Eu, minha mãe e a primavera
"Sei que os mortos não cheiram as flores e nem minha mãe está mais ali, mas o que fica é o respeito e uma homenagem por aquilo que acolheu o seu espírito durante toda uma vida
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de novembro de 2019
"Sei que os mortos não cheiram as flores e nem minha mãe está mais ali, mas o que fica é o respeito e uma homenagem por aquilo que acolheu o seu espírito durante toda uma vida
Dailton Martins
Dizem que mãe sempre tem razão e eu penso que isso tem fundamento. Quando mãe manda levar o guarda-chuva, leva, porque vai chover! E se o céu estiver bem limpo, mesmo assim, é bom não contrariar. Instinto de mãe é uma coisa muito poderosa.
Há muitos anos, certa feita, como se dizia no sítio, estávamos voltando de Ibiporã para Londrina e no meio do caminho tinha umas chácaras que vendiam umas mudas de árvores. De repente, minha mãe diz: “É primavera!”
Eu então falei: “Não, mãe, é verão!” Minha mãe disse novamente com uma certeza tranquila, olhando a paisagem que corria do automóvel: “É primavera.” Fiquei intrigado.
Eu não havia entendido por que ela tinha dito que era primavera se estávamos no verão. E teimosia de mãe é uma coisa intrigante e, às vezes, desconcertante, quando não irritante. Por quê? Ora, porque mãe sempre tem razão. Dito e feito.
Minha irmã percebeu minha desatenção e disse para eu olhar para a beira da estrada do outro lado da rodovia pista dupla. E lá estava a resposta. Minha mãe havia notado a exuberância das flores daqueles arbustos de primavera.
Na verdade, um arbusto que cresce bastante e dá muita flor. Como eu estava dirigindo e estava mais de olho no movimento dos carros e caminhões, não havia reparado na paisagem.
Fico assim desculpado pela minha função, mas de qualquer modo lembro desse episódio com uma ponta de remorso. Às vezes ficamos tão atentos em nossas obrigações que deixamos de ver a beleza da vida e até nos tornamos ásperos.
Minha mãe era daquelas que sempre chegava com um raminho de planta em casa quando a gente saía. Gostava de ver um canto do quintal com uma flor ou uma folhagem verde. Quando abria uma flor no pequeno jardim já ia toda orgulhosa mostrando. Afinal, ela que havia plantado.
Ela gostava em especial de crisântemos. Dizem que o crisântemo vem da China e quer dizer, em grego, flor de ouro, e é cultivado há uns dois mil e quinhentos anos. Sempre havia um vaso de crisântemos em casa. Tinha também uns vasinhos de violetas na janela e que volta e meia davam flores.
E quando a gente ia no sítio de algum parente sempre trazia uns galhos, uns caules e sementes de plantas que minhas tias davam. Era uma alegria! Era boldo do Chile, alecrim, bálsamo... E é claro que também não faltava um canteiro de salsinha e cebolinha no meio de tudo aquilo. Uma verdadeira miscelânea.
Quando chega o Dia de Finados, levo ao túmulo de minha mãe um pequeno vaso de crisântemos, desses que se compram na frente do cemitério São Pedro, naquelas banquinhas que antecedem os portões, onde ouço desde criança: “uma esmola para o Asilo São Vicente de Paulo!”. Meu pai sempre dava uma moeda pra eu colocar naquele saquinho.
Sei que os mortos não cheiram as flores e nem minha mãe está mais ali, mas ao mesmo tempo sei que o que fica é o respeito e uma homenagem por aquilo que acolheu o seu espírito durante toda uma vida.
Vão-se as flores, os crisântemos, mas permanecem as primaveras em minha memória. Primaveras que um dia me alertaram para que eu prestasse mais atenção em quem me mostrava a beleza da paisagem, mesmo estando numa longa estrada.
Dailton Martins, leitor da FOLHA