Embrapa testa controle biológico
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de janeiro de 1998
Lana Cristina Agência Brasil 
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) comprará em breve dois tipos de bioinseticida para fazer testes em casa de vegetação com a finalidade de avaliar a eficiência do controle biológico no combate à mosca-branca. Os produtos são feitos à base de fungos utilizados no combate a outras pragas, o Bauveria bassiana e o Paescilomyces fumosoroseus, que virão dos Estados Unidos, onde já são comercializados, já que estudos comprovaram que a mosca-branca que ocorre lá tem as mesmas
características genéticas da mosca do Brasil.
Os pesquisadores da Embrapa, envolvidos na pesquisa sobre esse inseto que vem dizimando culturas inteiras em quase todos os Estados brasileiros, preferem importá-lo para os testes, o mais breve possível. Myrian Tigano, agrônoma do Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), explica que a pesquisa que conduz sobre a eficiência dos dois fungos ainda é incipiente. Eles são de difícil multiplicação in vitro , explica.
PreocupaçãoEnquanto prossegue com a pesquisa sobre o potencial do Bauveriae do Paescilomyces, Myrian trabalha na identificação do material coletado em todo o País, nas culturas que registraram surto de mosca-branca. A entomóloga Regina Vilarinho, que pesquisa há vários anos o comportamento da praga, fez uma coleta, no final do ano passado, de amostras do inseto para análises. Ela visitou, junto com uma equipe do Departamento de Defesa e Inspeção Vegetal (DDIV), do Ministério da Agricultura, áreas produtoras de algodão da região Nordeste. Na época, Vilarinho localizou a mosca branca em Pernambuco, Ceará, Bahia e Paraíba.
Os técnicos têm se preocupado cada vez mais, desde então, com a
disseminação da praga. A mosca branca da folha prateada, nome
popular do biotipo B da Bemisia tabaci, ou simplesmente mosca branca, é muito mais agressiva em seu comportamento no campo. Ela ataca
mais de 700 plantas hospedeiras e convive muito bem com a Bemisia
tabaci. Não se conhece na literatura especializada dos insetos que
convivam juntos quando buscam alimento na lavoura, observa Regina
Vilarinho.
PrejuízosOs prejuízos, desde que o biotipo B foi registrado pela primeira vez no Brasil, em 1991, já contabilizam R$ 1 bilhão. Conhecida também comoBemisia argentifolii, a mosca-branca da folha prateada provoca o murchamento e amadurecimento irregular do fruto. A substância
açucarada que solta quando em contato com a planta deixa uma espécie
de fuligem, chamada fumagina, o que piora o aspecto do fruto, que perde
valor comercial. O produtor pode detectar facilmente se há surto do
inseto na lavoura, simplesmente observando se as folhas ficam
prateadas, outra marca deixada pela mosca, sempre na parte inferior.
Secretarias estaduais e municipais de agricultura, e também órgãos de
pesquisa e extensão do Brasil inteiro serão convocados a trabalhar
intensivamente no combate à mosca-branca a partir deste mês, quando
será executado o Programa Nacional de Controle da Mosca-Branca no
País, que inicialmente terá investimentos de R$ 2,5 milhões.
De acordo com Regina Vilarinho, a orientação é para se fazer o
monitoramento do comportamento do inseto, campanhas educativas
para que os produtores saibam identificar o problema e tomar as
providências necessárias. Também será feita uma avaliação do impacto
sócio-econômico que a praga provocou nas regiões comprovadamente
atingidas e intensificação na pesquisa.
Surgiu na GréciaA agrônoma Myrian Tigano mostra
estudos de outros pesquisadores sobre o tema, no qual se discute a
possibilidade da Bemisia argentifolii ser uma nova espécie de mosca-branca e não um biotipo como se convencionou chamar desde que foi
identificada.
A Bemisia tabaci apareceu pela primeira vez na Grécia, em 1889, e se estima que a Bemisia argentifoliitenha surgido há menos de 50 anos. Não se sabe se foi uma evolução da espécie ou se há uma lacuna entre
uma e outra. O fato é que morfologicamente as duas são muito
parecidas, só conseguimos diferenciá-las pelo comportamento, que é o
primeiro indício, e também por testes laboratoriais, informa Myrian.
A mosca-branca tem-se mostrado altamente resistente a agrotóxicos e
o efeito é desastroso em função disso. Alguns agricultores chegam a
aplicar um coquetel poderosíssimo de pesticidas para matar a mosca, e
nem assim têm obtido resultados satisfatórios. A recomendação que os
extensionistas passam para os produtores é para que façam o
manejo integrado, com alternação de culturas. Se a cultura for infectada,
plantar outra na próxima safra, alerta Regina Vilarinho. Além disso, o
ideal é aliar a aplicação de bioinseticidas com os venenos químicos. A
aplicação deve ser feita de baixo para cima, utilizando o bico do aspersor
de irrigação, já que a mosca branca permanece sempre na parte inferior
da planta.
Myrian Tigano e Regina Vilarinho começaram a trabalhar com
marcadores moleculares e isso-enzimas para fazer avaliação da
expressão de gens e proteínas de amostras de moscas brancas que
chegam ao Cenargen. Depois da coleta feita no ano passado, os
técnicos extensionistas das secretarias estaduais de agricultura
passaram a enviar amostras conservadas em soluções químicas.
Como é o gene que codifica a proteína, quanto mais informações
melhor para identificarmos a diferença entre os dois biótipos, explica
Tigano.


