Em busca de uma agropecuária limpa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de outubro de 2001
Denise Angelo<br> De Ponta Grossa 
A região dos Campos Gerais é conhecida no meio rural por ter produtores que adotaram algumas práticas para o desenvolvimento da agricultura que reduzem os impactos no solo. É o plantio direto, que através da cobertura com palha evita que o solo seja revolvido, mantendo suas propriedades e ampliando seu tempo de vida útil.
Agora a preocupação ambiental desses produtores está se voltando para as atividades pecuárias. Donos de um dos maiores plantéis do estado de gado leiteiro e suínos, os produtores buscam alternativas para fazer um descarte responsável dos dejetos produzidos por estes animais.
Pecuária limpa
Os produtores contam com o auxílio da Fundação ABC, entidade que desenvolve pesquisa e presta assistência técnica a 1200 agropecuaristas na região dos Campos Gerais. São os técnicos da fundação que estão iniciando um trabalho de levantamento da situação ambiental das 1.200 propriedades que estão sob o seu assessoramento. Distribuídas por uma área de aproximadamente 160 mil hectares, essas propriedades concentram aproximadamente 13% de todo o gado leiteiro do estado, 7% do gado de corte e 5% dos suínos.
''Na agricultura já temos uma prática voltada para a preservação ambiental, que é o plantio direto. Nossa preocupação agora é com o desenvolvimento de uma pecuária limpa'', destaca o engenheiro agrônomo da fundação, Marcos Valentini.
Segundo ele, hoje não se sabe ao certo quais os produtores da região que cumprem exigências legais, como a manutenção de reservas equivalentes a 20% do total da área e preservação da mata ciliar. Sobre os dejetos, especialmente de suínos, o que se sabe é que o produtor guarda esse material em sua propriedade e duas vezes por ano faz o despejo no campo.
Buscando soluções
Enquanto esse material fica armazenado ele sofre um ataque biológico natural, mas não recebe nenhum tipo de tratamento. ''O que nós queremos é encontrar uma solução para o descarte ou aproveitamento adequado desse material'', diz o engenheiro.
Valentini explica que o primeiro passo que está sendo dado para iniciar a prática de uma pecuária limpa na região é o cadastramento de todas as propriedades que praticam a pecuária e o levantamento do tamanho do plantel de cada uma delas. Paralelamente, está sendo feito um estudo do tipo de solo de cada região. A idéia é descobrir a capacidade de absorção dos dejetos de cada tipo de solo, para estabelecer limites para o descarte. Em outra frente de trabalho, a fundação pretende levantar os custos para o transporte dos dejetos. ''Há propriedades onde não existe mais espaço para fazer o descarte. Então precisamos saber se vale a pena o produtor enviar esse material para outro lugar'', explica.
Projeto conjunto
O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) está participando do projeto junto com a Fundação ABC. Segundo o engenheiro agrônomo Cyrus Augustus Daldim, a intenção do IAP é estabelecer uma parceria para licenciar todos as atividades potencialmente poluidoras que estão sendo praticadas na região.
Paralelamente ao trabalho que vem sendo desenvolvido pela Fundação ABC, uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) está fazendo o levantamento da qualidade da água do Rio Iapó, que corta a região. O coordenador do projeto, professor Valter Shulz, conta que a intenção é descobrir qual o nível de poluição nas águas do Iapó, quais as fontes poluidoras e sugerir alternativas para acabar com elas.
O Rio Iapó tem cerca de 30 quilômetros e boa parte dos dejetos produzidos na região, assim como defensivos agrícolas, vão parar em suas águas. ''Ainda não podemos afirmar com certeza quais são os problemas do Iapó, mas ele recebe uma carga poluidora considerável, porque suas águas estão turvas'', explica.
O professor considera que desse projeto poderá surgir uma agência própria do Rio Iapó ou um braço do Copati, a bacia para preservação do Rio Tibagi.


