A edição de genoma deve chegar ao mercado no próximo ano e contribuir para quebrar preconceitos em relação aos OGM (Organismos Geneticamente Modificados). Diferentemente dos transgênicos, a tecnologia não usa gene de outros seres vivos, mas permite "desligar" um pedaço do DNA de uma planta. Assim, será possível aumentar a concentração de um composto benéfico em um produto ou retirar de uma semente a sensibilidade a determinadas pragas, como a ferrugem asiática para a soja.

O pesquisador Alexandre Nepomuceno, gestor do Portfólio de Projetos de Engenharia Genética da Embrapa e integrante da CNTBIO (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), afirma que a tecnologia existe desde 2011, mas que ficou mais barata e precisa ao longos dos anos até chegar ao sistema CRISPR (Repetições Palindrômicas Curtas e Intercaladas Regularmente Interconectadas, na sigla em inglês). Ele cita como exemplo o milho ceroso, já aprovado na Argentina, nos Estados Unidos e no Canadá.

Ele acredita que a variedade deva receber o mesmo aval no Brasil. "O milho produz amido, que é composto de 75% de amilopectina e de 25% de amilose. Além de ser usado em ração e na alimentação, o milho é usado para fazer papel, cola, enfim, produtos industriais para os quais é mais interessante que não se tenha amilose, que seja 100% amilopectina", explica. O milho ceroso, que se desenvolveu naturalmente e é conhecido desde os anos 1930, tem essa característica, mas não tem a mesma produtividade que variedades cultivadas hoje.

Imagem ilustrativa da imagem Edição de genoma é futuro e vai quebrar preconceitos



Assim, Nepomuceno afirma que é possível usar o CRISPR para usar o sequenciamento do DNA do milho ceroso e desligar em outras sementes a rota metabólica de produção da amilose, para ter um grão com 100% de amilopectina. "Eles poderiam ter feito isso cruzando aquele milho, mas demorariam anos e anos para ter um produto altamente produtivo e com essa característica."

Outra vantagem é que a edição de genoma é muito mais barata. Ele conta que alguns conflitos de interesses geraram regras duras e diferentes para cada País em relação aos transgênicos, o que chega a representar quase a metade dos US$ 140 milhões da média do custo de pesquisa, desenvolvimento e de toda a desregulamentação necessária em cada nação para um mesmo produto. Por isso, diz que o controle da tecnologia acabou nas mãos de poucas e ricas empresas. "Se pegarmos a pauta das reuniões CTNBIO, e estou lá há mais de dez anos, 95% do que está lá é desenvolvido por grandes multinacionais, quatro grandes empresas. Então esse alto custo impediu que instituições públicas e empresas de médio e pequeno porte desenvolvessem suas soluções", diz Nepomuceno.

No período, a Embrapa desenvolveu transgênicos que reduzem a aplicação de inseticidas no feijão, o que por si só seria motivo para a proliferação da variedade. "Nos Estados Unidos, todo o mamão consumido é transgênico e vem do Havaí e foi a transgenia que salvou a produção de mamão deles e que evita aquelas bolinhas escuras, que vêm de um vírus que causa a chamada mancha anelar. O mamão transgênico evita a aplicação de até 20 vezes de um inseticida que usamos amplamente na produção brasileira de mamão, o que é um contrassenso", cita o pesquisador.

O Brasil já possui legislação que separa o que é transgênico do que teve a edição de genoma, assim como Argentina, Colômbia e Chile. "O que acontece com a transgenia é que, pelo custo, só temos produtos desenvolvidos para grandes commodities. Ninguém investe para desenvolver um alface, melão, e isso mudará com essa nova tecnologia de edição de genoma", diz, ao lembrar que, em alguns casos, o transgênico seguirá necessário e assim será definido. (F.G.)

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