A Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) anunciou no último dia 9 que deve restringir as campanhas de vacinação contra a febre aftosa, como primeiro passo para que o Estado atinja o status de área livre da doença sem necessidade de imunização com vacina. A aplicação deve continuar neste ano enquanto não são criadas barreiras físicas à aftosa, mas a notícia deixa produtores apreensivos pela possibilidade de um novo foco da enfermidade aparecer, como já ocorreu, por exemplo, no Rio Grande do Sul, em 2005.
Enquanto órgãos como a Adapar e a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) defendem a adoção de medidas para conter a aftosa sem vacina, para abrir mercados importadores que pagam mais por carne bovina e suína sem doenças, a Sociedade Rural do Paraná (SRP) e as associações de criadores de gado dizem que o custo e o risco não valem a pena diante da possibilidade de ganhos. Os dois lados do debate citam Santa Catarina, único estado livre da doença sem vacinação, como exemplo, para os técnicos, positivo, e para os bovinocultores, negativo. A FOLHA buscou então conhecer a realidade vizinha para ajudar na discussão.
Países como Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos têm restrições sanitárias maiores na importação de carnes, já que a vacina pode mascarar a presença do vírus no rebanho. Por isso, remuneram melhor os exportadores. De acordo com a Companhia de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), empresa mista responsável pela sanidade animal e vegetal no Estado, uma carcaça de porco tem em média 80 quilos (kg), mas os japoneses compram apenas cinco cortes especiais, que somam de 9 kg a 13 kg. O valor pago, porém, é equivalente ao total de 80 kg, o que significa que restam até 71 kg de lucro, que ainda podem ser comercializados. Não há exemplo semelhante em relação à carne bovina, porque os catarinenses produzem 130 mil toneladas ao ano, mas consomem 280 mil toneladas, o que faz com que o valor agregado interno seja alto para o produto, conforme a Cidasc.
O problema é que os ganhos ainda não cobrem os gastos do estado vizinho com vigilância sanitária, já que o orçamento da empresa mista é de R$ 250 milhões para este ano, o maior do País. O presidente da Cidasc, Enori Barbieri, faz a ressalva de que o valor é usado também para ações de sanidade vegetal, de aquicultura, de moluscos, de raiva, além de doenças e zoonoses humanas, e conta com R$ 40 milhões pagos pela iniciativa privada. Mesmo assim, o valor é muito superior à previsão de gastos da Adapar para 2016, que é de R$ 68 milhões.
O alto orçamento para a vigilância sanitária catarinense se deve à necessidade de 63 barreiras fixas ativas e quatro móveis, que monitoram a entrada por estradas de produtos de origem animal no Estado, além dos presentes em portos e aeroportos. Existem ainda corredores sanitários para passagem entre Rio Grande do Sul e Paraná, para transporte de carnes, miúdos e couro em caminhões lacrados dentro de Santa Catarina.
São 500 funcionários envolvidos no trabalho, 4,5 milhões de bovinos cadastrados por meio de brincos de identificação, além de 1,5 milhão de novos brincos comprados a cada ano. "Tivemos de enumerar todos os nossos bovinos por um brinco, todos cadastrados no nosso sistema com um número, que prova que aqueles animais pertencem a Santa Catarina", diz Barbieri.
Todas as medidas foram adotadas a partir de 2000, quando o estado deixou de vacinar contra a aftosa, para atender às exigências da Organização Mundial da Saúde Animal (OIE, na sigla em inglês). O processo para passar de área livre da doença com vacinação para área livre sem vacinação, entretanto, foi completo somente em 2007 e o primeiro contrato de exportação para o Japão foi em 2013. "Além das regras da OIE, os japoneses quiseram conhecer todo o sistema, ver se aprovavam, se era seguro", conta o presidente da Cidasc. "Em 2014, conseguimos abrir o mercado dos Estados Unidos e em 2016 já tivemos oficialização do mercado da Coreia, que é um grande importador de carne suína", completa.

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