Em busca da pecuária de qualidade
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 1998
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaCruzamentosCriador deve saber combinar melhores características dos animaisO termo Qualidade em pecuária hoje tem conotação mais ampla do que antigamente, quando se pensava em cor, sabor, textura e aparência como elementos essenciais para a carne. Expandiu-se o conceito de Qualidade em função, principalmente, da preocupação da população mundial em consumir alimentos, entre eles a carne bovina, que façam menos mal à saúde.
Como a população está envelhecendo e o Brasil não escapa disso, há preocupação em consumir alimentos que tenham menor nível de colesterol e resíduos que não provoquem prejuízos à saúde, sem prejudicar a qualidade de vida.
A preocupação é usar alimentos que não contenham, ou contenham o mínimo, de colesterol. Além disso, outro componente é a introdução de alimentos que melhorem a saúde da população, com bom níveis de vitaminas e proteínas. A população está exigindo alimentação adequada ao novo patamar de qualidade de vida, afirma o pesquisador em Melhoramento Genético Animal da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), Kepler Euclides Filho.
Qualidade de vidaA pesquisa e a produção de alimentos têm acompanhado esta visão na associação de melhoramento genético e biotécnicas, em que é possível introduzir ou selecionar indivíduos (animais ou plantas) que possam produzir alimentos mais saudáveis, com níveis de colesterol mais baixos e outras características associadas à melhoria da qualidade de vida.
Há o exemplo da avicultura de postura, em que já existe produção de ovos com baixo nível de colesterol ou mesmo a melhor seleção de bovinos para produção de leite, tudo através da genética, associada ao manejo e alimentação dos animais.
A preocupação da pesquisa no Mundo, diz Kepler, está na questão básica de qualidade da alimentação. Países com economia estabilizada têm uma população que passa a ser mais exigente nesta área. Há trabalhos de melhoramento da soja, para melhorar níveis de enzimas e proteínas; na área de bovinos o que se quer é a redução de tratamentos químicos nos animais, que possam deixar resíduos na carne.Uma população de idade mais avançada, a realidade mundial atualmente, necessita mais de elementos minerais que possam vir dos alimentos e não de suplementação com medicamentos.
Macia e saudávelNa pecuária de corte dois pontos hoje são fundamentais: primeiro o aumento da maciez da carne e depois a redução dos níveis de elementos químicos no tratamento de parasitas dos animais. A maior parte da população bovina do País é descendente de zebuínos que, na média, possuem uma carne mais dura do que a dos animais europeus, mas são resistentes a parasitas.
A maciez da carne pode ser conseguida por vários processos. No frigorífico há os processos físico ou químico. Pode-se aplicar choque elétrico na hora da matança, o que propiciaria maciez da carne; ou, usar óxido de cálcio.
Mas o que poderia ser feito na propriedade? O meio é via genética, buscando animais com produção de carne macia e capazes de transmitir à sua progênie (filhos) essa característica. Além disso, balancear uso de raças que seriam mais resistentes ao ataque de carrapatos e outros parasitas.
Escolha de raçasAs raças européias, no geral, têm a carne mais macia e são precoces. O zebu perde em precocidade, mas tem resistência a parasitas. O criador, portanto, deve adotar um bom programa de cruzamento e ir balanceando as boas características de cada raça. Fazer seleção de zebuíno para aumento da maciez da carne e precocidade, identificando os melhores animais. E usar a característica de maciez do europeu, recomenda o pesquisador.
A tendência na pecuária, a longo prazo, é a aumentar a importância e a produção dos animais mestiços. Mesmo obtendo-se, no futuro, animais zebuínos que apresentem maciez na carne e precocidade, sempre haverá lugar para os cruzamentos com os europeus, porque a técnica dá ao produtor a possibilidade de usufruir dos benefícios da chamada heterose (choque) do sangue. No cruzamento do zebu com europeu o quilo do bezerro desmamado por vaca exposta representa incremento de 20% a 25% de carne.
O que buscarO conjunto de qualidades que o produtor procura nos animais, para obter sucesso na pecuária, pode ser classificado em precocidade; fertilidade; alta taxa de desmama como, por exemplo, de 100 vacas desmamar 90% em bezerros; animais bons ganhadores de peso; produção de carcaça de qualidade; acabamento precoce e maciez da carne, livre de resíduos e sem contaminantes da saúde. A carne deverá ser bonita, macia e, no momento a característica mais buscada, ter baixo nível de colesterol.
Atualmente as raças bovinas são classificadas em quatro grandes grupos: zebuínas, européias adaptadas, européias de porte médio chamadas britânicas, e européias de grande porte, chamadas continentais. Essa distribuição é feita considerando tamanho dos animais em idade adulta, ganho de peso e precocidade reprodutiva.
Escolha pessoalOs grupos variam nestes aspectos e o criador pode escolher que raça criar, dependendo da sua realidade e objetivo de mercado. Exemplo: animais de raças zebuínas produzem carnes mais duras, são tardios na reprodução mas, em contrapartida, são mais resistentes a altas temperaturas e a parasitas.
As raças européias adaptadas também são tardias mas, em compensação, produzem carne mais macia e vão muito bem nos Trópicos. Já as britânicas são raças precoces em reprodução, acabamento de carcaça, têm boa fertilidade, mas obtêm menor peso na idade adulta do que os animais das raças continentais.
Os bovinos das raças continentais têm alta velocidade em ganho de peso, mas são mais tardios do que os das raças britânicas, em reprodução e acabamento de carcaça.
Dependendo de sua realidade o pecuarista deve optar por um grupo desses animais ou fazer uma combinação entre eles. Sempre haverá ganhos e perdas. Dentro de suas condições, o criador deverá saber qual raça será melhor utilizada. Esta escolha, muitas vezes, por serem raças com qualidades muito parecidas, é somente uma questão de preferência pessoal.


