‘Ensaio’ em Irati tenta simular dificuldades dos coletores no Censo Agropecuário do ano que vem
Características atípicas do município paranaense motivaram testes do IBGE para aprimorar estratégias na coleta de informações que começa em junho de 2027
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de maio de 2026
Características atípicas do município paranaense motivaram testes do IBGE para aprimorar estratégias na coleta de informações que começa em junho de 2027
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O planejamento do 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola (CAFA) já está em curso. Depois da etapa de avaliação inicial do formato do questionário e do funcionamento dos dispositivos e aplicativos dos recenseadores, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realiza até o fim da semana que vem a chamada segunda prova piloto para identificar os possíveis obstáculos do uso da tecnologia em áreas diferenciadas do País.
O objetivo é deixar tudo ajustado para a etapa seguinte, o Censo Experimental, fase derradeira prevista para dezembro e que marca o encerramento dos testes para o trabalho de campo. De acordo com o cronograma do governo federal, a coleta oficial começa no primeiro dia de junho do ano que vem.
Localizada na borda da Serra da Esperança, numa região que marca a transição do segundo com o terceiro planalto do Estado, Irati, na Região Intermediária de Ponta Grossa (80 minutos de carro), é um dos dois municípios do Sul do Brasil a estar na segunda prova piloto do censo - o outro é Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Em todo o País, mais quatro municípios estão realizando a mesma atividade: a paraense Barcarena, a piauiense Uruçuí, a goiana Rio Verde e a sul-mato-grossense Corumbá.

São municípios considerados pelo IBGE especialmente complexos, com modelos de produção e técnicas singulares em relação à agricultura convencional.
Sistema faxinal
Jorge Mryzcka, supervisor das Pesquisas Agropecuárias e coordenador técnico do Censo Agropecuário no Paraná, disse à FOLHA por telefone durante o intervalo no trabalho de campo, que Irati está no rol principalmente pela presença do sistema faxinal no município. Os faxinais são áreas de uso comum onde um grupo de produtores cria os rebanhos soltos e compartilha lavouras para subsistência.
“Por ser uma situação muito diferente das propriedades rurais comuns, o IBGE precisa testar como identificar e registrar estes dados adequadamente.” A outra característica destas áreas, que se espalham pelo centro do hemisfério leste do Estado, é o extrativismo florestal de baixo impacto, com uma preocupação preservacionista passada de geração em geração nos últimos dois séculos, como apontam as pesquisas acadêmicas realizadas pelas universidades paranaenses desde os anos 1970.
Mesmo com este modo tradicional de lidar com a terra em parte do seu território, Irati consegue ter um bom desempenho na receita agropecuária. De acordo com dados da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento, o município faz parte do Clube do Bilhão, o grupo de elite entre os 399 municípios do Estado quando o assunto é o Valor Bruto de Produção. Soja, tabaco, feijão e cebola representam dois terços desta receita.
Curitibano, Mryzcka se orgulha de prospectar dados sobre o mundo agrícola há quase 50 anos. Ele chegou a participar de três censos no século XX. Com outros três levantamentos no século XXI, ele pode dizer que participou da metade dos 12 CAFAs realizados no Brasil - o primeiro foi no Censo de 1920, em plena República Velha, quando o Brasil tinha apenas 643 municípios (hoje são 5.570) e 648 mil estabelecimentos agrícolas (hoje são mais de 5 milhões).
Na memória, a Acarpa, Pitanga e Salto do Lontra
Com 46 anos no instituto, já passou por todos os perrengues inerentes ao tráfego no campo, em regiões isoladas, e sabe como poucos como se deu a revolução agrícola no Paraná. “Meu primeiro censo foi o de 1980. Ainda havia muitos desdobramentos da grande geada de 1975, um enorme êxodo rural em andamento, com os grãos já tomando o espaço que era do café.”
Entre tanta poeira e atoleiro nas lembranças, ele lembra que foi chamado para organizar o trabalho em áreas de difícil acesso no município de Salto do Lontra, no Sudoeste do Estado, uma prova de fogo para o calouro que já tinha no currículo uma curta passagem pela Acarpa, a primeira marca importante da extensão rural em nível estadual que seria absorvida pela Emater e depois pelo atual Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR). “Trabalhei no escritório de Pitanga, onde comecei minhas andanças pelas fazendas”, conta.
Em 2023, a agência de notícias do IBGE colocou o paranaense como personagem de destaque na comemoração dos 50 anos do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), um acompanhamento estatístico que fundamenta a escalada da produção brasileira anualmente, com base em consultas com as secretarias estaduais e municipais de agriculturas, sindicatos rurais, cooperativas e grandes produtores. Mryzcka, diz a reportagem, fazia parte do LSPA antes mesmo de ingressar no IBGE. Como extensionista, se valia dos dados e atuava como informante. Naquela época, lembra o decano, o Paraná era o maior produtor de grãos tendo apenas 3% do território nacional. À Agência IBGE, ele destacou que desde então a produtividade do feijão triplicou, do milho quadruplicou (e a área de cultivo cresceu 50%) e a de soja e milho, duplicou. Ele lamentou também a redução drástica das lavouras de algodão e café, culturas que empregavam muitos trabalhadores no auge da produção. À FOLHA, ele também lembrou do crescimento exponencial na produção de tilápia, um fenômeno da economia rural que era impossível prever nos seus tempos de Acarpa.
Desta vez, os líderes do IBGE não escondem a curiosidade sobre como está o ritmo de incorporação da agricultura de precisão e o uso de drones, novidades que ainda engatinhavam em 2017, data do CAFA anterior, na rotina das propriedades.
Estudos mais robustos
O pesquisador Tiago Telles, da área de Socioeconomia do IDR, enviou um texto à FOLHA comentando os ensaios para o censo. Para ele, este trabalho do IBGE é “uma fonte essencial de dados, atualizados, sobre a estrutura social e econômica e o desempenho do setor”. Ele considera que “as informações são essenciais para orientar políticas públicas, subsidiar tomadas de decisão e planejar ações voltadas ao desenvolvimento sustentável”.
Para o IDR, diz Telles, “o levantamento ampliará nossa capacidade analítica, permitindo estudos mais robustos sobre renda, produtividade, desigualdades, eficiência produtiva e impactos de políticas agrícolas, além de possibilitar o uso de técnicas estatísticas e econométricas mais precisas”.
O pesquisador reforça que o censo permite identificar tendências, potencialidades e gargalos. “Vai contribuir para a formulação de estratégias específicas para as diferentes regiões”, prevê.


