Em se adubando tudo dá
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de julho de 2004
Amélio DallAgnol (*) 
É antigo o hábito de mentir neste País. Tão antigo quanto a própria idade do Brasil. O primeiro mentiroso foi Pero Vaz de Caminha, que, ao relatar a descoberta do Brasil a Dom Manuel, Rei de Portugal, afirmou que a terra é tão generosa que nela em se plantando tudo dá. Não é verdade. Mas a julgar pelos baixos rendimentos dos nossos cultivos ao longo de quase cinco séculos do descobrimento, pareceria que a mentira do escrivão-mor da esquadra de Cabral foi entendida como uma verdade, levando nossos agricultores a acreditar que seria suficiente plantar, o resto ficaria por conta da generosa terra brasileira, onde, em se plantando tudo dá. Tanto não era generosa, que muitos agricultores fracassaram no amanho desse solo porque não souberam compensar com tecnologia suas deficiências naturais.
Embora a afirmação de Caminha quanto às qualidades do solo brasileiro fosse incorreta para a realidade da época, hoje é possível afirmar que nesta terra em se plantando tudo dá, desde que se utilize o conjunto de tecnologias desenvolvidas pelos cientistas brasileiros para as condições do País. Assim procedendo, agricultores brasileiros de vanguarda transformaram o improdutivo e desprestigiado Cerrado, no novo celeiro do Brasil, incorporado-o exitosamente ao processo produtivo nacional.
Já competitivo no mercado agrícola internacional, o Brasil caminha a passos largos rumo à agricultura de precisão, buscando ainda maiores produtividades, necessárias para competir no contexto do livre mercado. Tecnologias para isso o Brasil tem e mostrou-se hábil na sua utilização ao longo das últimas décadas, pois, em apenas oito anos fez sua produção de grãos crescer quase o que cresceu em cinco séculos (69 milhões de t, em 1996 e 122 milhões de t, em 2003).
A recente reunião da OMC em Cancun, México, não pareceu sinalizar nessa direção. Europeus e norte-americanos continuam a fingir-se de liberais, sinalizando com a abertura irrestrita dos seus mercados para o comércio internacional, quando, na verdade isso só ocorre para o comércio de produtos industrializados com os quais eles têm evidentes vantagens comparativas. Quando o assunto é agricultura, onde seus custos não são páreo para países em desenvolvimento como o Brasil, fecham-se iguais a ostras e se fazem de surdos aos reclames dos que defendem o cumprimento das regras - que eles próprios instituíram e promoveram.
O Brasil reclama e com justa razão a falácia do livre mercado, pois, finalmente desperto do seu berço esplêndido e convertido em importante agente do comércio mundial, exige a sua cota de mercado para comercializar a supersafra de cada novo ano, o que deixa os concorrentes alvoroçados, pois reconhecem que esse crescimento está se dando, não pelo crescimento da área, mas pelo aumento da produtividade, que é consequência do uso intensivo de tecnologias: coisa de Primeiro Mundo.
Parabéns aos produtores brasileiros, pois hoje é o Dia do Agricultor.
(*) Engenheiro-agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja, de Londrina


