Efeitos do El Niño aprofundam pessimismo no agro
Excesso de umidade no Sul e seca no Centro-Oeste devem afetar safra de soja e comprometer milho safrinha
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de novembro de 2026
Excesso de umidade no Sul e seca no Centro-Oeste devem afetar safra de soja e comprometer milho safrinha
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O clima hostil provocado pelo El Niño é o novo componente negativo na realidade do agronegócio, fragilizado pelos custos altos de insumos, endividamento crescente e pelos juros altos.
"A situação é de calamidade. Essa é a verdade", classifica João Batista Cunha, presidente da Aprosoja Paraná, entidade que representa os produtores no Estado. “Os fatores climáticos agravam uma crise que envolve fatores políticos e financeiros. Vivemos uma situação muito delicada.”
Cunha conta sua própria experiência como exemplo de como a temporada incomum de chuvas desta primavera tem mexido com o humor de quem planta soja no Paraná. Na sua propriedade em Lindoeste (Oeste), de 720 hectares, com a área já toda plantada, choveu 200 milímetros em três dias.
O volume de água estourou curvas de nível e causou a perda direta de 5% do cultivo. Como a chuva persiste, o risco de outros incidentes na lavoura ainda não está descartado. Ele lembrou que algumas lavouras do Oeste também sofreram perdas significativas com granizo.
As medições do Deral (Departamento de Economia Rural) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento ainda não trazem números assustadores, mas já mostram uma tendência de degradação de expectativas.
O boletim conjuntural publicado esta semana informa que a semeadura está atrasada em comparação com as últimas três safras, consequência da dificuldade da entrada de máquinas no campo em virtude do solo encharcado. Dos 5,7 milhões de hectares previstos para o ciclo, 29% ainda não receberam sementes.
O mesmo boletim destaca que a qualidade das lavouras já plantadas está em declínio, com 85% em boas condições contra 88% da medição anterior. As áreas em condição mediana cresceram de 11% para 14%.
“Embora parte das áreas apresente boa germinação e estande adequado,também são observadas falhas de emergência, redução da população de plantas, amarelamento das folhas e desenvolvimento vegetativo lento ou praticamente estagnado. Os elevados volumes de chuva intensificaram os processos erosivos, provocaram rompimentos de terraços e curvas de nível e favoreceram a lixiviação de nutrientes. Episódios de vendaval e granizo também ocasionaram perdas parciais e totais em algumas lavouras”, diz o trecho do boletim, documentando uma realidade prevista por especialistas desde que a ocorrência de um El Niño de alta intensidade foi se consumando a partir do aquecimento recorde no Pacífico equatorial.
Um estudo divulgado no fim do mês passado pela Serasa Experian, maior datatech do país, alerta que o fenômeno climático poderá provocar uma queda de quase 10% na safra nacional de soja, quando comparado a um período de clima neutro. Essa retração pode representar um impacto financeiro estimado em R$ 33 bilhões no valor bruto gerado pelo setor.
Para chegar às estimativas, o levantamento compara dois cenários de produtividade aplicados à área projetada para a safra 2026/27: um baseado nas condições observadas em 2023/24, safra influenciada por um El Niño forte, e outro que utiliza como referência 2024/25, sob condição climática neutra.
A engenheira agrônoma Aline Santos, doutora em ciência do solo que é analista de desenvolvimento técnico da Ocepar, destaca que os prejuízos não dependem apenas do volume total de chuva, mas principalmente da intensidade, frequência e distribuição das precipitações, além das condições de drenagem dos solos e do estágio de desenvolvimento da cultura. “Não é possível afirmar, neste momento, que haverá perdas generalizadas de produtividade. O impacto dependerá de como essas condições irão se comportar ao longo do ciclo e da capacidade de adaptação do manejo em cada região”, observa.
Replantio só se aplica em cenário de perda total
O doutor em Fitotecnia e pesquisador da Embrapa Soja, José Renato Farias, recomenda que, após um temporal, um período extenso de chuvas ou da queda de granizo, a primeira providência deve ser uma visita a área com calma, avaliando os danos com frieza. “Se o dano for parcial ou de menor intensidade, a recomendação é esperar para verificar se a planta consegue se recuperar. O replantio só é indicado quando o estrago for total”, sugere.
“A decisão de ressemear precisa levar em conta o planejamento macro da propriedade. Replantar a soja atrasa todo o ciclo da cultura principal, o que pode inviabilizar o plantio do milho safrinha. Nada garante que uma área recém-semeada não venha a ser atingida por novas intempéries na semana seguinte. É essencial acompanhar os boletins e previsões meteorológicas antes de investir novos recursos em sementes e insumos”, afirma Farias.
Crédito escasso e juros altos minaram reservas financeiras
Embora não seja chancelada por outras previsões mais conservadoras, apenas a possibilidade de uma quebra importante na colheita e um atraso no plantio do milho safrinha já causa calafrios no setor. As razões para tanta apreensão podem ser compreendidas com os dados sobre endividamento, juros, taxa de inadimplência e movimentação no fluxo de financiamento da temporada.

A falta de liquidez do setor já era um assunto quase obrigatório entre os fazendeiros, mesmo quando o El Niño ainda não havia começado a fazer suas travessuras.
Cunha ressalta que grande parte dos produtores está totalmente descapitalizada. “Com o crédito escasso e os juros abusivos, os agricultores usaram suas reservas financeiras para comprar insumos à vista”, explica.
