Enquanto os esforços anti-tabagistas passam longe das lavouras brasileiras, famílias como a de José Acordi Fontanela, 62, de Capitão Leônidas Marques (78 km ao sul de Cascavel), progridem e se multiplicam sob as folhas de fumo que secam no fôrro dos galpões. Dentre as pequenas propriedades da Rede incluídas em nosso roteiro, nenhuma tem tanta mão-de-obra jovem quanto esta.
  ‘‘Os filhos sempre quiseram trabalhar junto com a gente. É por isso que as coisas dão certo. Eles vão casando e trazendo as mulheres, ficando satisfeitos por aqui. Na cidade é ruim’’, resume a matriarca Madalena, 62. O trabalho nas lavouras de fumo, soja e feijão fica a cargo de seo José e os três filhos: João, 33, Gilberto, 30 e Gelvonei, 20. As esposas dos mais velhos - Roseni, 24, e Lucinéia, 17 - se ocupam das tarefas domésticas com a sogra e produzem artesanato. Juntos, os sete trabalham na classificação e enfardamento do fumo.
  Embora os casados já tenham construído residências próprias no sítio, a união continua valendo mesmo para a divisão da renda. ‘‘A gente deixa tudo meio junto, porque se separar demais não sobra nada no final’’, pondera Gilberto, que diz nunca ter pensado em deixar a roça. Mesmo solteiro, o caçula também parece ter o destino definido. ‘‘Parei de estudar na 8ªsérie, por falta de vontade mesmo. É difícil se acostumar na cidade, fazer todo dia a mesma coisa’’, declara, indo na contramão de quem vê na urbanidade uma vida cheia de emoções.
  Seo José se diz realizado por ter conseguido manter a prole unida na agricultura, mas sabe que isso tem um custo: apesar de ter mais mão-de-obra contribuindo na produção, a renda da propriedade de 15 hectares (ha) vai se estreitando conforme a família cresce. Por isso, já fala em adquirir mais terras a médio prazo.
  Ironicamente, é a mesma preocupação com a felicidade dos descendentes que o motiva a manter intocados 3,5 ha de mata nativa no pequeno sítio, com perobas, anjicas, louros e palmito do mato. ‘‘O povo só falava em derrubar todas as árvores, mas eu deixei uma faixa de propósito, para que meus netos conheçam a mata virgem. Lá dentro, o ar é diferente’’, diz com a simplicidade mais sábia do mundo. Um dia Lucas Mateus, de três anos, primeiro neto de seo José, vai agradecer. (V.N.)

mockup