Jota Oliveira
A primavera é a época das hortaliças-frutos (legumes) na região Sul e nas regiões amenas do Sudeste, além de alguns tubérculos e raízes como batatas e cenouras. Folhosas nesta região são hortaliças de inverno em áreas não sujeitas a geadas frequentes.
Essa é a visão tradicional da olericultura, mas, em vista das exigências do mercado, que consome mais alface no verão, por exemplo, e da necessidade de suprir as regiões mais quentes e secas do País, têm-se mudado épocas e adaptado a produção a quaisquer regiões. Outros exemplos: jiló, maxixe, berinjela, melancia, melão, são normalmente hortaliças do meio da primavera para frente, porque têm que produzir em pleno verão; abobrinha, vagem, pepino, tomate, têm que ser plantados no começo da primavera. ‘‘Antigamente era assim’’ – ressalva o engenheiro-agrônomo, produtor e consultor em agricultura orgânica, Luís Geraldo de Carvalho Santos, de São Roque, SP. Atualmente a situação mudou um pouco.
SazonalidadeO agrônomo explica que, devido à sazonalidade muito grande, que variava de região para região, os melhoristas esforçaram-se para encontrar variedades para produzir na entressafra. ‘‘E isto – acrescenta – inverteu o conceito de safra e entressafra de algumas hortaliças, em algumas regiões. Assim, a cenoura virou cultura de verão na maior parte do Centro-Sul, por causa da variedade ‘Brasília’, da Embrapa’’.
Isto causou um fenômeno novo: a cenoura tem pegado menor preço no verão do que no inverno. Há 5-10 anos a entresssafra da cenoura era no pico do verão e nos últimos cinco anos não tem sido assim. Porém, cada região tem uma época ideal de plantio. No Paraná são quatro ocasiões, na mesma estação, variando conforme a região onde está a horta.
Alface, produto de inverno, ganhou variedades aptas para verão, nas regiões de clima mais ameno. Agora essas variedades saem-se melhor se plantadas no verão do que no inverno e no cinturão-verde de São Paulo a oferta é de 10 a 15% maior no verão do que no inverno. Porém, há uma diferença, segundo o agrônomo: no cinturão-verde de São Paulo predominam as hortaliças orgânicas.
As mudanças são consequência de melhoramento genético. ‘‘Hoje os materiais de verão de alface, couve-flor, cenoura e repolho são superiores aos materiais de inverno’’, informa.
‘‘Então – acrescenta – , para não dizer que o conceito de entressafra deixou de existir, o produtor profissional de hortaliças que produzia por safra, fazia lavoura de hortaliça, hoje faz uma loteria para acertar na época em que teria melhor resultado. Ainda exemplificando, o agrônomo lembra que há três meses o repolho, em pleno inverno, está com o melhor preço dos últimos 10 anos. A cenoura tem o melhor preço dos últimos dois anos; o tomate, o melhor preço dos últimos quatro anos; berinjela e pepino, mesma coisa. E no Estado de São Paulo o inverno é a época da colheita dessas hortaliças, porque o inverno é ameno, é melhor para produzir essas hortaliças do que na primavera, enquanto o verão é muito quente, não dá para produzir hortaliças de primavera.
Para Luís Geraldo, essa anomalia atual do mercado é resultado da falta de planejamento de produção, dos pacotes econômicos. ‘‘Cada brecada dessas do Plano Real quebra uma porção de produtores’’, comenta.
Produção aleatóriaAs estufas também ajudaram a regularizar a oferta de hortaliças. ‘‘Esse – aponta o agrônomo – foi mais um motivo para cultivo de alface em estufa nas regiões muito quentes, e a hidroponia (produção sem terra, dentro de estufas climatizadas) tem ganhado muito espaço. As estufas viabilizaram também o plantio de tomate e legumes em geral nas regiões mais quentes do País.
Neste ano o tomate, no pico da entressafra (fevereiro a maio), chegou a R$3,00 e no pico da safra, de julho a agosto, a R$25,00 a caixa. ‘‘Isto deixa o produtor maluco. Ele esforça-se para produzir na entressafra e não tem preço, apesar do seu maior custo e menor produtividade. Ele frustra-se, perde dinheiro e não planta na safra seguinte. Nesta semana o mercado pagava ao produtor R$5,00-R$8,00 a caixa de tomate convencional (em cada caixa, de 12 a 13 kg de tomate), em São Paulo. Normalmente, o comércio coloca de 50 a 70% de margem para vender o produto ao consumidor; alguns vendem até por 100% a mais, se compram diretamente do produtor. Mas, normalmente, o produtor de tomate convencional recebe, em média, de 10 a 20% do preço final para o consumidor, enquanto o produtor de orgânico recebe de 30 a 40%.
Três fatores, segundo Luiz Geraldo, ‘‘tornaram praticamente aleatória a produção de hortaliças no Brasil: 1 – melhores cultivares, adaptadas a cada região; 2 – cultivo em estufa; 3 – aumento da produção de hortaliças em novas regiões que conseguem colher na entressafra. Esses três fatores, juntos, tornaram a produção de hortaliças completamente caótica’’, diz o consultor. Ele observa, ainda, que nas principais regiões que produzem hortaliças nos seus cinturões-verdes, a comercialização de hortaliças está ‘‘completamente desorganizada’’. Antes passava tudo pela Ceasa; hoje os supermercados são os principais comercializadores de hortaliças. Por isso, a qualquer momento, pode vir grande quantidade de hortaliças de qualquer parte do País. ‘‘Para o consumidor melhorou oferta, mas, do ponto de vista do produtor, quem não estiver em região adaptada para produzir a custos baixissimos, não vai sobreviver com isso.
Agora, encontra-se tomate de Santa Catarina em Londrina, e o Mercosul veio transtornar mais ainda o setor, com hortaliças do Chile e de outros países. E também vai hortaliça daqui para lá. Se houvesse interesse, esforço dos produtores em se unirem, reorganizarem esse mercado, a atividade seria mais interessante novamente, ‘‘porque hoje está muito difícil trabalhar com hortaliças convencionais. A reorganização implicaria plano de safra, produção planejada, comercializiação, inclusive exportação. Uma opção seria o aumento de renda população, mas isto não depende da produção. Uma opção boa é a exportação. São Paulo está mandando berinjela, tomate, pepino, vagem, para a Argentina.
‘‘O que pode tornar a horticultura atividade verdadeiramente profissional, é o aumento de renda da produção; tornar uma atividade de grande porte. Hoje – concluí Luís Geraldo –, o maior esforço no mundo é para buscar uma produção regular, com oferta todas as semanas do ano, de produtos com a mesma qualidade, para poder atender o consumidor, que não quer saber se é safra ou entressafra. E ele quer comer tomate...’’Recursos desenvolvidos pela pesquisa e a própria iniciativa do produtor mudam épocas de cultivo
ArquivoA irrigação é um dos ‘‘truques’’ para produzir alface e outras hortalipas em conidições naturais adversasTomate hidropônico em Londrina: produção garantida em qualquer época do ano

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