A Embrapa/Arroz e Feijão, sediada em Santo Antonio de Goiás (GO), está estudando um poderoso inseticida natural, capaz de combater algumas das pragas mais temidas pelos produtores rurais, como os percevejos, as lagartas e os cascudinhos. A nim, árvore originária da Índia, é pesquisada naquele país desde o início do século, mas no Brasil ela despertou interesse há apenas três anos. Agricultores dos Estados de Goiás e Tocantins estão testando a eficiência da planta e já existem projetos para explorá-la comercialmente.
‘‘Infelizmente não tivemos sensibilidade para descobrir há mais tempo a importância econômica do produto, seus benefícios para o meio ambiente e para a agricultura brasileira’’, lamenta o entomologista Belmiro Pereira das Neves, pesquisador da Embrapa/Arroz e Feijão. Foi ele quem introduziu a espécie no Brasil, com a importação, através de intercâmbio científico, de cerca de 10 quilos de sementes da Fábrica de Inseticidas Naturais, hoje denominada Fundacion Agricultura y Médio Ambiente da Província de San Cristobal, na República Dominicana.
Inseticida natural Atualmente o pesquisador estuda a formulação de inseticidas naturais a partir da nim, chamada cientificamente de Azadirachta indica. Na opinião de Belmiro Pereira, a planta é uma grande aliada do produtor rural, pois protege, dá sombra, fornece madeira e matéria-prima abundante para ser comercializada. Os inseticidas obtidos a partir do princípio ativo da Azadiractina controlam mais de 200 espécies diferentes de insetos, além de nematóides. ‘‘A Azadiractina, extraída sobretudo dos frutos, causa alterações fisiológicas nos insetos, levando-os à morte’’, explica o pesquisador.
Pertencente à mesma família do mogno, a nim tem grande semelhança com a santa-bárbara (no Sul é chamada de sinamomo). As flores são praticamente idênticas, mas no caso da santa-bárbara, são de tonalidade lilás, e as flores da nim são amareladas, quase brancas. Embora os frutos das duas árvores também sejam parecidos, o da nim tem apenas uma semente, que apresenta alto teor de óleo (42%); a senta-bárbara, três.
Campo extenso Devido a seu extenso campo de atuação, a nim tem se mostrado muito atrativa do ponto de vista comercial. Sua semente está custando hoje, no mercado internacional, entre 10 e 20 dólares o quilo. Como cada árvore produz em média 30 quilos de frutos e 30 quilos de sementes, tem-se um rendimento de 6 quilos de óleo e 24 quilos de pasta por árvore cultivada.
Suas propriedades, lembra Pereira, são aplicadas nos mais diversos campos, da medicina à construção civil, passando pela indústria de cosméticos, reflorestamento, recuperação de áreas degradadas e, muito especialmente, no combate às pragas agrícolas. ‘‘No campo da medicina, a planta é utilizada como antimicrobiano, no combate a distúrbios urinários, diarréias e doenças do couro cabeludo, já que o óleo evita o desenvolvimento de fungos’’, afirma.
O pesquisador diz também que a nim tem ação antimalárica, sendo usada até no combate à malária crônica, além de ter efeito positivo no controle da doença-de-chagas. ‘‘Já o suco de suas folhas elimina vermes intestinais, sendo de excelente uso na medicina caseira rural.’’ Ele observa que a indústria de cosméticos também vem descobrindo e adotando cada dia mais a planta como ingrediente principal de xampus (o óleo é ótimo para o couro cabeludo, atuando como tônico capilar), sabonetes e até cremes dentais.
Segundo dados da Embrapa, com um bom manejo a produção madeireira das árvores de nim pode chegar a 40 toneladas de produto de ótima qualidade por hectare plantado. A extração pode ser feita 8 a 10 anos após o plantio. Além da madeira destinada à fabricação de móveis, a nim pode ser utilizada para fabricação de mourões, esticadores, estacas, esteios, ripas e caibros, por ser uma madeira muito resistente e imune ao ataque dos cupins. Também é bastante procurada pela indústria siderúrgica, por ser boa fonte calorífica.
Na agricultura Uma vez extraído o óleo da semente, a pasta que sobra pode ser adicionada nos sulcos e covas de plantio agrícola, servindo como fixadora de nitrogênio. Pode servir também como biomassa, junto com as folhas, sendo uma boa fonte energética para animais.
O inseticida natural obtido a partir da nim tem se mostrado bastante eficiente, principalmente na cultura do feijoeiro, que é muito suscetível a pragas. As que causam maiores prejuízos econômicos são a mosca-branca, as vaquinhas e a lagarta-desfolhadeira. Segundo Belmiro Pereira, todas elas podem ser controladas satisfatoriamente com produtos à base de nim. Como exemplo ele cita o índice de 62,8% no controle da vaquinha-do-feijoeiro, considerado um resultado muito bom no emprego de produtos naturais.
A grande vantagem da utilização da planta como inseticida é que não traz prejuízos para o meio ambiente. Ela age apenas contras as pragas, preservando seus predadores naturais, aqueles insetos que se alimentam dos insetos inimigos. De acordo com o pesquisador da Embrapa, os produtores rurais de Goiás estão obtendo sucesso também no combate ao carrapato, através da utilização de folhas da planta.
O inseticida natural é obtido a partir da trituração das folhas, que são colocadas, a seguir, em infusão. ‘‘O produto resultante é aplicado no rebanho bovino, com mortalidade total do carrapato, não apresentando qualquer risco de toxidade para o animal’’. Da mesma forma, a utilização do inseticida em hortas ou lavouras comerciais não apresenta nenhum risco à planta ou ao consumo humano. ‘‘É ótimo para aplicação na lavoura do milho, combatendo de maneira eficaz a lagarta-do-cartucho’’, observa Belmiro Pereira.
Por enquanto a Embrapa não dispõe de mudas ou sementes de nim para atender os agricultores interessados na cultura, já que toda produção é destinada à pesquisa e a um convênio feito com a Secretaria de Agricultura do Estado de Tocantins, onde já foram plantadas mais de 250 mil mudas. Estas mudas serão utilizadas na recuperação de áreas degradadas e também para atender pequenos produtores da região. Porém, os interessados na cultura podem entrar em contato com a Cooperativa de Bela Vista, pelo fone (062) 261-1870 ou 261-3311, que pode facilitar um contato com os produtores, ou com a Embrapa/Arroz e Feijão, pelo fone (062) 212-1999, ramal 150.

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