as suas vendas de coco verde in natura às regiões de praia e urbanas e em outros Estados.
Com o crescimento de uma demanda, surgiram algumas pequenas empresas, sem nenhuma tecnologia, tentando envasar água-de-coco, apresentando-a em pequenas garrafas de 300 ml, em copos ou em cubos na forma de gelo, um ótimo acompanhante para uísque.
Ai estava o perigo, assinalou o engenheiro de alimentos da Embrapa, Fernando Abreu, um dos mais conhecidos experts em cocos do Ceará, ao explicar que por desconhecimento e devido o baixo nível tecnológico, muitas dessas empresas quebraram, por não oferecer a necessária segurança do produto.
Geralmente, a água-de-coco envasada manualmente ou semi-artesanalmente apresentava problemas, que tinham a sua origem em fatores bioquímicos e sanitários e, também durante o seu ciclo de estocagem e comercialização, necessitando muitas das vezes do uso de microondas para seu descongelamento. E mais: havia, ainda, estrangulamento por falta de tecnologia adequada, tais como o elevado índice de oxidações gerada por equipamentos inadequados, que provocava mudança de sabor, devido a atividades enzimáticas e ou fermentações indesejáveis. Isso provocava também a mudança de cor e de sabor.
PesquisaCom a presença do coco ralado procedentes de outras regiões do País e até do exterior por preço bem mais competitivo que o coco produzido no litoral e a consolidação da venda de água-de-coco como uma boa opção comercial, o Sindifrutas junto com a Embrapa, Sebrae e Finep passaram a desenvolver uma série de pesquisas, para encontrar um equipamento capaz de abrir cocos sem expo-los ao risco de possíveis contaminações.
Nas pequenas unidades instaladas no Ceará os técnicos constataram que a relação de produtividade em termos de abertura de frutos/homem-dia era, em média, de mil cocos, através de um sistema manual. Em todo o Nordeste utiliza-se essa mesma metodologia, lembrou Abreu ao esclarecer que partimos, então, para o desenvolvimento de uma máquina que viesse a eliminar esse ponto de estrangulamento e possibilitasse uma maior vazão de água extraída.
Foram quase dois anos de estudos, reuniões, desenhos e mais desenhos, maquetes e muita água-de-coco derramada para os testes. O primeiro pré-protótipo foi dimensionado para suprir uma vazão entre 200 e 300 litros de água-de-coco, o equivalente a 800 a 1.000 frutos por hora. Depois de uma série de correções, ajustes e discussões, montamos um protótipo em aço inoxidável, o qual apresentou uma produtividade acima da esperada, ou seja, abrir até 2.600 cocos por hora, equivalendo a uma vazão de um pouco mais de 1.000 litros de água-de-coco de boa qualidade extraída, festejou Abreu ao lembrar que esse equipamento já possui pedido de registro de patente junto ao INPI, na forma de utilidade industrial, estando o seu uso ou comercialização sujeitos à legislação pernitente.
No Ceará, apenas uma metalúrgica está autorizada a fabrica- lo, que é a CEIL, onde foram desenvolvidas todas as pesquisas.
De fácil manuseio, esse extrator de água-de-coco tem um equipamento eletro-mecânico que é acionado por um sistema de motor-redutor de alto torque. Construído em uma estrutura de aço carbono, com as suas partes internas, que entram em contato com os cocos em aço inoxidável AISI-304/316, suas lâminas, também em aço temperado, estão dotadas de quatro faces de corte que seccionam os frutos ao meio, com um rápido golpe, fazendo sua água cair numa calha receptora, protegida por dois filtros anteriores. Com um detalhe: um sistema condutor semicircular duplo com cavidade para encaixe dos cocos a serem cortados só permite a entrada de um único coco para o corte por vez. Um tanque de aço inox, com capacidade para acumular até 70 litros de água é retirado, por um operário, sempre que chegue aos 60 litros. Toda esta tecnologia será apresentada no FRUTAL- 98 V Semana Nacional de Fruticultura e Agroindústria, no período de 02 a 05 de setembro deste ano, em Fortaleza.