O líder da Aprosoja criticou a falta de efetividade do governo federal para melhorar a situação financeira dos produtores. Cunha frisa que a Medida Provisória 1.376, que criou novas regras para a composição e o alongamento das dívidas rurais atendeu menos de 20% das necessidades dos produtores (a validade da MP expira dia 11).
Ele lamentou o impasse na tramitação do Projeto de Lei número 5.122/2023, que cria instrumentos para a liquidação, anistia, renegociação e rebate de dívidas do crédito rural pelos afetados por eventos climáticos adversos. A proposta foi aprovada pelo Senado e voltou para a Câmara apreciar as emendas, mas o trâmite emperrou antes do período eleitoral.
Os líderes do agro também alertam que os efeitos do El Niño são ainda mais preocupantes pela falta de regulamentação de partes essenciais do novo marco legal do seguro rural, sancionado em setembro.
Para ter efeito prático, o novo marco precisa de decretos dos ministérios da Fazenda, Planejamento e Agricultura. Ao sancionar a lei, o governo aplicou dois vetos importantes que desagradaram o setor: a isenção ampla de tributos federais sobre as apólices e a restrição imposta ao Fundo Catástrofe. “O custo das apólices triplicou, fazendo com que muitos produtores assumissem o risco de plantar sem qualquer proteção financeira”, afirma o presidente da Aprosoja Paraná.
Cautela financeira, aconselha líder
Cunha apregoa aos seus pares uma severa cautela financeira nos próximos meses. “Não é momento de compras ou investimentos desnecessários. Nada de adquirir implementos novos. Se for preciso, reformem o maquinário antigo. A gente recomenda ainda não assumir novos financiamentos com taxas de juros elevadas e tomar muito cuidado com dívidas indexadas em dólar. Há muita volatilidade no horizonte”, avalia.
O clamor nas regiões agrícolas do país é por um pacote de medidas paliativas ainda em 2026. Para a Aprosoja, o colapso pode ser evitado por decisões nas esfera estadual e federal, dando prioridade para escalonar e renegociar o grosso da dívida dos agricultores, para a regulamentação e implementação efetivo do seguro agrícola e para a criação de linhas de crédito extraordinárias para a realização dos próximos plantios.
Nas últimas semanas, a Aprosoja vem defendendo uma proposta que considera estratégica para a cultura. “Queremos que o governo deixe de enxergar a soja apenas como matriz proteica e passe a considerá-la uma matriz energética”, afirma. “É preciso transformar o excedente de soja em biodiesel ou em outros biocombustíveis, permitindo que o próprio produtor reduza seus custos operacionais e se blinde das oscilações do mercado internacional de petróleo.”
Na última semana de outubro, a Aprosoja se movimentou enviando ofícios. O primeiro destinatário foi o secretário estadual da Fazenda, Norberto Ortigara. No documento, a entidade defende a redução de impostos estaduais na produção do biodiesel B100 por entender que “é necessário estabelecer um ambiente tributário que permita ao produtor rural participar dessa nova cadeia produtiva sem que a carga tributária se torne fator impeditivo à implantação de unidades de produção de biodiesel no Estado”.
Para tentar aliviar os custos dos combustíveis nas fazendas, a Aprosoja mirou também o governo federal. Foi enviado um outro ofício ao Secretário Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Renato Cabral Dias Dutra, solicitando “a revisão e adequação da regulamentação para a aquisição de combustíveis sem exigência de tanque próprio com capacidade mínima de 15 mil metros cúbicos para determinadas modalidades de operação”, com o objetivo de ampliar a oferta direta aos produtores.
Produtor tem até 12 de novembro para pedir renegociação de dívidas
Os produtores rurais têm até o dia 12 de novembro para ingressar no programa de renegociação de dívidas do setor agropecuário, criado pela MP (Medida Provisória) 1.376/2026. Até o momento, os bancos utilizaram 55% do montante liberado para as operações subsidiadas, sendo que apenas R$ 14,3 bilhões dos R$ 25,8 bilhões foram autorizados até 27 de outubro.
Desde o início da vigência da MP, em julho, foram registradas 27,2 mil novas operações e 45,4 mil operações renegociadas. O Paraná contratou R$ 800 milhões (3,1%), o quarto maior valor do país, atrás do Rio Grande do Sul (R$ 7 bilhões), de Minas Gerais e de São Paulo (R$ 900 milhões cada). O valor é pequeno diante do tamanho do problema: segundo o Banco Central, o Estado somava R$ 14 bilhões em saldo problemático nos empréstimos rurais em agosto.
“O prazo é curto e o recurso insuficiente. Os bancos levaram semanas para começar a analisar os pedidos, e agora o produtor corre contra o relógio para tentar entrar num programa que já nasceu pequeno para o tamanho da dívida rural”, afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “Seguimos tratando o sintoma, não a doença. Quem ficar de fora por burocracia ou por falta de resposta do banco não pode pagar por essa lentidão”, complementa.
A lentidão na implementação das medidas persistiu após a aprovação da MP. Somente em 13 de agosto, o Ministério da Fazenda editou a Portaria 2.423, necessária para que os bancos começassem a operar. Ainda assim, um levantamento realizado pelo Sistema Faep com sindicatos rurais, em setembro, identificou pedidos sem andamento, exigências de novas garantias e taxas de juros que inviabilizavam a renegociação.
“A solução exige urgentemente uma política estruturada de crédito para resolver o endividamento rural. Os produtores rurais esperam mais empenho do governo federal em relação a esse tema. O setor agropecuário não aguenta mais soluções parciais, com prazo apertado e limite curto”, destaca Meneguette. (Com informações do Sistema Faep)


