A produção nacional de hortaliças é, segundo dados oficiais, de 11 milhões de toneladas. Como se perdem 30% desde a colheita aos pontos de venda, são oferecidos ao consumidor apenas 7,7 milhões de toneladas de verduras e legumes. No Paraná, considerando também as frutas, são produzidos por ano dois milhões de toneladas, e as perdas chegam a 600 mil t, no valor de R$300 milhões. No Brasil, contando também as frutas, as perdas alcançariam 12 milhões de toneladas/ano, ao custo de R$6 bilhões, conforme cálculos divulgados pela Emater-PR.
O americano Steven Sargent, especialista em pós-colheitas do Departamento de Horticultura da Universidade da Flórida, aponta iniciativas simples para diminuir esse desperdício. Steven veio ao Brasil, a convite da Asgrow Vegetable Seeds, e disse como reduzir as perdas, sem gastar muito dinheiro. As medidas recomendadas por ele devem ser adotadas com frequência e ‘‘acompanhadas de um cuidadoso planejamento’’. Elas podem ser a solução do problema perdas no pós-colheita. Ele veio ao Brasil, relatar a produtores o resultado de pesquisas feitas sobre este assunto nos Estados Unidos, e apontar algumas soluções ‘‘já adotadas com sucesso’’, conforme matéria publicada no ‘‘Semente’’, informativo trimestral que a Asgrow distribui aos produtores e outros interessados.
DesperdícioRestos da feira de atacado. O produto que não for vendido, hoje, será o lixo de amanhãCuidadosGrande parte das perdas, diz Steven, pode ser evitada com três medidas básicas: a - higienização dos produtos; b - resfriamento; c - embalagem adequada.
Essas recomendações baseiam-se no fato de que a metade das perdas ocorre, segundo ele, entre o campo e o varejo, começando já na colheita. Na colheita e no transporte, os produtos sofrem ‘‘quedas, pancadas e pequenas lesões internas que podem ser contaminadas por caixas mal lavadas’’, e são agredidos por altas temperaturas. As temperaturas altas ‘‘favorecem a evolução de fungos e bactérias, criando focos de podridão’’.
Além de orientações sobre o manuseio adequado e cuidadoso, para evitar quedas dos produtos, a primeira medida preventiva ao surgimento de ‘‘focos de podridão’’ é lavar as hortaliças com água clorada abundante, logo após a colheita.
Nos Estados Unidos e em várias regiões brasileiras, os produtores mergulham os frutos por cerca de três minutos em uma solução de água com temperaturas entre 33ºC e 40ºC e cloro (100 a 150 ppm). ‘‘Os resultados são bons tanto para a conservação como para a saúde humana, pois a água clorada não altera o sabor e evita a proliferação de fungos e bactérias’’, afirma o pesquisador americano.
Frutas a granel, no piso da feira - falta higiene, que é condição básica para evitar desperdíciosCada produto tem uma temperatura ideal. Para conservar sua qualidade por mais tempo após a colheita, ele deve ser resfriado na temperatura adequada e ser mantido assim até a comercialização. A alface, por exemplo, dura mais se mantida a 1º C, enquanto o ideal para o tomate é 5º C. Os produtos devem ser colhidos, lavados no campo e resfriados, depois de embalados em caixas apropriadas, ‘‘de preferência no mesmo dia da colheita’’.
Steve explicou que alguns produtores utilizam a atmosfera modificada, com aplicação de etileno, para resfriar seus produtos, mas alertou que o custo-benefício deste processo ‘‘deve ser cuidadosamente avaliado’’.
As embalagens devem ser adequadas a cada produto - para evitar estragos durante os impactos que as caixas normalmente sofrem durante o transporte -, mas precisam ser as mais rígidas, que possibilitem o controle de temperatura e preservem seu conteúdo. O especialista americano recomenda, ainda, que, ao embalar, o horticultor procure estabilizar os produtos nas caixas, sem forçar para acomodar excessos, pois isso pode causar rachaduras e amassamentos. Devem ainda optar por embalagens que permitam a ventilação interna. Sempre que possível, devem ser utilizadas caixas plásticas retornáveis, para produtos transportados em quantidade como tomate, alface e pimentão.
Tais caixas são mais higiênicas e, embora exijam um investimento maior no início, tornam-se mais econômicos com o tempo de uso. Para valorizar os produtos, principalmente aqueles diferenciados e direcionados a mercados especiais, é melhor utilizar embalagens próprias para pequenas quantidades e que permitam melhor visualização. Esta tem sido a forma preferida das grandes redes de supermercados, que diminuem as perdas provocadas pelo manuseio, facilitando ao consumidor a escolha do produto.
Poucas mãosEm São Paulo, o engenheiro-agrônomo Luís Geraldo de Carvalho Santos, produtor e consultor em agricultura orgânica, acrescenta que o produto deve passar apenas por três mãos: do produtor, do repositor das hortaliças nas bancas do varejo, e do consumidor. ‘‘Para evitar perda, só pode ter uma mão entre o produtor e o consumidor: a do repositor, que não pega no produto, mas na embalagem’’.
A embalagem adequada - acrescenta - começa na saída da horta, no contetor plástico usado pelos produtores para colocar as hortaliças que estão mandando para o mercado. A embalagem recomendada é de plástico, mais fácil de limpar, e as hortaliças devem ser colocadas nos contentores, de modo que elas não fiquem sujeitas ao amassamento. Isto significa que não se deve forçar, para colocar três produtos onde só caberiam dois bem acondicionados.
Nas hortaliças orgânicas as perdas são menores, afirma Luís Geraldo. Ele calcula que fiquem entre 2 e 5%, ‘‘dependendo da qualidade do produto e do processo de entrega e manutenção na gôndola do varejista’’. O índice de perda varia muito em função da qualidade do produto e da época. Quando o padrão do produto cai, a perda pode chegar a 30 ou 40%, mas, ressalva Santos, não no processo de pós-colheita, ‘‘mas porque o consumidor não compra; é sobra. No processo de pós-colheita não tem perda. É zero’’, afirma. Não é perda no processo de entrega, mas nas vendas.
O agrônomo explica que, se o produtor entregou 300 bandejas ao varejista, ‘‘a última do dia não vende’’. Não porque o produto esteja ruim, mas porque é a última bandeja. Então, aquela hortaliça fica na prateleira para o dia seguinte. ‘‘No dia seguinte o consumidor compra a hortaliça do dia. Aquela sobra mesmo. É a perda.’’ De qualqeur forma, os legumes têm perdas menores do que as folhosas.Dorico da SilvaCaixas de hortaliças numa feira de atacado, em Londrina: madeira facilita a contaminação dos alimentosJota Oliveira

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