Estado assiste à distância à nova era do algodão
Potência da cotonicultura nos anos 1980 e 1990, o Paraná colheu apenas 4.800 toneladas na última safra
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domingo, 15 de março de 2026
Potência da cotonicultura nos anos 1980 e 1990, o Paraná colheu apenas 4.800 toneladas na última safra
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

Um ramo da agricultura que teve em 2025 um VPB (Valor Bruto da Produção) de mais de R$ 43 bilhões - e vive seu auge histórico ainda com viés de alta - está praticamente desaparecido no Paraná.
Potência da cotonicultura nos anos 1980 e 1990, quando chegou a colher em um ano mais de um milhão de toneladas de algodão em caroço na safra 1984/1985 (de acordo com os dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento), o Estado colheu apenas 4.800 toneladas na última safra e conta agora com a dedicação de poucas dezenas de agricultores. Em 40 anos, a área plantada caiu de 540 mil para 1,6 mil hectares.
Enquanto isso, o Mato Grosso teve uma trajetória inversa. Quarenta anos atrás, a safra do algodão com caroço no maior estado do Centro-Oeste era de cerca de 70 mil toneladas. Para a safra 2025/2026, a previsão é que o novo líder colha 2,2 milhões de toneladas, mais que o dobro de uma década atrás e cinco vezes mais em relação ao início do século.
Por trás destes números tão díspares, existem as letras de uma história emblemática das mudanças profundas que a agricultura brasileira sofreu em menos de meio século. A nova geografia da cotonicultura envolve uma modernização da produção que fez o Brasil passar de importador a exportador da fibra, o maior do mundo desde 2024.
Enquanto o líder do passado era resultado de um trabalho coletivo feito em pequenas e médias propriedades, tomadas pela abundante mão-de-obra dos boias-frias para o plantio, o desbaste e a colheita manual, o líder do presente produz em grandes propriedades, altamente mecanizadas e com investimento maciço em novas cultivares.
“Tanto em São Paulo quanto no Paraná o desenvolvimento das cultivares dependeram do trabalho de instituições públicas, que além de desenvolver, distribuíam aos agricultores. No Cerrado, foi o setor privado que se organizou e criou, por exemplo, a Fundação Mato Grosso, que é privada. O Instituto Matogrossense do Algodão também fez um trabalho de melhoramento genético com o apoio das multinacionais, que competem na venda das sementes e fez este avanço ser mais rápido, inclusive com a adoção dos transgênicos, que tornou as cultivares mais resistentes às pragas”, explica o pesquisador de sistemas de produção e manejo da cultura do algodão, Fábio Rafael Echer, um pós-doutor formado na Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu e que é professor dos programas de graduação e pós-graduação em Agronomia na Unoeste, em Presidente Prudente.
Diálogo direto com a Ásia
Portanto, o ocaso do Paraná na produção de algodão não deixa também de ser um exemplo de como o tipo de agricultura do século XX ficou no passado e como o trabalho braçal deixou de ser conveniente para o agronegócio. “Além das vantagens comparativas decorrentes da escala de produção, os grandes produtores vendem diretamente a fibra e vendem ou utilizam o caroço na alimentação animal. Eles estão organizados em associações estaduais que constituem a Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), que observam aspectos como sustentabilidade, qualidade da fibra e rastreabilidade”, explica o pesquisador Fernando Mendes Lamas, do Centro de Pesquisa Ecorregional da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados (MS).

“A Abrapa possui representantes na Ásia, continente que mais consome a fibra e grande comprador do algodão brasileiro, que promovem eventos de encontros entre as duas partes. Os produtores também mantêm o Centro de Pesquisa de Algodão, em Primavera do Leste,que desenvolve tecnologias em conjunto com a Embrapa e universidades. A dobradinha soja e algodão, modelo que predomina no Mato Grosso e Oeste da Bahia em sistema irrigado, garante boa lucratividade. Não acredito em disruptura deste atual modelo”, analisa.

