O que é melhor para o Brasil: entrar de cabeça na soja transgênica - ainda sem parâmetros suficientes para dimensionar impactos ambientais -, ou se manter na produção convencional e atender à crescente demanda por produtos ‘‘não transgênicos?’’
O ex-senador, ex-ministro da Agricultura e ex-ministro da Indústria e do Comércio, José Eduardo de Andrade Vieira, não tem dúvida de que o País deve proibir a produção comercial de soja transgênica e garantir seu espaço no Japão e União Européia, cujos consumidores estão sempre dispostos a pagar mais por produtos naturais.
Se soja transgênica, pela redução dos custos, vier a ser mais competitiva - tudo indica que sim -, a soja do cultivo tradicional tem a seu favor a preferência dos consumidores finais. O diferencial de preços em favor da soja não-modificada vai contrapor a competitividade perdida, se é que esta competitividade venha a ser tão expressiva. Enfim, o bom preço da soja tradicional neutraliza a eventual desvantagem de um custo de produção mais alto.
ArquivoAo confirmar a autorização do registro de cinco variedades de soja transgênica, o governo pode restringir o mercadoExigênciaPara José Eduardo, isto é tão claro quanto é clara a opção preferencial dos consumidores, expressa nos movimentos de rejeição aos organismos e produtos geneticamente modificados. Os consumidores europeus e japoneses adquiriram um nível de exigência que não admite nem a agroquímica. Este sentimento permeia a atitude do comprador com relação a frutas, legumes, enfim todos os alimentos vegetais e animais.
Ele cita o exemplo do café orgânico. Os japoneses pagam até 400 dólares pela saca de café orgânico, enquanto a saca de cafés finos comuns estava a 120 dólares no começo do mês (aumentou esta semana, por circunstâncias climáticas). José Eduardo foi procurado, dias atrás, por empresa japonesa interessada em compra seletiva de cafés orgânicos.
O Paraná - sugere José Eduardo - poderia impedir o plantio comercial de transgênicos e se distinguir na condição de grande fornecedor de grão não modificado. Ele acha que o produtor paranaense seria o grande beneficiado com este ‘‘ágio’’ de preços. ‘‘O interesse por produtos naturais - que levem menos química e não tenham sofrido mudança genética -, não é mais um nicho de mercado. É um mercado emergente, que cresce a uma velocidade de 30% ao ano, reflexo de um novo perfil de consumidor, cada vez mais cioso de seus direitos. Há uma postura mais firme do consumidor no novo milênio e é preciso fazer uma leitura desse cenário. As grandes tradings do mercado mundial têm essa prospecção e vão demandar produtos nessa linha. Os movimentos de entidades de defesa de consumidores e ONGs ambientalistas pressionam cada vez mais os seus governos. O que é sentimento da comunidade, pode se transformar em leis rigorosas, como acontece hoje com as leis sanitárias internacionais, caso da carne bovina, por exemplo’’, ressalta José Eduardo.
Plantio de soja transgênica em área experimental na Embrapa Soja em LondrinaImpacto ambientalEmbora contrário ao plantio comercial, o empresário propõe que instituições de pesquisas, como Iapar e Embrapa, continuem estudando a soja transgênica, principalmente para determinar o impacto ambiental. Para ele, são três as vertentes a serem consideradas pelos governos antes de fazerem uma opção precipitada pelo transgênico: primeira vertente - a do impacto sobre fauna e flora e como se dissemina a semente transgênica; segunda, a economicidade, cotejando custos de produção com rendimento de grãos por área (produtividade), para determinar o custo-benefício, e, terceira, a questão mercadológica, com a prospecção do mercado, mais receptivo a matérias-primas oriundas de plantas comuns, sem modificação genética. José Eduardo não tem dúvida de que uma decisão baseada na prudência e nas varáveis apontadas por ele, ‘‘tenderá a adiar a autorização para plantios comerciais da semente transgênica’’.
EstratégiaAdiar a entrada da soja transgênica neste momento não seria perder a corrida tecnológica, esclarece José Eduardo. ‘‘Seria uma postura de prudência, de respeito ao ambiente e ao consumidor. Mas seria, sobretudo, uma estratégia de mercado. Quanto à ‘corrida’, não há nada a perder. Afinal, a tecnologia da mudança genética está aí, e se um dia o País tiver de adotá-la, o fará de uma safra para a outra. Já a adoção neste momento - sem questionar - isto sim seria perigoso; afinal, uma vez implantada, a soja transgênica tem disseminação irreversível e os nossos campos nunca mais retormariam à técnica anterior. Este é mais um motivo para se fechar as portas, neste momento, para os transgênicos que podem criar uma forte dependência tecnológica’’, defende ele.
ConcorrênciaCom a experiência de quem ocupou dois ministérios da área econômica, José Eduardo, que também é agricultor, chama a atenção para o aspecto exclusivamente comercial da questão: ‘‘Os compradores da soja brasileira são preferencialmente a (exigente) União Européia e o Japão. Não vamos vender soja para os Estados Unidos. Portanto, eles não são parceiros comerciais, são concorrentes.’’
O empresário também observa que a soja transgênica coloca o País na linha da competitividade com os Estados Unidos, cujo governo investe pesado em subsídios diretos e indiretos. A propósito, José Eduardo acha sintomático que num momento em que há grandes estoques de soja e grãos oleaginosos em geral, os Estados Unidos incentivem o aumento da produção. ‘‘Justamente os EUA, que podem se dar ao luxo de pagar para o agricultor não produzir (set-a-sid, o Prodution Governament Control) e assim manter o mercado enxuto e equilibrado. Para ele, este aumento de produção norte-americana pode ser uma estratégia para desestabilizar o produtor brasileiro, já que o Brasil oferece concorrência aos Estados Unidos em termos de soja. Segundo José Eduardo, eles se permitem enfrentar o excesso de produção, afinal, se os preços desabarem no mercado mundial, o governo americano rapidamente adota mecanismos de subsídios, dando suporte e sustentação de preços. Nessa linha, José Eduardo questiona, comparando as políticas agrícolas dos dois países: ‘‘O produtor americano, com mercado adverso, tem o respaldo do governo, e o produtor brasileiro, que apoio teria? De que governo?’’, pergunta, ironizando: ‘‘Seria por acaso o governo Fernando Henrique?’’

mockup