A experiência do desenvolvimento do Programa Nacional do Álcool e a prospecção de petróleo nas profundezas do pré-sal, marcos importantes na história recente dos combustíveis no Brasil, devem ser sucedidos por outra importante transformação na próxima década. A aposta dos especialistas é que o biometano terá tanto peso na matriz energética da mobilidade quanto estes dois eventos e o Paraná já mobilizou pesquisas e esforços para largar nas primeiras posições desta corrida.

O biometano está com reputação em alta tanto entre os ambientalistas por ajudar na descarbonização da economia e na solução de passivos ambientais das cadeias do frango, do porco, da tilápia e do leite quanto entre os investidores, tão certos da sua viabilidade como produto no universo dos biocombustíveis, um filão que deve atrair investimentos da ordem de R$ 260 bilhões até 2035.

Na UEL (Universidade Estadual de Londrina), o professor Angelo Rondina Neto coordena uma atividade acadêmica que tem a finalidade de fazer um diagnóstico completo da cadeia de biogás e biometano nos próximos dois anos, a partir de cinco grandes estudos geoeconômicos e geoespaciais que foram iniciados neste ano letivo. São os primeiros passos de um projeto ambicioso, o chamado Napi (Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação) do Biogás, uma parceria público-privada concebida e financiada pela Fundação Araucária, órgão de fomento científico e tecnológico do governo estadual. A rede de cooperação envolve as mais importantes instituições de ensino superior do Estado e a participação do CIBiogás, uma empresa de Foz do Iguaçu surgida no âmbito do parque tecnológico da Itaipu Binacional.

“O Brasil tem uma vantagem competitiva muito evidente em relação a outros países. É um ator central nesse jogo. E dentro do Brasil, o Paraná está numa posição muito estratégica porque estamos entre os líderes na produção de frango, suíno e leite. Estamos na boca do gol”, resume Rondina, um doutor em Economia e assessor adjunto de Relações Internacionais da universidade.

Os estudos liderados pela UEL vão se deparar com uma cadeia em rápido desenvolvimento. O documento “Panorama do Biogás no Brasil”, elaborado pelo CIBiogás, revela que o Brasil atingiu em 2025 um total de 1.803 plantas de biogás cadastradas, com produção próxima a 5 bilhões de normais metros cúbicos, com crescimento de 5% no número de unidades e 6% no volume produzido em relação ao ano anterior. A conversão de biogás (antes do enxofre ser retirado) em biometano também segue em alta, atingindo 34% do volume total, segundo o anuário.

O professor Angelo Rondina Neto coordena uma atividade acadêmica que tem a finalidade de fazer um diagnóstico completo da cadeia de biogás e biometano
O professor Angelo Rondina Neto coordena uma atividade acadêmica que tem a finalidade de fazer um diagnóstico completo da cadeia de biogás e biometano | Foto: Divulgação

Rondina Neto defende que a intervenção do setor público é fundamental porque, se deixada apenas nas mãos do mercado, a tendência é que os atores permaneçam no modelo atual (efeito lock-in), sem incentivos para incorporar as novas tecnologias. O economista explica que o objetivo final dos estudos do Napi Biogás é justamente propor políticas públicas para acelerar a transição. “Vamos responder muitas perguntas importantes: como está a situação atual do setor no Paraná? Como o mercado funciona no exterior? Quais as vantagens que o Estado possui e o que é necessário em termos de infraestrutura, incentivos e regulação para ampliá-las em relação aos concorrentes?”, explica.

O Renova PR, programa estadual que é uma espécie de motor financeiro para projetos de energia limpa, é liderado por Herlon Goelzer de Almeida, coordenador de Energias Renováveis e Conectividade do Instituto de Desenvolvimento Rural. É uma frente da política pública que trabalha pela mitigação de danos ambientais na atividade agrícola. Através do Banco do Agricultor Paranaense, já foram investidos cerca de R$ 5,8 bilhões, com cerca de 30% deste valor em suporte direto para 10 mil projetos. Com estes recursos, o Estado ganhou 280 novos biodigestores. Uma das prioridades daqui para frente, informa Almeida, é a produção de biometano para a descarbonização logística, substituindo o diesel usado por veículos pesados - caminhões, tratores e colheitadeiras.

Apesar das inegáveis potencialidades para o boom do biometano na próxima década, há detalhes que fazem todos os envolvidos coçarem a cabeça. Um exemplo é o paradoxo geográfico. A biomassa residual formada pelos dejetos da produção de proteína (no confinamento de frangos, porcos e vacas leiteiras) é mais abundante no Oeste e no Sudoeste, enquanto a demanda industrial está na porção leste do Estado. Mas já existem ações que buscam a aproximação destes dois mundos.

O projeto Corredores Rodoviários Sustentáveis planeja a criação de “gasodutos virtuais” que movimentam o biometano comprimido em cilindros em uma rota que inclui 147 municípios cortados pelas principais rodovias do Estado. “O grande lance do biocombustível é o consumo local, próximo de onde ele é produzido. Estes corredores conectam as regiões produtoras ao grande número de caminhões que trafegam pelo Estado. Vamos trabalhar para que até 2035, os postos de combustíveis destas rodovias tenham oferta de gás natural e biometano. Será preciso um volume alto de investimento, mas o Estado vai buscar isso porque existe crédito e existe uma expectativa alta de retorno.” Para Almeida, os corredores se desenvolvendo gradualmente e incluindo o biometano nas bombas, a oferta vai impulsionar a demanda e vice-versa.

Imagem ilustrativa da imagem Estudos na UEL vão estruturar corrida paranaense pela vanguarda na exploração econômica do biometano
| Foto: Herlon Goelzer de Almeida/IDR-PR

O aumento de 40% nos custos dos fertilizantes provocados pelo fechamento do Estreito de Ormuz, por causa da guerra entre EUA e Irã, também adubam a importância da cadeia do biometano, como lembra Rondina. O professor reforça que o processo de biodigestão permite que o digestato (o resíduo sólido e líquido que sobra após a geração do gás) seja decantado e aproveitado para a fertilização. Isso transforma o que antes era um "passivo ambiental" (dejetos sem tratamento) em um ativo econômico valioso para o produtor.

“Esse tema representa um braço essencial das pesquisas do Napi Biogás, com um potencial de ganho enorme para o país, hoje extremamente dependente de fertilizantes importados”, afirma. “A produção local de fertilizantes a partir do rejeito dos biodigestores seria algo fantástico para a soberania do agronegócio brasileiro”, completa. Em suas análises, ele cita que já há estudos avançados sobre a viabilidade de gerar uma gama de produtos extraídos a partir dos resíduos das granjas de aves e porcos. “Os dejetos de suínos são particularmente ricos nos três elementos principais da produção agrícola: nitrogênio, fósforo e potássio.”

Um dos desafios tecnológicos para a produção do biogás na cadeia do frango de corte é a maravalha da cama da granja, já que a lignina da madeira dificulta a digestão da massa. O professor Rondina acha que este problema pode ser superado com a entrada em cena de novas bactérias que poderão ser desenvolvidas no futuro. Mas Herlon ressalta que mesmo com a configuração atual das granjas, a cama de frango pode passar por compostagem para quebrar a lignina e transformar este resíduo em um adubo de alta qualidade.

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