Eficiência deve servir de exemplo
Cláudia Barberato
De Londrina
O projeto RedesReferências para a Agricultura Familiar funciona desde maio de 1998 e é desenvolvido pelos técnicos da Emater Paraná, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado e pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). O objetivo, explica o técnico da Emater, regional de Londrina, Sérgio Carneiro, é estimular a organização, racionalização e planejamento da propriedade, de modo a torná-la mais eficiente.
Segundo Carneiro os agricultores estão interessados não só em melhorar os cuidados com as lavouras mas em anotar, saber quanto gastam e projetar quanto vão ganhar, controlar custos e administrar bem. Outra questão é saber colocar-se melhor no mercado comprador. O resultado imediato do programa é que o agricultor, quando bem orientado, se interessa em anotar todos os dados de sua produção, com gastos e resultados.
Pequenas áreasSegundo o técnico da Emater Paraná, Antônio Celso Souza, as propriedades de referência são escolhidas por tamanho e devem ter áreas inferiores a 50 hectares. Presume-se que o produtor com mais de 50 hectares está mais organizado e menos sujeito a ameaças, porque está melhor estruturado como empresa rural, diz.
Outro critério é que as propriedades se destaquem pelo sistema de produção que adotam. Em todo o Paraná 200 propriedades participam do programa. Elas estão em 11 regiões do Estado, de Cornélio Procópio, no Norte, até Pato Branco, no Sudoeste.
Na região de Londrina 13 propriedades com cultivos de café, olericultura, fruticultura, sericicultura, entre outros produtos, participam do programa. O número deverá chegar a 20 no ano que vem. As propriedades que já participam têm a produção de grãos e as próximas sete deverão ser de atividades como olericultura e fruticultura.
GerenciamentoAntônio Celso, da Emater Paraná, explica que os produtores são orientados a desenvolverem o que chama de uma visão geral da propriedade.
No serviço de assistência técnica normal o agricultor chama o técnico para resolver um problema específico. Neste caso é preciso ter uma visão geral da propriedade, com objetivo de aumentar sua rentabilidade. O técnico age como um consultor de agronegócios e analisa o lado econômico, garante Antônio Celso.
Tecnologia é um meioO produtor está entendendo que a tecnologia é somente um meio e que ele precisa se organizar melhor a médio e longo prazos. Especialmente no caso da produção de grãos, que em pequena escala tem trazido baixa rentabilidade, analisa Antônio Celso.
Em Londrina, por exemplo, depois de um ano de avaliação do programa, implantado em áreas com média de 41 hectares, destinadas à produção de grãos, a margem bruta média das propriedades registrou R$712,00 por hectare (ha). A margem bruta das propriedades menos diversificadas ficou em menos de R$500,00/ha.
De acordo com Sérgio Carneiro, da Emater Regional em Londrina, a propriedade de melhor resultado chegou a obter R$4 mil/ha. Descontando os custos fixos o produtor tem uma remuneração real de 70% desse valor.
Aumento de margemNa avaliação das culturas plantadas nessas propriedades, segundo Carneiro, da Emater Regional de Londrina, o trigo foi o produto que obteve menor remuneração. A margem bruta do trigo ficou em média em R$155,00/ha. A do milho safrinha foi R$247,00/ha. Nas culturas de verão a soja somou R$493,00 de margem bruta/ha. O milho safra teve margem de R$352,00/ha.
O impacto maior se vê, de longe, sobre as propriedades diversificadas. O café adensado teve margem bruta média de R$5.543,00; a alfafa, R$2.600,00/ha; o pêssego, R$5.645,00/ha; a banana, R$2.651,00/ha e a uva R$7.576,00/ha, relata o técnico.
Essas diversificações, explica Carneiro, estão sendo possíveis por causa da remuneração da soja. O agricultor está adotando de maneira lenta a diversificação na sua propriedade, porque não tem capital de giro para investir e as atividades da diversificação normalmente demandam altos investimentos. Quando há uma boa safra de soja, como foi a do ano passado, o agricultor consegue investir e aumentar a área de diversificação, nem que seja com meio hectare ao ano.
