Expectativa diante da crise - Jota Oliveira
Expectativa diante da crise
Jota Oliveira
Gostaria que o produtor daqui tivesse a mesma vida do pequeno produtor europeu. Palavras do governador Jaime Lerner (a propósito de suas metas para o novo período de governo), em entrevista à Folha de Londrina/Folha do Paraná, nesta semana.
Para chegar a esse ponto, o agricultor em geral (não apenas o pequeno, mas também o médio, o grande) precisa de algo mais: financiamento (que sempre reclama em situações de crise, quando a produção falha devido a problemas climáticos, excesso de oferta e consequente cotação baixa que não lhe deixa meios para começar a nova safra), armazenagem, preço de garantia, mercado. Fatores que não dependem diretamente do governo estadual, mas das normas de safra fixadas pelo governo Federal.
Exceto mercado, que não depende diretamente nem da União. Mas, esta pode e deve influir, honrando os preços de garantia anunciados e as demais normas; garantindo (com os Estados) a infra-estrutura necessária para o lavrador levar sua safra ao mercado. Ou para segurar a produção na roça ou próxima da roça - por exemplo, no seu próprio armazém, silo, ou na cooperativa.
Quando o governador Jaime Lerner anunciou sua disposição de dar prioridade à agricultura, falou de alguns instrumentos criados pelo governo do Paraná: Vilas Rurais, Programa de Apoio ao Pequeno Agricultor, estímulo à agroindústria, que beneficiaria 260 mil famílias de pequenos agricultores no Estado todo. Isto significaria atender, no pior dos casos, 1 milhão e 40 mil pessoas, imaginando-se que cada uma dessas famílias seja constituída por quatro pessoas, na média.
Um dos itens do programa de Lerner para seu segundo mandato na condição de governador do Paraná, é a Fábrica do Agricultor. Seriam pequenas agroindústrias na zona rural para a industrialização dos produtos agrícolas. É a muito falada agregação de valores ao trabalho do lavrador: ele planta, colhe, industrializa e vende sua produção já acrescida do valor da industrialização, queimando uma das etapas do caminho entre a lavoura e o consumidor. Falta, nessa disposição, orientar o agricultor a respeito do que ele deverá produzir no campo, industrializar; quando, para quem e como vender. Sem essa orientação, e num momento de retração no consumo, será difícil o agricultor superar suas dificuldades originadas além das divisas do Estado.
Como está acontecendo com uma das últimas grandes absorvedoras de mão-de-obra rural, a agroindústria canavieira. A maioria dessas indústrias está impedida de continuar produzindo álcool, pois não têm mais lugar para estocar o combustível. O consumo diminuiu e as indústrias sequer têm recursos para pagar sua mão-de-obra e os fornecedores de cana. A origem do problema é a política nacional do álcool, decidida em Brasília - tanto que a mesma crise também afetas as destilarias paulistas e de outros Estados.
Além da crise que pode afetar (como acontece hoje nas destilarias de álcool) seus compradores, os produtores rurais enfrentam outras dificuldade. Como observou quinta-feira, 8/10, na Folha, o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ágide Meneguette, o Brasil está começando a trilhar tempos difíceis. Por isso, ele recomendou, lembrando-se de um ditado popular (Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém): Os produtores rurais devem estar atentos ao que pode ocorrer a partir de agora, quando o presidente da República inicia um novo mandato em meio a uma crise sem precedentes, que ameaça tragar a economia brasileira.
Ele prevê, analisando indicadores que já podem ser facilmente notados ...a crise vai levar o País à recessão; haverá dificuldades de toda ordem - queda de produção, queda de renda, desemprego...
Meneguette observa que a crise tem abrangência mundial. Tal situação repercute no Brasil, na perda ou redução de mercados para seus produtos agropecuários. De outro lado, em meio à crise abrem-se as portarias alfandegárias, empurradas pela globalização da economia, para dar entrada à produção da agricultura estrangeira. Assim, além de perder em volume de vendas, o lavrador brasileiro vê aumentar a concorrência dos seus produtos agropecuários com os estrangeiros (animais, vegetais e seus derivados), que representam US$11 milhões na pauta de importações nacionais. Confirmando a perda de compradores, as vendas de produtos brasileiros caíram US$970 milhões, de janeiro a julho deste ano - uma queda de 9,8% em relação às vendas externas de produtos agropecuários em igual período do ano passado.
Levando em conta a situação difícil da economia como um todo e da agropecuária em particular, umas das principais tarefas dos novos governantes deverá ser criar de fato instrumentos que possam fomentar a produção rural. Sobretudo, não a deixar em seguida apodrecendo no campo por falta de compradores; da existÊncia de preços negativos que não justifiquem sequer a colheita, ou pela impossibilidade dos produtores, endividados, a removerem com meios próprios.
O governador do Paraná empenhou sua palavra: agropecuária terá prioridade. O Ministério da Agricultura anunciou, no meio da semana, a ampliação das exigências para as importações brasileiras de animais, vegetais e seus derivados. Com as novas regras, respaldadas pela legislação internacional, o Brasil está adotando critérios semelhantes aos usados para os produtos nacionais, disse nesta semana o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério, Ênio Marques. Já é um passo, pelo menos para salvaguardar o direito, do agricultor brasileiro, de competir em melhores condições no mercado interno enquanto o Brasil subsidia o produtor estrangeiro.
O autor é editor da Folha Rural.





