Em 4 anos, contratação do seguro rural cai 68% no Paraná
Volume de apólices contratadas caiu de 82 mil em 2021 para 26 mil no ano passado
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de maio de 2026
Volume de apólices contratadas caiu de 82 mil em 2021 para 26 mil no ano passado
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

O volume de contratação de apólices de seguro rural caiu de 82 mil em 2021 para 26 mil em 2025 no Paraná, queda de 68,3% em quatro anos. As informações se referem ao PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural), do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Dados da CNseg (Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização) apontam que o volume da área assegurada no Paraná acompanhou o declínio das apólices.
Em 2021, o Estado protegia mais de 3,8 milhões de hectares, mas esse número encolheu para 1,25 milhão de hectares em 2025, queda de 63,8%. Em nível nacional, a queda foi um pouco maior – a área assegurada caiu de 13,7 milhões de hectares em 2021 para 3,2 milhões no ano passado, redução de 76,6%.
Os produtores rurais paranaenses lideram historicamente a contratação de seguro rural no país. Em 2024, foram mais de 45,8 mil apólices, o equivalente a 37,5% dos contratos firmados via PSR.
Em 2025, cerca de 42% dos recursos previstos para o PSR foram bloqueados. Já em 2024, a execução ficou aproximadamente 40% abaixo do valor aprovado pelo Congresso.
Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), considera que o seguro rural tem sido negligenciado pelo governo federal nos últimos anos, sofrendo com o baixo orçamento destinado para o Programa de Subvenção ao Prêmio.
“Esse fato, combinado à aversão ao risco das seguradoras frente às frustrações de safra recorrentes, tornaram o seguro mais caro, com coberturas menores, com produtividades mínimas de acionamento mais elevadas e com maior seletividade dos municípios em que as seguradoras querem atuar, inviabilizando financeiramente a contratação por parte do agricultor.”
Segundo o dirigente, o seguro rural é uma importante ferramenta de gestão de risco para a produção agropecuária, mas precisa ser tratado como uma política de estado, visando a segurança alimentar e a viabilidade da produção primária como setor estratégico da economia.
QUEDA
Sobre a queda na contratação do seguro rural, Meneguette aponta que esse cenário deixa os produtores mais expostos financeiramente em caso de perda parcial ou total da produção, especialmente por condições climáticas adversas.
“A margem de lucro das atividades agropecuárias depende de boa produtividade e quando algum evento climático reduz esse índice, o produtor precisa buscar formas de renegociar os financiamentos que contraiu para poder produzir. Além disso, os que ainda contratam seguro têm visto taxas cada vez mais caras e coberturas mais reduzidas, o que contribui para um custo de produção mais elevado e para um risco de não ser indenizado de forma adequada frente à sua perda.”
REIVINDICAÇÃO
O dirigente aponta que nas últimas edições do Plano Safra, o Sistema Faep, em conjunto com Seab (Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná), Ocepar (Sindicato e Organizações das Cooperativas do Estado do Paraná), Fetaep (Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná) e IDR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), propõe um montante de recursos pelo menos quatro vezes superior ao atual, para atender a demanda de contratações.
“Além disso, reiteramos que os recursos anunciados não sejam contingenciados no decorrer da safra, ou seja, que o montante anunciado seja efetivamente executado, o que também não tem ocorrido. Falta comprometimento do governo federal com o seguro rural”, conclui.
SEM SEGURO
O agricultor Admilson Grossi Tavares não contratou seguro para a safrinha do milho, nem pretende contratar para a safra de trigo, ambas em andamento. O produtor tem propriedades em Arapuã (Centro-Norte), e em Cândido de Abreu (Vale do Ivaí).

Mesmo tendo problemas nos últimos anos de forma recorrente, com eventos climáticos de seca e geada, o produtor rural resolveu não contratar mais o seguro.
Um dos motivos apontados é a burocracia. “Temos grandes problemas para conseguir comprovar as perdas, porque as empresas de seguros estão colocando muita dificuldade, criando regras dentro da contratação do perfil de apólice e isso acaba acarretando um custo a mais para produzir.”
Tavares acrescenta que, na hora que o seguro é acionado, a maioria dos produtores acaba não conseguindo receber em função dessas regras burocráticas que inviabilizam o pagamento.
“As apólices têm custo elevado, e um dos principais fatores é a ausência de subvenção. O governo federal até promete o envio de subvenções. Você contrata o seguro na expectativa que seja contemplado com a subvenção do seguro, mas depois ela não vem. Quando o produtor aciona o seguro, tem que pagar um boleto de diferença por falta de subvenção.”
Essa situação acaba encarecendo muito o custo de produção, tornando a contratação inviável. “Com esse problema ao longo dos anos, deixei de contratar. A gente contrata, o seguro onera o custo e quando precisa fazer uso dele, não consegue. Nós não estamos sendo ressarcidos dos prejuízos que estamos tendo.”
Segundo o produtor, esse cenário está deixando o agronegócio em uma “situação quase que inviável”. “Sem o seguro fica difícil a gente conseguir produzir, mas a gente está tentando. Muitos produtores rurais já deixaram a atividade e outros ainda vão deixar”, avalia.
A FOLHA procurou o Ministério da Agricultura e Pecuária, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.


