Embrapa estuda tolerância à seca
Do total de perdas nas lavouras de verão brasileiras, cerca de 70% devem-se à seca. O levantamento foi feito pelo Ministério do Planejamento, baseado nos sinistros do Proagro das safras de 91/92 e 92/93. Por ser um problema climático, o déficit hídrico não pode ser controlado. Entretanto, cientistas estão buscando criar plantas mais tolerantes, que cresçam normalmente mesmo enfrentando longos períodos de estiagem. Esse trabalho está sendo desenvolvido na Embrapa-Soja, onde o pesquisador Alexandre Nepomuceno estuda a soja em busca dos genes de tolerância à seca.
Ainda em fase inicial, a pesquisa busca selecionar, entre as cultivares plantadas no Brasil, quais são as mais tolerantes à falta de água. Pretendemos encontrar nessas cultivares os genes que estimulam a defesa da planta em casos de seca, diz o pesquisador. Ele explica que cada planta de soja tem aproximadamente 100 mil genes, mas nem todos estão ativos ao mesmo tempo. Conforme as fases de desenvolvimento, alguns genes entram em ação para dar à planta as características necessárias à sua sobrevivência. Algumas plantas têm genes que se tornam ativos em situações de seca, conferindo alguma forma de tolerância. Esses mecanismos de defesa podem ser o aprofundamento de raízes, bem como o movimento de folhas, a formação de açúcares, que criam uma espécie de película protetora na planta, ou mesmo a retenção mais acentuada de líquidos.
Biologia molecularA pesquisa vai procurar identificar e compreender como esses genes são ativados e desativados em resposta às condições climáticas. A base dos trabalhos, por enquanto, são as cultivares BR-4, uma das mais tolerantes à seca, e a BR-16, uma das mais sensíveis. Através da biologia molecular podemos identificar quais os genes que acionam a defesa da BR-4, que tem uma grande capacidade de reter água nos tecidos. Depois disso, vamos comparar a estrutura genética com a da BR-16. Isso facilita descobrir quais os genes que conferem tolerância à planta. Nepomuceno explica que, isolando esses genes, será possível cloná-los e melhorá-los, tornando-os mais eficazes. A partir daí, os genes podem ser inseridos, através de melhoramento genético tradicional ou transgênese, em novas cultivares. Assim, será possível oferecer aos produtores brasileiros uma planta capaz de tolerar o déficit hídrico. Esse trabalho ajudará também a identificar cultivares já existentes e que possuem tolerância à seca. Isso pode ser feito através da comparação da estrutura genética das plantas. Ou seja, através de marcadores moleculares, o pesquisador pode procurar em determinada cultivar os genes que foram encontrados nas cultivares tolerantes.
Para facilitar e agilizar esse trabalho está sendo elaborado um projeto que envolve a equipe de ecofisiologia da Embrapa Soja e especialistas em melhoramento genético, fisiologia vegetal e biologia molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, da Universidade Federal de Pelotas e do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Esse projeto contará com recursos do CNPq e do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT).
PrejuízosOs resultados dessa pesquisa serão a longo prazo. Nepomuceno não pode calcular o tempo que a ciência levará para chegar à cultivar tolerante à seca. Mas vamos nos dedicar muito a esse trabalho, devido à importância dele para a agricultura brasileira. O pesquisador lembra que as perdas devido à seca atingem diversas partes do mundo. Por exemplo, no Texas (EUA), na última safra as perdas chegaram a US$1,5 bilhão nas lavouras de soja. Um prejuízo que, conforme dados da USDA, vai refletir em todo o agribusiness do Estado, elevando as perdas para US$4,5 bilhões nos próximos 18 meses.
Os produtores brasileiros também já passaram, diversas vezes, por situações similares. Na safra 91/92, a Região Sul do Brasil perdeu, por falta de chuva, cerca de 30% da sua produção, o que representou prejuízo em torno de US$2 bilhões. Não podemos controlar o clima, mas podemos driblá-lo e dar mais estabilidade à produção brasileira, diz o pesquisador. O trabalho desenvolvido na Embrapa é pioneiro no Brasil e está sendo direcionado para a cultura da soja, mas o pesquisador acredita que os avanços dessa pesquisa serão muito importantes para outras culturas.
Nos EUANepomuceno voltou recentemente dos Estados Unidos, onde fez curso de doutorado. No tempo em que esteve nos EUA, o pesquisador identificou, através da biotecnologia, alguns genes de tolerância à seca no algodão. Agora, ele pretende utilizar as mesmas técnicas para encontrar os genes na soja. A principal técnica que adotei é conhecida por differential display (apresentação diferenciada, em português), muito utilizada na identificação de genes responsáveis pelo aparecimento de câncer em seres humanos, explica.Dorico da SilvaAlexandre Nepomuceno: não se pode controlar o clima, mas podemos driblá-loJosiane Schulz





