Amizade com vizinho é algo muito bom. Entre as crianças e entre os adultos. Enquanto as mães conversavam no portão, a molecada corria solta. De bola, carrinho de rolimã, bicicleta e o que o tempo permitisse. Era época em que as brincadeiras de rua predominavam e poucos eram os que tinham um videogame em casa e preferiam ficar fechados.

Por muitos anos, morei em um condomínio de casas em São Paulo em que a liberdade já era atrativo. Era década de 1980 e dois morrinhos de terra eram a atração principal do empreendimento. A escalada de bicicleta era uma verdadeira aventura para meninos e meninas e quando um da renca se machucava, por ali mesmo, entre os amigos, era dado o salvamento. Nada de grave. Um ralado aqui, outro ali e logo vinham as risadas.

Com uma turma tão grande, praticamente todo fim de semana havia festa de aniversário. Era na garagem da casa, com um painel colado no fundo, bolo, brigadeiro, beijinho feitos pelas mães e, pra começar, um pãozinho com carne maluca. Os presentes podiam ser calcinhas e cuecas para o aniversariante e cada um que ia embora da festa após o "parabéns", levava para a própria mãe um pratinho com bolo e docinhos - em sinal de gratidão pelo comparecimento.

Com hora para começar e terminar, a festa tinha dança das cadeiras, da vassoura e duas outras lembranças me ocorrem: a lona laranja no portão, para dar mais privacidade à comemoração e um bexigão, lotado de doces, balas e surpresas e que fazia todo mundo ficar debaixo dele, à espera de um chuva de guloseimas.

Nos outros dias, quando não havia festa de aniversário, também era muito divertido morar na pracinha. Os pais eram bons vizinhos, os cachorros se davam bem e não era raro ver uma dona de casa salvando a receita da outra com uma xícara de chá de açúcar. Os revezamentos de carro de quem levava e buscava na escola facilitavam e era permitido um dormir na casa do outro de vez em quando.

Na casa da Ludmila, a coleção de livros infantis era disputada e seus pais deixavam montar até cabaninha na sala. A mãe da Vanessa nunca brigou quando brincávamos de casinha na cozinha: com direito a usar o fogão e deixar a louça lavadinha. Copiávamos as mães com direito a cuba seca, a cortina fechada, o adorno sobre o fogão e a passadeira milimetricamente posicionada.

Com tempo livre e a tarefa feita, muitas vezes como se fosse um brincadeira, tinha guerra de bexiga cheia de água no corredor da casa e nos dias de chuva as meninas investiam nas trocas de papel de carta e os meninos jogavam bolinha de gude até no carpete - ou brincavam de bafo. Era passatempo que não acabava mais e ninguém conhecia a palavra entediado.

Imagem ilustrativa da imagem Era uma rua muito animada
| Foto: Marco Jacobsen



Walkiria Vieira, jornalista da FOLHA

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