É preciso falar sobre glifosato
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sexta-feira, 03 de junho de 2016
Victor Lopes<br>Reportagem Local 
Glifosato. Nome dado a uma molécula que, de fato, transformou a forma de se fazer agricultura moderna. Sem dúvida, o herbicida criado pelo químico John E. Franz em 1970 que na época trabalhava nos laboratórios da Monsanto se transformou num símbolo de combate a ervas daninhas, o famigerado Roundup, que chegou ao Brasil em 1978.
Hoje, não há agricultor competitivo que não conheça o produto, principalmente depois da década 1990, quando a própria empresa norte-americana lançou no mercado uma soja geneticamente modificada capaz de tolerar o herbicida à base de glifosato, a Roundup Ready, conhecida como RR. De lá para cá, o boom produtivo foi enorme e o controle de ervas daninhas e outros manejos foram facilitados, sendo fundamental para a implementação do plantio direto. Entretanto, a chamada "era do glifosato" precisa ser discutida.
Do lado agronômico, o uso indiscriminado deste tipo de herbicida tem selecionado plantas resistentes, sendo que ainda não há outra molécula capaz de fazer este mesmo trabalho com eficiência. Outro ponto fundamental é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou, no ano passado, que o glifosato "provavelmente" tem potencial risco cancerígeno aos seres humanos. A Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia (UE), discute a extensão temporária do produto como agroquímico enquanto o risco real é avaliado. A autorização vence dia 30 de junho.
Assuntos delicados que foram amplamente debatidos esta semana, em Londrina, durante o Simpósio Internacional sobre Inovações em Sistema de Manejo na Era Glyphosate, que acontece no País a cada quatro anos. A professora do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em ervas daninhas, Dana Katia Mesched relata que a molécula de glifosato representa 80% do mercado de agroquímicos. "O glifosato tem um espectro de ação tão grande que há uma preocupação da sua manutenção no sistema produtivo. A facilidade da sua utilização, entretanto, trouxe descuidos na aplicação, selecionando plantas daninhas e deixando resíduos no ambiente", salienta.
Professor aposentado da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e pesquisador da área de solos e nutrição de plantas, Robinson Antonio Pitelli decreta: existe uma grande possibilidade de se perder essa molécula. "Já perdemos outros herbicidas que deixaram de ser eficientes a plantas tolerantes. Acredito que hoje os profissionais de agronomia têm muita informação sobre os produtos, mas pouco sobre dinâmica da biologia do sistema. Ninguém tem a informação, por exemplo, se a população de uma planta resistente tem crescimento linear ou exponencial."
No que diz respeito à questão ambiental e à saúde humana, o pesquisador acredita que as agências reguladoras "têm feito o dever de casa". "O produtor, hoje, tem bons produtos, seguros, mas falta informação de como fazer o manejo do sistema. Não se usam os controles biológico e mecânico, por exemplo. Essas eram práticas que nos garantiam as produtividades no passado. Porque não integrá-las ao glifosato hoje? Isso denota, para mim, falta de conhecimento das ferramentas que já existem", finaliza ele.


