No começo desta semana foi autorizado pelo governo brasileiro o plantio comercial da soja transgênica, planta geneticamente modificada para resistir à aplicação de herbicida. A notícia chegou no momento em que mais de mil pessoas, entre pesquisadores, empresários e produtores, discutiam no Congresso Brasileiro de Soja as questões polêmicas da biotecnologia, em especial a soja transgênica. O Congresso foi realizado de 17 a 20 deste mês, em Londrina, com o tema geral ‘‘Desafios e Soluções do Complexo Soja no Brasil’’.
O pesquisador Carlos Jorge Rosseto destacou que não existem testes conclusivos sobre os efeitos da soja transgênicaAs palestras sobre biotecnologia foram apresentadas pelo presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Luiz Antônio Barreto de Castro, e o pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Carlos Jorge Rosseto. O destaque da apresentação de Rosseto foi a principal consequência da nova tecnologia para o produtor. Segundo ele,‘‘a liberdade do agricultor de se apropriar das variedades de plantas que utiliza, através da compra de semente, está seriamente ameaçada pelas patentes de biotecnologia industrial.
DireitosRosseto relatou todas as tentativas e pressões que estão havendo para tornar patenteáveis os organismos transgênicos, beneficiando assim as megaempresas que dominam esta tecnologia, que é cara e inacessível aos países em desenvolvimento. ‘‘eles querem usar uma fraude semântica e transformar agricultura em indústria porque, pela nossa legislação, só são patenteáveis inventos industriais’’.
Luiz Antônio Barreto de Castro, presidente da CTNBio disse que não se faz ciência sem riscosRosseto lembrou que a ‘‘liberdade’’ é destacada como o primeiro direito individual pela Constituição brasileira, e alerta para que os agricultores acompanhem as discussões, que devem continuar acontecendo.
Quanto ao aspecto comercial, Rosseto falou que a expectativa é de oligopolização do mercado de sementes, com uma alta relativa de preços. O pesquisador comparou o preço de uma saca de semente do milho híbrido, por exemplo, que custa de 13 a 14 sacas de grão, enquanto para comprar semente de soja convencional o produtor gasta 2 sacas de grão. ‘‘Com a soja transgênica, os preços das sementes, com certeza, serão maiores’’, diz Rosseto. Na produção de sementes de milho, hoje, apenas uma empresa detém 90% do mercado. ‘‘Devemos buscar a concorrência e não o oligopólio’’, recomendou Rosseto.
O congresso reuniu em Londrina mais de mil pessoas, entre pesquisadores, empresários e produtoresBiossegurançaA Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o órgão que elabora e zela pela segurança no uso das biotecnologias no Brasil, deu parecer favóravel à liberação da soja transgênica. Segundo o presidente da CTNBio, Luiz Antônio Barreto de Castro, ‘‘não encontramos nenhuma evidência de que esta soja tem efeitos prejudiciais ao meio ambiente ou a saúde humana’’.
Castro defendeu em sua palestra que somente a biotecnologia poderá responder no futuro a crescente demanda por alimentos. ‘‘A redução da área agricultável no mundo e o aumento do consumo de alimentos, que hoje já está em torno de 2 bilhões de toneladas de grãos, vai precisar de novas tecnologias de produção’’, argumenta.
Segundo Castro, o Brasil consome hoje, 6,2 % dos agroquímicos produzidos mundialmente, o que representa um gasto de 2 bilhões de dólares por ano. ‘‘Os organismos trasngênicos podem substituir as soluções químicas pelas soluções biológicas’’.
Com relação aos riscos da engenharia genética, Castro disse que ‘‘riscos sempre vão existir’’. ‘‘O que é preciso é uma avaliação e gerenciamento destes riscos’’. E explicou que a liberação de outras plantas transgênicas vai depender de estudos e análise. ‘‘A CTNBio trabalha, analisando caso a caso. Existem transgênicos e transgênicos’’, comentou.
MercadoOs países europeus, que compram 70% de soja brasileira, têm manifestado sérias restrições aos produtos transgênicos, e várias comitivas já estiveram no Brasil, alertando que não vão comprar a soja brasileira se ela for geneticamente modificada.
A falta de uma política nacional de biossegurança está gerando inquietação entre produtores e consumidores, comentou Rosseto. Estados como o Mato Grosso, Rio de Janeiro, Goiás e Tocantins estão copiando a iniciativa do Rio Grande do Sul e elaborando legislações que proibem a comercialização dos transgênicos.
Com relação aos efeitos da soja na sáude humana, as pesquisas não são conclusivas. ‘‘Só o tempo poderá mostrar as consequências desta tecnologia na vida humana e no meio ambiente. Hoje ninguém pode garantir que esta soja seja inócua ou que seja nociva’’, declarou Carlos Jorge Rosseto.
Já o presidente da CTNBio insistiu em que ‘‘sabemos que a engenharia genética envolve riscos e eles têm que ser avaliados. Qualquer generalização é impossível. Não se faz ciência sem riscos’’, concluiu.

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