Entre a cruz e a espada
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sexta-feira, 28 de julho de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Nunca se viu tantos contrastes durante a colheita do café como agora. A estiagem já comprometeu a produção desta safra, estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 40,6 milhões de sacas. O clima quente e seco modificou a fisiologia das plantas de café, acelerando a formação de botões que deveriam florir somente na segunda quinzena de agosto.
Para garantir a produtividade da safra seguinte, os produtores abriram mão da qualidade desta safra e começaram a colher os grãos ainda verdes. ''Outra opção seria esperar o grão amadurecer na planta e realizar uma colheita mais cuidadosa, mas para isso o cafeicultor teria de contratar mão-de-obra extremamente qualificada'', alerta o corretor e degustador de café Marcos Aurélio Bacceti.
Segundo ele, a aceleração da colheita culminou no acúmulo de café nos terreirões. Sem estrutura para secar e armazenar tanto café de uma só vez, os produtores se vêem entre a cruz e a espada. ''Os cafeicultores têm sido desatentos no processo de pós-colheita. Estão confiando no tempo seco e não estão mexendo o café no terreirão e isso certamente afetará a qualidade da bebida'', constata o degustador.
Ele recorda que no ano passado, diversas floradas causaram a maturação desigual dos cafezais, comprometendo a granação, também afetada pela estiagem este ano. ''Sem água, não há movimentação de nutrientes na planta, o que faz com que o grão seja menor'', explica Bacceti. ''Quanto menor a granação, maior a quebra de safra'', completa.
De acordo com o corretor, muitos cafeicultores já encerraram a colheita e até já comercializaram a produção, mas o estresse hídrico os impede de adubar o cafezal para a próxima safra. ''A falta d'água dificulta ainda o controle de doenças como o bicho mineiro e a ferrugem, que começam a preocupar os produtores não só no Paraná como em São Paulo e Minas Gerais'', informa Bacceti.
Das 40,6 milhões de sacas que devem ser produzidas no Brasil, mais de 25 milhões serão destinadas à exportação. Outras 15 milhões de sacas devem ser consumidas no mercado interno. ''Esses valores demonstram que a produção nacional mal consegue suprir as demandas internas'', avalia o corretor.
Segundo ele, o marketing em torno do café fez com que o consumo nacional e mundial aumentasse significativamente nos últimos anos. ''Diversas empresas internacionais têm investido no País, que tem priorizado bastante a qualidade'', assinala Bacceti.
Ele acredita que os preços hoje cotados a R$ 210 a saca com 60 quilos de café beneficiado, de bebida dura, tipo 6 devem crescer dentro dos próximos três ou quatro meses. ''Como a produção não acompanha o consumo, a tendência é de alta nos preços. Mas os cafeicultores têm que estar conscientes de que precisam produzir com qualidade.''