Almir Montecelli é um dos poucos produtores de algodão do Estado. Ele lidera a Acopar (Associação dos Cotonicultores Paranaenses), sediada em Ibiporã. O agricultor lembra que nos tempos de liderança nacional, a cultura já enfrentava um cenário difícil, com os pequenos proprietários tendo dificuldade para contratar e transportar os boias-frias, com a proliferação do bicudo (o besouro Anthonomus grandis) e a baixa qualidade da produção. Como os trabalhadores ganhavam por arroba, a pluma vinha com muita sujeira, o que impedia qualquer chance do produto ser exportado. “Nas sacas, vinham pedaços de rami, pedra, caco, capim. Tínhamos um problema muito sério e nosso produto estava depreciado”, explica.
Outro aspecto importante era que o manejo que se praticava à época dependia da colheita manual porque podia ser feita aos poucos e a chuva não afetava tanto a colheita, já que nunca atingia a planta já madura, aberta. A mecanização depende que a lavoura esteja toda no ponto de colheita e, neste caso, a chuva atinge a pluma desprotegida, causando grandes perdas. “Por uma série de fatores, muitos produtores paranaenses de algodão foram migrando para o Mato Grosso e com isso muitos agrônomos e pesquisadores acompanharam este movimento e criaram a base para uma nova cotonicultura”, explica Montecelli.
O regime de chuvas é um dos principais obstáculos para a retomada, afirmam os especialistas. A mecanização exige uma janela de tempo seco suficiente para as máquinas trabalharem. Nos anos 1980/90, o plantio era no fim de setembro e início de outubro e a colheita em março. As variedades tinham poucos capulhos (fruto com a casca), de tamanho grande, o que facilitava a catação manual. Na nova cotonicultura, com variedades de plantas originárias da Austrália e dos Estados Unidos, os frutos são menores, mais agarrados e em maior quantidade, o que facilita a colheita mecanizada.
Drones e robôs
Desde 2017, a Acopar faz um trabalho de formiguinha com palestras e atividades de campo em lavouras já estabelecidas. A falta de pesquisas para o cultivo das variedades adaptadas à mecanização e ao clima do Norte e Noroeste do Estado é um obstáculo importante, embora o líder desta retomada afirme que encontrou no mercado sementes que já deram bons resultados com o atraso no plantio para novembro. Ainda é um movimento tímido, que ocupa 1.600 hectares na safra deste ano, mas bem melhor que os inacreditáveis 100 hectares da safra de 2010/11. Como forma de incentivo, a Acopar cede o maquinário da colheita e transporte para o beneficiamento, feito em uma empresa no Oeste Paulista.
Reintroduzir o algodão em larga escala em estados como Paraná e São Paulo depende da adoção intensiva de tecnologia e de uma nova geração de produtores, pondera Echer. Ele acha importante que esta retomada não carregue os traumas que a cultura deixou em muitas regiões pelas dificuldades e perdas sucessivas. E como se o algodão, com sua imensa demanda na Ásia, se tornasse um desafio para quem enxerga o campo como um experimento fascinante à base de drones, robôs e uso de biotecnologia disruptiva. Echer também pondera que esta retomada depende também da rotação com outra cultura rentável para bancar os investimentos em maquinários e tecnologia e ainda garantir lucratividade.
Barreira crítica para os planos da Acopar e seu valioso voluntarismo, a falta de infraestrutura também é alvo de grande preocupação para quem é especialista no tema, como Mendes Lamas. “Embora sob o ponto de vista agronômico os resultados obtidos são considerados bons, a desestruturação do sistema de produção constitui um obstáculo difícil de ser transposto para a retomada do cultivo do algodoeiro em solo paranaense”, opina o pesquisador da Embrapa.
Retomada exige investimentos pesados
“O cultivo do algodoeiro pode ser uma excelente alternativa para a rotação de culturas, mas, para isso, faz-se necessário reestruturar todo o sistema de produção com máquina para semeadura, colheita e beneficiamento, laboratório para análise de fibra, o que exigirá uma soma de recursos vultosa”, adverte. “Para retomada do cultivo do algodoeiro em regiões antes importantes produtoras, é fundamental a organização dos produtores para a comercialização, estruturas próximas para o beneficiamento do algodão em caroço, a implantação de laboratórios para análise da qualidade da fibra e uma forte retaguarda tecnológica na pesquisa e na assistência técnica. A indústria têxtil está extremamente exigente, o que demanda cuidados especiais da semeadura à colheita”, conclui. Para Lamas, a demanda que já existe com as fiações instaladas no Estado é um ponto positivo. Montecelli, inclusive, lembra que a demanda destas indústrias já garantiria o plantio de 50 mil hectares. “Há nichos de mercado, mesmo com a concorrência direta com a celulose e a fibra sintética. É preciso entender quais são eles”, lembra Lamas.
O desafio paranaense é se integrar a um sistema que vem impressionando o mercado internacional, que em relatórios recentes não poupam elogios à nova cotonicultura brasileira. Para os estrangeiros, o Brasil seguirá sendo, ao lado dos Estados Unidos, o grande fornecedor global da fibra, um diagnóstico que garante o olhar generoso dos investidores estrangeiros e as chances reais de expansão. O que ainda não se sabe é se a produção continuará concentrada na próxima década no Centro-Oeste e na região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) ou se as antigas áreas produtoras vão recuperar o protagonismo perdido.
Reconhecimento internacional
No mais recente relatório do ICAC, o Comitê Consultivo Internacional do Algodão, o verbete Brasil brilha. “Reforçou seu status de potência tanto na produção quanto nas exportações. Grandes fazendas mecanizadas alavancaram a escala, a agronomia avançada e uma forte cultura de dados resultam em operações eficientes. A logística - um ponto focal de longa data - continuou a melhorar, com atualizações contínuas em armazenamento, conexões rodoviárias e ferroviárias e movimentação portuária. Esse progresso tem apoiado fluxos confiáveis para destinos importantes mesmo durante períodos de congestionamento global no transporte marítimo. A documentação de sustentabilidade expandiu-se por meio de programas agrícolas que rastreiam boas práticas, e as partes interessadas brasileiras têm dado crescente ênfase ao alinhamento das conquistas agronômicas com as necessidades de rastreabilidades dos compradores”, diz um trecho do documento.
“As discussões sobre investimentos incluem cada vez mais oportunidades no setor têxtil nacional, particularmente em regiões que podem conectar a produção com o processamento próximo”, avalia, antes de alertar que há uma lista de riscos. “Variabilidade climática, oscilações nos custos de fertilizantes e flutuações cambiais. Mas a escala e o profissionalismo do setor têm proporcionado resiliência”, elogia o ICAC.
Sem desanimar diante dos enormes desafios em trazer a prosperidade do algodão de volta para casa, Montecelli, com o otimismo de quem não se conforma com pouco, prefere exaltar as qualidades do solo do Paraná e sua produtividade natural, um trunfo que reduz custos de produção. Ele sonha com um cenário no qual na próxima década as lavouras já ocupem 20 mil hectares, uma realidade que faria os agricultores entenderem melhor como a produtividade da soja sobe com o plantio do algodão antes. Ele garante que o ganho é de cerca de 20%. Especialistas dizem que este incremento pode ser ainda maior, dado o tripé formado pelos resíduos nutricionais, o sistema radicular do algodão que ajuda a descompactar o solo e o manejo de pragas, porque a rotação interrompe o ciclo de desenvolvimento dos inimigos naturais do grão.


