Mudança nas características do solo e na fisiologia das plantas podem ser percebidas por um produtor mais atento. Norman Neumaier, ecofisiologista da Embrapa Soja, afirma que a seca está muito no início da safra, o que ainda fica difícil de mensurar se haverá ou não prejuízos na colheita 2014/15. "Não dá para precisar o que irá acontecer", completa o especialista.
Ele explica que a falta de chuvas traz uma série de consequências para a lavoura como aumento da radiação solar sobre as plantas, elevação da temperatura do ar, evaporação de água no solo para a atmosfera e queda na umidade relativa do ar. "Tudo isso causa alta demanda evaporativa por parte das plantas e do solo", afirma o ecofisiologista.
Neumaier aponta que um dos primeiros sintomas de deficit hídrico é a leve murcha das folhas das plantas, podendo levá-las, em casos mais extremos, à morte. Quando fica muito tempo sem chover, o pesquisador explica que a planta fecha os estômatos (estruturas celulares que têm a função de realizar trocas gasosas) para reter mais água no interior da folha. Porém, o pesquisador da Embrapa Soja frisa que a consequência do fechamento desses estômatos eleva a temperatura interna da planta.
Quando isso acontece, o metabolismo da planta passa a ficar mais lento, podendo influenciar negativamente nos índices de produtividade. Neumaier explica que quando o estômato da planta está fechado motivado pelo deficit hídrico, a temperatura interna pode se elevar de 2°C a 3°C a mais se comparado à temperatura ambiente. Em condições normais, a temperatura interna de uma planta de soja pode variar de 2°C a 3°C a menos em relação à temperatura ambiente. O ecofisiologista acrescenta que toda a química da planta está preparada para trabalhar com uma determinada temperatura.
Neumaier aponta também que a falta de água reduz a capacidade das plantas em fixar nitrogênio. "Em altas temperaturas, as enzimas perdem conformação", destaca. Vale lembrar que conformação é a capacidade de quebra e associação das moléculas. Outro malefício que a seca pode causar em uma lavoura é o alto índice de abortamento das flores e até mesmo das vagens na fase de enchimento de grãos.
Questionado sobre a criação de variedades resistentes ao deficit hídrico, Neumaier explica que a tecnologia ameniza os efeitos, mas não é a solução para o problema.

Efeito cascata
O ecofisiologista salienta que uma das primeiras consequências da falta de chuva é o atraso no plantio. "As variedades são desenvolvidas para serem plantadas em um determinado período. Se semeadas fora da época adequada, pode acarretar em queda nos rendimentos", observa. Neumaier aponta que o produtor deve plantar com uma certa umidade, já que plantar no pó (terra seca) é perigoso.
Ele explica que cada semente precisa de 50% de seu peso em água para germinar. No florescimento, Neumaier elucida que o deficit hídrico aumenta o índice de abortamento das flores para garantir que algumas consigam sobreviver à falta de água. A demanda de água para a cultura da soja gira em torno de 7 milímetros (mm) por dia. Se a estiagem persistir, na fase de enchimento de grãos, a planta pode abortar boa parte das flores, o que reduz à produção. "A planta se programa, sempre reagindo aos fatores climáticos", salienta.
Sem chuva, não há muito o que fazer, avalia o pesquisador da Embrapa. No entanto, a adoção de um manejo adequado pode ajudar a amenizar os efeitos do clima. Neumaier afirma que o produtor deve utilizar variedade mais adaptadas ao clima do momento e, ao mesmo tempo, utilizar diferentes variedades em uma mesma safra. Segundo ele, essa atitude ameniza os prejuízos. Manter um solo com uma boa cobertura vegetal pode ajudar na retenção da umidade no solo. Para isso, o produtor precisa fazer um plantio direto bem feito. Neumaier acrescenta que a rotação de cultura aumenta o índice de palhada e mantém o solo permeável. (R.M.)

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