Educação e agribusiness
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de janeiro de 1997
Marçal Zuppi 
Arquivo FolhaEducaçãoTreinamentos podem reduzir riscos de acidentes no campo
Falar sobre a necessidade de disseminação de educação e treinamento técnico, no meio rural, tornou-se semelhante a chover no molhado. Quem vive no campo e do campo, produzindo alimento, sabe que as ações sempre falam mais alto que as palavras, por isso age e transpõe a adversidade, esta permanente fonte de sabedoria. Participando da tarefa diária de retirar da terra alimentação básica para 160 milhões de brasileiros, 35 milhões dos quais instalados no campo, com cerca de 7 milhões empregados em grandes propriedades, ele mal tem tempo de buscar fora do seu ambiente o aprimoramento profissional cada vez mais necessário à sobrevivência da sua atividade, mas diante de uma possível oferta, neste sentido, faz o maior esforço para aderir e participar.
Conscientes dessa realidade, as mais importantes forças do agribusiness brasileiro - ABAG, ABIMAQ, ABRASEM, ANDA, ANDEF e POTAFÓS - reuniram seus recursos e, em parceria, vêm, desde março de 1990, desenvolvendo um trabalho que leva ao meio agrícola programas de educação e treinamento indispensáveis à participação do campo nas demandas de uma economia que, crescentemente, exige qualidade e produtividade, sem prescindir da proteção à saúde do homem e animais e da defesa ao meio ambiente.
A coordenação de tais programas está sob a responsabiidade do Comitê de Educação, Treinamento e Uso Seguro (CETUS), da ANDEF, que tem buscado levar informações aos mais diversos segmentos da comunidade, direta ou indiretamente relacionados com o mundo agrícola: profissionais vinculados ao ensino, pesquisa e extensão rural; formadores de opinião e legisladores, nas áreas de agricultura, saúde e meio ambiente; profissionais das empresas produtoras de defensivos agrícolas e usuários em geral.
Naturalmente os resultados vêm surgindo e um dos bons exemplos disso são os convênios que vêm sendo firmados com o SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) em todo o País, promovendo a qualificação profissional do trabalhador do campo, através do treinamento e completa reciclagem de engenheiros agrônomos, florestais e agrícolas, selecionados pelo SENAR para atuar como instrutores com aptidão. Aliás, a meta para 1997 prevê a formação de 1000 instrutores, que desdobrarão os conhecimentos para cerca de 165 mil usuários de produtos fitossanitários nas mais diversas regiões do País. Isto significa uso racional de produtos, dentro da ótica do manejo integrado, correto encaminhamento das embalagens vazias para o descarte final, bem como a redução dos problemas das intoxicações com defensivos agrícolas.
Os profissionais ligados ao agribusiness também têm sido contemplados com programas de treinamento sobre o uso correto e seguro de defensivos agrícolas, com informações sobre a indústria fitossanitária, em eventos de caráter técnico-científico e outros - atividades que devem ser estendidas, este ano, a carca de 60 mil pessoas. Os estudantes, os jovens formandos da área agronômica e os técnicos agrícolas de 2º grau têm igualmente recebido atenção do CETUS, que os informa sobre as atividades, princípios e produtos inerentes à indústria.
Todo esse vasto trabalho de educação, treinamento e reciclagem possui uma importância decisiva na mudança da realidade da agricultura brasileira, contribuindo para ajustá-la às necessidades de uma produção moderna, com uso intensivo e extensivo de tecnologias de ponta, associadas a solicitações do Manejo Integrado, único caminho para a defesa da produtividade, qualidade, competitividade e, consequentemente, safras recordes.
O trabalho do CETUS, junto àqueles que atuam diretamente no campo como difusores de informações e técnicas para os agricultores, vem introduzindo elementos de mudança em um cenário reconhecidamente crítico. Temos problemas que começam no topo da pirâmide, uma vez que nos últimos anos as verbas aplicadas pelo Governo Federal em programas de ciência e tecnologia reduziram-se a cerca de 0,5% do PIB - quando países industrializados destinam entre 2,4% e 3% a essas áreas.
Na base, a situação é dramática. Segundo a UNESCO, quanto à produtividade do ensino básico, em um grupo de 114 países, em qualidade e eficiência, o Brasil ganha apenas de Guiné-Bissau e Bangladesh. Considerada a população de 15 a 19 anos, a taxa de escolarização de segundo grau, em nosso País, está em torno de 35%, ou seja, inferior à média da América Latina, que é de 55%. Nossa taxa de analfabetismo no meio rural deve situar-se em torno dos 40%.
A soma dessas carências, obviamente, deságua nos mais diversos terrenos. No agrícola, particularmente, onde a utilização de insumos e bens de produção depende fundamentalmente de conhecimentos técnicos e atualização permanente, seus reflexos vêm comprometendo o avanço em direção ao acesso e uso correto das novas tecnologias. As tentativas de reverter essa situação ainda podem ser consideradas muito tímidas, porém refletem uma decidida ação no sentido de levar ao agricultor brasileiro, de forma cada vez mais profissional e eficiente, os ensinamentos básicos para tornar a sua atividade mais segura e rentável.
O autor é assessor ténico da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF).


