A soja avança sobre as áreas de pastagens e outros produtos, impulsionada pelas boas condições do mercado mundial. No Brasil, a soja deve crescer de 8% na safra 2003/04, podendo incorparar 1 milhão e 473 mil hectares (ha) sobre a atual área de 17 milhões e 956 mil ha, totalizando 19 milhões e 420 mil ha.
No Paraná houve um crescimento de 8,95% na safra anterior e a expectativa é mais um salto de 7,2% na próxima safra, totalizando aumento de 254 mil ha sobre os atuais 3 milhões e 545 mil ha, ficando em 3 milhões e 800 mil ha, segundo Benedito Oliveira, da Agência Rural de Notícias.
Como a previsão é que os preços continuarão convidativos, apesar do aumento da oferta, já se admite que o arado empurre a cerca do pasto mais um pouco para alargar ainda o terreno da soja.
''A soja vai encurralar o gado'' - exageram alguns; ''há uma supervalorização da terra'', comemoram outros. De real, o único efeito dessas mudanças é a valorização da terra em 79,4% (terra roxa mecanizável) no Paraná entre abril de 2002 e abril de 2003.
Mas a expansão da soja não vai prejudicar a produção de carne. Para o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Kepler Euclides Filho, é um equívoco pensar que o avanço da agricultura, tomando áreas de pastagens, possa prejudicar a pecuária no Brasil, reduzir rebanhos e produção. Pelo contrário. Para ele, não há dúvidas de que as duas atividades não se mostram competitivas, mas complementares.
Para Kepler a continuar a rentabilidade atual a soja deverá avançar sim, mas é pefeitamente viável, ressalta, que a produção de carnes seja feita em áreas menores, com maior número de animais por hectare e alta produtividade. ''Basta que o pecuarista trate o pasto também como lavoura e possa adotar tecnologias que permitam obter alta produtividade, abate de animais mais precoces e bem acabados,'' afirma.
Em regiões onde for possível haverá integração lavoura e pecuária, acredita Kepler Euclides. ''Muitos empresários estão desenvolvendo este sistema de produção com vantagens de maior produtividade e rentabilidade para as duas modalidades,'' afirma.
Esse modelo, é claro, avisa o pesquisador, não pode ser adotado em todo lugar. Em algumas regiões onde existe dificuldade, por exemplo, na aquisição dos implementos e insumos necessários ou na estrutura de estradas para escoamento da produção, pecuaristas terão que encontrar outras alternativas.
Em algumas regiões, insiste Kepler Euclides, a recuperação de pastos tem sido feita pelo arrendamento de terras para a agricultura. Neste caso, de acordo com Kepler Euclides, as lavouras ocupam a área por dois ou três anos e a seguir é entregue o pasto reformado.
Para ele, a agricultura, notadamente a soja, pela alta rentabilidade no atual contexto, é um instrumento importante para custear a recuperação de áreas degradadas de pasto. Para quem faz as duas coisas, agricultura e pecuária, a lavoura representa também mais uma fonte de renda.
Projetos de utilização da agricultura para recuperação de pastos têm sido desenvolvidos no Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás. Enquanto isso a pecuária avança para regiões do Pará, Rondônia e Acre.
Em regiões que tiveram áreas de pasto ''tomadas'' pela agricultura, o modelo de exploração pecuária segue novos moldes: adubação de pastagens que sobraram, divisão em piquetes, rotação, entre outras tecnologias que permitem obter os mesmos índices, ou até melhores, em menor espaço.
Possivelmente nestes locais, a continuar a expansão da agricultura, deverá prevalecer a pecuária dirigida a produção de genética e o rebanho comercial, de produção de carne, seja mesmo deslocado para as consideradas novas fronteiras.

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