Desde que o efeito terapêutico do uso da espinheira-santa como medicamento contra gastrite e úlcera gástrica foi comprovado em artigo científico publicado em 1988, ocorreu um extrativismo tão grande em torno da planta, que a colocou sob a ameaça de extinção. Além disso, outra ameaça ronda a espinheira-santa, uma planta medicinal originária do Sul do País e de algumas regiões do Paraguai, Uruguai e Argentina: o Japão está tentando patentear a planta para fabricação de analgésicos no tratamento de pacientes com câncer.
A pressão de laboratórios estrangeiros sobre as variedades de plantas medicinais brasileiras é grande, disse a engenheira agrônoma Marianne Christina Scheffer, que está defendendo uma tese sobre a necessidade de preservar a espinheira-santa. Scheffer disse que o seu trabalho está sendo coordenado pelo professor da Faculdade de Florestas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Antônio José de Araújo, e apoiado pela Universidade Federal do Paraná, instituição de pesquisa do Rio Grande do Sul e várias Ongs.
Alerta‘‘Se o governo não se alertar, em breve um laboratório de origem multinacional poderá patentear o princípio ativo da espinheira-santa’’, observou. Com isso, os brasileiros poderão pagar royalties para consumir o medicamento produzido com o principio ativo da planta que é essencialmente brasileira, advertiu.
‘‘Para os japoneses manifestarem a intenção de patentear a espinheira-santa, é porque já passaram muito tempo aqui, coletando a planta, contribuindo para agravar o seu processo de extrativismo, até quase levá-la à extinção’’, acredita a pesquisadora. Se esse processo não for barrado, certamente o País pagará por um medicamento, cuja planta que produz o princípio ativo só é encontrada na região Sul do Brasil, acrescentou.
Marianne Scheffer destacou que a pesquisa científica de plantas medicinais deveria receber apoio do governo, com recursos, para ajudar o produtor que ‘‘heroicamente está fazendo a sua parte com cultivos particulares, mas sem saber se as variedades que está plantando têm os princípios ativos ou não’’. Alerta a agrônoma, o País precisa acordar para essa necessidade, antes que os laboratórios estrangeiros consigam patentear medicamentos cujos princípios ativos são oriundos de plantas brasileiras.
GarantiaScheffer sugere que o Brasil aprove legislação que garanta à população o desfrute dos benefícios da biodiversidade nacional, que ‘‘por enquanto está só no discurso’’, declarou. Ela destacou que é uma temeridade o fato de o Brasil não ter mecanismos de proteção da nossa riqueza e nem de preservação do conhecimento popular de plantas medicinais, que precisa ser valorizado, insistiu.
Como a espinheira-santa, outras espécies medicinais como a carqueja e o guaco precisam ser avaliadas se estão correndo riscos de extinção, para garantir o material de propagação dessas espécies.
TeseMarianne Christina Scheffer está desenvolvendo um estudo para a preservação da espinheira-santa. O requisito básico do seu trabalho é a preservação dos princípios ativos nas diversas variedades genéticas da planta. O objetivo é saber a quantidade de princípios ativos que estão sendo multiplicados no material que está sendo propagado no campo, explicou. O apoio da pesquisa é fundamental, para evitar que o produtor multiplique plantas medicinais com poucos princípios ativos.
Para iniciar esse trabalho, Marianne se dedicou à coleta de sementes, que é muito difícil, salientou. Isso porque a planta frutifica entre os meses de dezembro e fevereiro, período muito chuvoso e geralmente as sementes são carregadas para os rios, sem que os produtores tenham acesso a elas. A agrônoma percorreu os três Estados da região Sul com o auxílio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Fepagro (órgão de pesquisa do RS) e ainda o apoio de várias Ongs. Conseguiu coletar sementes em mais de 100 árvores matrizes, para produção de mudas.
As sementes foram multiplicadas em cerca de 2.000 mudas, das quais 1000 foram enviadas para a estação da Embrapa em Ponta Grossa, e outras 1000 foram plantadas numa área de produção conveniada com a UFPR, em São José dos Pinhais. Agora a pesquisadora está se dedicando aos testes de progênie, em que os filhos de cada matriz são analisados em bloco, para avaliar a procedência e identificar qual variedade concentra mais princípios ativos. A diferença entre elas pode ser identificada pela coloração das folhas ou pela quantidade de espinhos que ela tem, explicou. ‘‘É a base genética da planta que preserva a espécie’’, resumiu.
A multiplicação da espécie vai integrar um projeto de fitoterapia, da Secretaria da Saúde, que selecionou 16 espécies de ervas medicinais para o desenvolvimento de medicamentos. Mas, antes de trabalhar na fabricação dos medicamento, era preciso garantir a produção da espécie que está ameaçada de extinção; daí a necessidade de fazer um trabalho de preservação da espécie, justificou Scheffer.Leandro TaquesDifusãoMarianne Christina Scheffer apresenta as mudas de espinheira-santa que serão replantadas em campos de produçãoCanteiro de mudas de espinheira-santa: tentativa de preservar a plantaBrasileiros poderão ser obrigados a pagar direitos pelo uso medicinal de uma planta nativa do País

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