A deficiência hídrica já entra no sétimo mês nas principais regiões cafeeiras do Paraná e a colheita revela grãos miúdos, outros já vermelhos (maduros) porém murchos. O cafeicultor Wilson Baggio, presidente da Comissão de Café da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) e membro do Centro Nacional do Café, diz que a situação é confirmada pelo resultado da renda: no ano passado, para se fazer um quilo de café torrado, usavam-se 7.450 grãos; hoje um quilo de café precisa de 10.006 grãos.
‘‘É uma diferença de 33% de uma safra para outra. Isto significa que teremos uma queda de 20 a 30% na produção deste ano, devido aos estragos causados pela estiagem’’, acrescenta Baggio, que também é presidente do Sindicato Rural da Zona de Cornélio Procópio.
PrevisõesComo a seca facilita a colheita, calculava-se que a deste ano, iniciada em meados de abril, no começo da semana estivesse com 6-8% colhidos, pouco mais adiantada em relação à colheita passada, lembra o agrônomo do Departamento da Economia Rural (Deral) em Apucarana, Paulo Sérgio Franzini. A Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Estado (Seab) já fez duas avaliações da presente safra: uma em dezembro, a segunda em março-abril e está fazendo a terceira agora. Esta é por geomonitoramento, que utiliza GPS (um instrumento de última geração, capaz de fornecer informações para estimativas exatas da situação das lavouras e outros dados que permitam uma visão completa do que vem acontecendo com as plantações, e suas tendências.
A produção já foi em parte afetada pela estiagem, e Paulo Sérgio Pranzini, do Deral, destaca que por isso ‘‘é fundamental que alguns cuidados básicos sejam tomados durante o processo de colheita e secagem, como: colheita seletiva e no pano; secagem e armazenagem separada da produção de derriça e varrição, para se obter melhor qualidade’’.
A safra brasileira de café estava prevista em 28 milhões de sacas, a do Paraná em torno de 2,2 milhões – falava-se em até 5 milhões de sacas beneficidas –, porém Baggio não acredita que dê ao menos aquele patamar menor, devido ao que já aconteceu e também porque vem aí outra seca, do período normal, pois o inverno é a época mais seca do ano, na região cafeeira do Paraná. Sem falar no frio, na possibilidade de geadas no inverno.
Embora a situação seja de baixa produtividade, os preços do café no mercado internacional cairam muito; por isso Wilson Baggio salientava no começo da semana a importância da reunião, marcada para quinta-feira e ontem, da Associação dos Países Produtores de Café (APPC), que deveriam decidir pelo corte, este ano, de 5 a 6 milhões de sacas da oferta mundial.
Baggio explicava que os preços estavam por volta dos 94 cents a libra-peso, contra os preços históricos (U$1,20-U$1,40) que vigoravam em 1989, quando foram suspensas as cláusulas econômica da oorganização internacional do Café.
No entanto, e apesar das boas floradas concentradas em setembro, no Paraná, a maturação dos grãos tem sido desuniforme, conforme observa o técnico do Deral. Os acompanhamentos sistemáticos e novas amostragens da safra vêm confirmando a quebra na produção esperada para este ano, que deveria situar-se entre 2,2 e 2,3 milhões de sacas. Baggio prevê que, devido à quebra, a colheita será ainda menor. Franzini, porém, tem dúvidas; ele acredita que esses números não devem alterar-se . ‘‘É o que os dados indicam, pelo rendimento calculado’’, justifica-se. Ele lembra que o café novo ainda não está sendo beneficiado. Maquinistas observam que a renda está baixa’’, porém Franzini afirma que a situação continua indefinida, dentro daqueles parâmetros (safra paranaense de 2,2-2,3 milhões de sacas). Lavoureiros e pecuaristas esperam chuva há tempos, pois a estiagem está prejudicando a produção rural desde as pastagens aos cafeeiros. Franzini informa que choveu pouco. Na região de Apucarana, por exemplo, a precipitação média chegou a 16 milímetros, apenas. ‘‘Estamos precisando de mais chuva. A situação das lavouras mais novas de café, principalmente, está sendo prejudicada’’, lamenta o técnico.
A estiagemWilson Baggio olha seus cadernos de anotações, no seu escritório em Cornélio Procópio, e mostra a situação das chuvas desde agosto, naquela região: agosto – não choveu nada; setembro – choveu 91 mm; outubro – 74 mm; novembro – 11 mm; dezembro – 90 mm (‘‘E essa é a época de formação dos grãos’’, observa o cafeicultor); janeiro 2000 – 134 mm; fevereiro – 287 mm; março – 95 mm; abril – 8 mm; maio não chovera nada até dia 16 no final da tarde, quando cairam em média, na região, de 10 a 15 mm, quantidade insuficiente para germinar o trigo plantado no pó, mas ‘‘pra quem está com sede um pingo de água na língua já ajuda’’, comenta Wilson Baggio. No mesmo dia, a estação meteorológica do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) em Londrina registrou 19 mm.
Baggio vê mais risco para o trigo: ‘‘Muito trigo foi plantado no pó e se não chover mais, a maior parte das sementes não germinará e as restantes germinarão mal. O déficit hídrico é muito grande, já repercutiu negativamente em todas as culturas’’. Ele dá o exemplo da soja, que na sua região produz normalmente de 120 a 130 sacas por hectare e caiu para menos de 100 sacas/ha; situação semelhante ocorreu com milho, outras culturas anuais e pastagens. Ao contrário da geada, que por mais forte deixa alguma coisa a salvo conforme o lugar onde a cultura está, a seca pega tudo, da beira do rio ao espigão, lembra o agricultor.
Por isso, no caso das pastagens, mesmo antes do inverno elas já não têm massa, não têm capim. A seca rebaixou os lençóis de água, as minas estão secas ou secando; as plantações estão murchando rapidamente. Como ocorre no caso dos cafezais de primeira carga, aos dois ou três anos, que logo de manhã já mostram as folhas murchadas.

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