Estratégias para agregar valor
Cristina Côrtes
De Londrina
O futuro da agropecuária paranaense depende da agroindustrialização. Com esta frase o agrônomo e pesquisador Osmar Muzilli inicia sua análise sobre as tendências e perspectivas para o próximo século, explicando que prefere falar somente do Paraná, porque falar de Brasil como um todo é difícil. Na minha opinião, exitem cinco brasis, muito diferentes um do outro nas suas condições de recursos naturais, diz.
Sem expansão de fronteiras agrícolas, o futuro dependerá do aproveitamento agroindustrial e do manejo
Para Muzilli, mesmo que ainda tenhamos que crescer em produtividade em alguns segmentos, o País e o Paraná, em especial, precisa aproveitar melhor sua produção. O crescimento da população vai exigir aumento da oferta de alimentos. A previsão para 2050 é de uma população mundial de 9 bilhões de pessoas. Mas esta oferta não precisa vir necessariamente do crescimento da produtividade ou da expansão de áreas, mas sim da industrialização dos alimentos, comenta.
CompetitividadeO Paraná é reconhecido como um dos maiores produtores de grãos do País, mas nos últimos anos o cultivo de várias espécies como a soja, algodão, milho, tem se deslocado para novas regiões, com bom potencial e expansão de área. Será difícil continuar competindo com essas novas áreas e teremos que buscar um processo associado da produção primária à agroindustrialização, afirma. A agroindústria pode reduzir perdas no transporte, na armazenagem, no tempo de prateleira, dependendo do tipo de produto.
Segundo Muzilli, algumas cooperativas paranaenses já estão neste caminho e conseguindo excelentes resultados, se fortalecendo como a base da agropecuária paranaense. Temos ainda o exemplo das indústrias de café Cacique e Iguaçu, e podemos buscar novas oportunidades, diversificando no setor de alimentos e também têxtil, destaca. - - - - - - -
As características das propriedades paranaenses com base na agricultura familiar são perfeitas para a implantação deste tipo de iniciativa. A proximidade entre área rural e área urbana, as estradas, o potencial do mercado consumidor, são todas condições facilitadoras para o processo, apontadas pelo pesquisador.
GanhosNa avaliação de Muzilli, os maiores ganhos na agricultura, neste século, foram obtidos nos últimos 30 anos: a conscientização da importância dos recursos naturais, com o desenvolvimento do sistema de Plantio Direto que protege o solo, a água e o ar; melhoramento genético, destacando o esforço do homem em adaptar a planta ao meio em que vive. No passado a produção agrícola era baseada em processos mecânicos e químicos. Agora isto está sendo substituído por processos biológicos/culturais. diz.
A agricultura sustentável pressupõe a otimização da produção, com a conservação dos recursos naturais, e para isso é necessário o domínio de conceitos de sustentabilidade, implementação, monitoramento e avaliação.
Segundo Muzilli, a América Latina tem aumentado sua população e os incentivos à expansão agrícola levou à derrubada de 120 milhões de hectares nos últimos 25 anos. Nos últimos anos a área agrícola dobrou, o uso de tratores triplicou e o uso de fertilizantes aumentou seis vezes. informa. A consequência foi a degradação de várias regiões.
A questão da qualidade da água é destacada pelo pesquisador como urgente e imediata. Somos o Planeta Água e corremos o risco de ter falta de água potável num futuro bem próximo, se as providências necessárias não forem tomadas, alerta.
FuturoOs países desenvolvidos estão investindo em dois segmentos fortes para o próximo milênio: conhecimento e alimentação. A dominação de um país sobre outro vai se dar nestas duas áreas, segundo o pesquisador, e o Brasil ainda não descobriu ou desconhece seu potencial.
Com recursos naturais abundantes, condições de solo e clima favoráveis, um estoque de tecnologias disponíveis, temos quase tudo para dar certo. Falta o cidadão brasileiro exigir, participar mais de todo o processo. Não podemos mais aceitar que o País tenha que importar alimento, leite, feijão, trigo, entre outros. Isto é um absurdo, argumenta.
A independência tecnólogica, em especial a pesquisa agropecuária no Brasil está sendo ameaçada por forças que vêm de longe, segundo Muzilli, e isto é perigoso. Nestes 30 anos que se passaram, o País conseguiu estruturar seus centros de pesquisa e os resultados estão aí: a viabilização da cafeicultura com o plantio adensado, a soja adaptada às regiões tropicais, só para citar dois casos. Segundo o pesquisador, esses avanços estão incomodando e ferindo outros interesses, e as dificuldades enfrentadas atualmente por esses centros são enormes. Mas sou otimista e acredito no futuro, finaliza.





