Eventos climáticos deixam rastro de prejuízos no campo
Somente em 2025, 244 municípios paranaenses foram atingidos, segundo a Defesa Civil
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sábado, 26 de setembro de 2026
Somente em 2025, 244 municípios paranaenses foram atingidos, segundo a Defesa Civil
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

A intensidade e a frequência dos eventos climáticos recentes têm colocado os produtores rurais do Paraná em alerta. Somente em 2025, 244 municípios foram atingidos por vendavais, granizo e tornados, segundo levantamento realizado pela Defesa Civil do Estado.
Ao todo, os desastres atingiram quase 273 mil moradores do Paraná, com prejuízo de R$ 1,9 bilhão. Somente os tornados afetaram 23 mil pessoas e geraram R$ 104,56 milhões de prejuízo, levando sete municípios a decretar emergência e um, Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-sul do estado, calamidade pública.
A família da produtora rural Gisele Jurisch segue na reconstrução da propriedade arrasada em Rio Bonito do Iguaçu. Em novembro do ano passado, um tornado deixou um prejuízo estimado em R$ 2,5 milhões.
“Nunca imaginamos que iríamos ficar no meio de um tornado. Eu corri para o quarto das minhas filhas [de 5 e 9 anos], ergui a cama box e ficamos nós e minha sogra segurando para proteção. Mas logo ficamos sem teto. Meu marido não conseguiu entrar em casa e ficou do lado da churrasqueira abaixado. Ainda bem que só tivemos arranhões leves, nada grave.”
Gisele relembra que, da casa, só as paredes resistiram, mas o forro, cobertura, janelas e portas se foram com o tornado.
A família tinha rebanho de ovelhas, sendo que algumas morreram e outras ficaram machucadas. “Acabamos vendendo o que sobrou porque até as cercas de arame se foram. Não tínhamos seguro de nada na propriedade. Foram duas caminhonetes, um caminhão, um carro e um trator que ficaram mais danificados”, relembra.
O tornado atingiu quatro barracões, inclusive o que abrigava a pré-limpeza de grãos e uma moega com capacidade para 3 mil sacos de semente, além das duas casas de alvenaria da família.
A estufa de horta, pomar e grades dos pátios foram destruídos. O trigo estocado na moega e os bags de sementes de soja que estavam prontos para o plantio também foram perdidos.
Após a destruição, a família teve de morar na casa dos pais de Gisele. “Tivemos muita ajuda de pessoas que nunca vimos na vida para juntar os entulhos, lixo, além de muitas orações e palavras de apoio”, relembra.

Hoje, quase um ano depois, a reconstrução continua. Das casas, falta apenas repor as grades dos pátios - dois dos quatro barracões já estão cobertos, e o galpão da moega está sendo remontado, com troca completa dos equipamentos de pré-limpeza danificados pelos efeitos do tornado.
“Não podemos parar, vamos continuar trabalhando na agricultura e devagar vamos replantando cada pé de fruta, cada flor que trazia alegria para nosso dia. Foram dias difíceis e ainda não está fácil de recuperar a calma. Antes eu falava que era bom dormir com barulho de chuva. Mas agora, quando está ventando, quando tem algum raio ou garoa que seja, o coração já fica apertado”, diz.
EVENTOS
O período de outubro de 2026 até o início de 2027 deve ser de eventos climáticos severos. Segundo o Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná), o Estado deve enfrentar um El Niño forte, com pico entre outubro e dezembro. “Como a influência sobre o clima deve durar até o início de 2027, os eventos extremos tendem a se repetir com mais frequência”, destaca Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná).
O dirigente ressalta que esse cenário é o pior possível por dois motivos. “O primeiro é a expectativa climática, que é a pior dos últimos anos. O segundo é a situação do produtor, que chega a esse período com pouco crédito e pouco seguro, endividado e com a renegociação de dívidas travada”, aponta.
Além disso, Meneguette cita que o recurso previsto para o seguro rural no próximo ano está muito abaixo do necessário. “Mesmo com o projeto de lei que aguarda sanção presidencial, não se pode esperar uma mudança grande já na próxima safra.”
PREVENÇÃO
Os alertas servem para o produtor prevenir algumas perdas e se proteger. “Na prática, o produtor tem antecipado o plantio de milho, que é mais flexível que a soja por não ter vazio sanitário, para fugir dos períodos mais críticos do El Niño. Isso também ajuda a proteger o solo com rotação de culturas e cobertura de palha, o que reduz a erosão.”
Outra recomendação é manter contato com os órgãos oficiais, como a Defesa Civil, para registrar os prejuízos, e a Copel, para o restabelecimento ágil da energia, além de contar com o apoio do Sindicato Rural.
Por fim, também tem muita relevância na prevenção o planejamento da comercialização, para travar custos e definir a relação de troca entre os insumos e o quanto de produto será entregue para pagá-los.
Após o prejuízo, a orientação central é documentar as perdas o quanto antes, porque esse registro é a base para pedir indenização de seguro, acionar o Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) e solicitar a prorrogação de dívidas.
“A primeira medida é fotografar e filmar os danos antes de limpar o local ou remover qualquer material, incluindo casas, galpões, aviários, silos, máquinas, cercas, lavouras e rebanhos. O produtor também deve fazer uma lista detalhada das perdas, com o número de animais mortos, a área de lavoura afetada e as máquinas e equipamentos atingidos.”
Em seguida, a orientação é procurar a Defesa Civil ou a prefeitura para registrar formalmente os danos e pedir um comprovante ou número de protocolo – documento que bancos, seguradoras e órgãos públicos podem exigir nos processos de indenização e renegociação. “Se a propriedade, a produção ou o bem tiver seguro, o sinistro deve ser comunicado imediatamente à seguradora ou ao corretor, de preferência por um canal que gere protocolo.”
As orientações completas estão na cartilha de desastres climáticos: https://www.sistemafaep.org.br/wp-content/uploads/2026/08/Cartilha_Desastres-climaticos_web.pdf.