Avaliação criteriosaMas o técnico alerta que nem sempre a diversificação poderá ser um ótimo negócio. É preciso um estudo agronômico para viabilidade técnica e econômica, alerta Carneiro. Ele cita exemplo de um agricultor da região de Londrina que plantou pêra, uma cultura rentável mas de alto investimento.
Como a região tem clima muito quente apareceram muitas doenças e o agricultor teve que gastar muito dinheiro no controle. Conseguiu produzir, mas com alto custo. Quando pensa em diversificar o agricultor deverá procurar também um produto que seja mais fácil de colocar no mercado.
Exemplo da diversificação Carneiro observou que as propriedades diversificadas apresentam renda mais a curto prazo. Elas exploram, por exemplo, frango, peixe, leite e outras fones de renda, ao contrário das propriedades que têm duas ou três fontes.
Existem exemplos de propriedades onde foi possível ampliar margens de lucro ou reduzir custos de produção apenas com o uso racional de insumos. Caso do produtor de Primeiro de Maio, Franscico Omura, que hoje não usa mais herbicida pós-emergente na soja de plantio direto.
Omura, com criativade, conseguiu reduzir os gastos de R$80,00 para R$14,00 por hectare e pode passar a experiência para outros produtores de sua região. Ele tem consciência ecológica, porque usa só o necessário e ainda lucra com o manejo do mato, avalia Carneiro. O material é colhido manualmente e depois misturado ao esterco de suíno, que é jogado na lavoura de café como adubo.
O que chamou a atenção do técnico e de outros produtores foi a necessidade do agricultor buscar uma assistência técnica mais isenta. Hoje o produtor é pressionado fortemente para compra de insumos e muitas vezes acaba usando até mais do que necessita. O agricultor que faz a integração de pecuária e lavoura também pode fabricar o seu adubo orgânico e reduzir custos.
Vender melhorOutro efeito de sucesso dentro das propriedades que estão no projeto foi a melhor receita na venda de produtos. Quem tinha capital de giro pode comercializar em época mais oportuna, de preço melhor. Os preços da soja e do milho, subiram alguns meses após a colheita da safra 98/99. A saca de soja subiu de R$14,00 para R$19,50. O mesmo aconteceu com o milho, que passou de R$8,50/9,00 para R$11,50.
Compra conjuntaOutros frutos do projeto Redes, de acordo com Carneiro e Antônio Celso, são os exemplos de associativismo praticados. São pais e filhos, irmãos ou vizinhos, que estão comprando máquinas e insumos em conjunto ou prestando serviços, para aumentar rentabilidade.
Na riqueza de exemplos, os técnicos agora poderão detalhar cultura por cultura e com os pesquisadores estudar alternativas que o agricultor terá para melhorar os rendimentos; apostar em novas culturas ou até em novas atividades na zona rural.
As próximas sete propriedades que entrarão no programa da região de Londrina são produtoras de olerícolas e frutas, atividades que pedem maior dedicação do produtor, maior conhecimento e investimento. Não vamos fazer uma assistência pontual, nas analisar a propriedade como um todo e problemas de questão econômica. Tem aparecido também deficiências na área de assistência técnica que precisam ser corrigidas.
Essa avaliação, explicam Carneiro e Antônio Celso, é apenas de uma safra e o objetivo é fazer acompanhamento em pelo menos cinco safras. Uma atividade pode ir bem num ano e no outro não. Depois de cinco anos, pelo menos, será possível ender as boas e más experiências dessas propriedades como referência, para as demais, afirmam.Projeto da Emater e Iapar destaca propriedades agrícolas em todo o Estado que serviriam de referência para outras
Antônio Celso conta que o papel do técnico da assitência oficial passa a ser de um consultor que analisa, junto com o agricultor, o lado econômicoAgriculturaDevanir Herek, de Sabáudia, exemplo de remuneração melhor com adoção de tecnologias e prestação de serviços





