No entanto, existe restrição à cafeína, que leva o produto descafeinado a ocupar mais de 40% do café consumido nos Estados Unidos. Enquanto isso, o vinho, uma droga alcoólica, é até recomendado como benéfico à saúde, idéia que foi assimilada pelos consumidores. Médicos têm recomendado até quatro xícaras de vinho tinto por dia, como auxiliar na prevenção de problemas cardíacos.
Verdade ou não, se faz bem ou mal à saúde o álcool, pelo menos nesse caso, está ganhando da cafeína. Segunda-feira, 24/5/99, falando na abertura do 3º Seminário Internacional sobre Biotecnologia na Agroindústria Cafeeira (Sibat), o médico fisiologista mexicano, Gustavo Viniégras-Gonzáles, alertou para a necessidade de um trabalho de todos os segmentos do negócio café, iniciando pelos governos dos países produtores, para desenvolver uma campanha destinada a melhorar a qualidade do produto e divulgar suas qualidades para a saúde humana. A biotecnologia teria papel importante nesse trabalho, que incorporaria mais renda aos produtores e demais setores da cadeia cafeeira.
Virtudes‘‘A Importância da Biotecnologia no Desenvolvimento Agroindustrial da Cafeicultura’’, foi o tema da palestra de Viniégras-Gonzáles, que falou das virtudes do café, dotado de substâncias anticancerígenas, assim como o vinho teria valor medicinal. A diferença é que os produtores de vinho aproveitaram essa idéia e hoje até os médicos recomendam tomar-se dois cálices de vinho por dia, enquanto o café ainda carrega uma imagem ruim, devido à cafeína. Por isso, muitos consumidores norte-americanos, por exemplo, consomem café descafeinado, embora o café também possua flavonóides anticancerígenos.
O vinho tem outra vantagem: os produtores cuidam de todo o processo, da colheita da uva à fabricação do produto final, enquanto a cadeia do café é dispersa: alguém produz, alguém limpa o café colhido, outro faz a comercialização dos grãos, outro torra e mói, outro industrializa, alguém prepara a bebida para servir ao consumidor. É muito difícil todos os elos dessa corrente falarem a mesma linguagem, pois seus interesses são díspares.
Então, Gustavo propõe melhorar a imagem do café, para agregar valor à produção. E, para melhorar a imagem, vincular o café a valores ecológicos e importantes para a saúde do consumidor. Daí a importância da pesquisa também sobre as qualidades do café, que possui antioxidantes. É necessário, no seu entender, desenvolverem-se redes de agroindústria, com a colaboração de governos, indústrias, produtores. Seria uma ampla cooperação internacional entre todos os integrantes da cadeia café.
Guerra do vinhoNo Sul da França o médico mexicano visitou a região vinícola de Languedoc. ‘‘Estudei um pouco a história do vinho, que estava em crise profunda nos fins do Século 19’’, lembra Viniégras-González. Quase houve guerra civil, por causa do problema do vinho. O governo francês interferiu, estimulando indústrias e cooperativas de produtores a utilizar uma tecnologia alternativa, a utilização dos subprodutos da fabricação de vinho. ‘‘Agora existem indústrias muito sofisticadas, inclusive em cooperativas, que transformam resíduos de uva. Dessa maneira, os excedentes de uva são transformados em aguardente e muitos outros subprodutos’’, contou o palestrante.
Viniégras-González, ao estudar os problemas do vinho francês, comparou-os aos problemas do café. ‘‘Descobri que agora o vinho tem uma imagem de saúde, depois de ser considerado apenas um produto tóxico. Agora o vinho tinto tem uma imagem de saúde, porque os produtores franceses, principalmente, desenvolveram a idéia dos polifenóis como produtos anticancerígenos. E o café ainda tem uma imagem mᒒ, disse. Mas, revelou, cientistas da Venezuela e franceses descobriram que o vinho tem mesmo substâncias anticâncer, ‘‘e que o café é um produto interessante como o vinho, mas a imagem do café não é tão forte quanto a imagem do vinho’’.
O problema é que um cafeicultor produz, outra pessoa faz a mistura, outra vende - ‘‘por isso não interessa aos membros dessa cadeia suportar a pesquisa, para fazer um novo produto para o Século 21. O problema se trata de organização’’.
Analisando a situação, Viniégras-González propõe: ‘‘é muito importante’’ fazer a diversificação dos produtos de café, para aumentar o valor agregado do produto, e para desenvolver a imagem do café ecológico. ‘‘Não só a produção ecológica, mas porque é um produto de saúde, que tem muitas propriedades, como outros - chá, vinho, leite - bem aceitos nos países industrializados. Por isso é muito importante fazer pesquisas não somente na produção, mas também de qualidade, toxicológicas, médicas. Porque, para fazer imagem, é muito importante ter dados firmes, sérios, das qualidades desse produto’’. Ele propõe fazer uma tecnologia integrada do café ecológico, ‘‘e em parte a linha genética fundamental, a biotecnologia, a tecnologia limpa, a reciclagem dos produtos’’. Por fim, Viégras salienta que é preciso criar redes agroindustriais, para transformar, para vender toda uma variedade de produtos e subprodutos do café, ‘‘com colaboração muita estreita do Governo, indústria, produtores primários e secundários. E nesse campo a cooperação internacional é uma via muito necessária.’’

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