Mais da metade da área agricultável do Paraná ainda não utiliza o sistema de plantio direto como forma de manejo em suas propriedades, apesar dos avanços tecnológicos. Isto significa que ainda é preciso repetir o óbvio, ou como se diz na linguagem dos produtores ‘‘chover no molhado’’, e falar de novo dos benefícios e da necessidade cada vez mais urgente de mudar o jeito de explorar a terra no Paraná e no Brasil.
Visitantes americanos conhecem área de manejo com mucuna para controle de nematóideO desafio da pesquisa neste final de século é promover uma agricultura sustentável, e junto com o agricultor produzir alimentos sem degradação do meio ambiente. Para responder a esta necessidade ‘‘o sistema de plantio direto ainda é a maneira mais eficaz de potencializar a produtividade com um mínimo de danos ao meio ambiente’’, afirma o coordenador da Área de Manejo e Conservação de Solos do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Celso de Castro Filho.
TransferênciaA transferência e adoção das novas tecnologias têm acontecido de forma localizada e indiviual tanto no Paraná, onde o plantio direto começou, como em outras regiões com tradição na atividade agrícola e até mesmo nas áreas de expansão agrícola, como Mato Grosso, Cerrados e Nordeste.
Divulgação/IaparMilho sobre mucuna. Melhora o aporte de nitrogênio e controla o nematóide‘‘A adoção do sistema depende da vontade de cada produtor crescer na sua atividade’’, comenta o agrônomo Ademir Calegari, do Iapar. Na sua opinião, as dificuldades de ampliação da área com plantio direto devem-se ao fato de a agricultura ter sido até agora uma atividade que resistiu mais às oscilações econômicas. ‘‘Num outro ramo de negócio, o mau gerenciamento leva logo o empresário a ‘quebrar’. Mas na agricultura, o produtor tinha um fôlego maior e ia tentando plantar do jeito do avô, do pai. Acho que agora isto não é mais possível; ou o produtor muda de sistema ou muda de atividade’’, comenta Calegari.
As dificuldades na adoção de novas tecnologias não ocorrem somente no Brasil. No início deste mês um grupo de agricultores americanos estiveram em Londrina, para conhecer os trabalhos da pesquisa e algumas fazendas na região. Além dos agricultores vieram professores e extensionistas da Universidade Estadual de Auburn, no Alabama. Uma das perguntas dos americanos foi: ‘‘Como vocês fazem para os produtores iniciarem no sistema?’’, conta o pesquisador Celso de Castro Filho.
Josué de CarvalhoO produtor Eder Alves de Oliveira está cultivando feijão com plantio direto e alcança produtividade de 100 a 110 sacas por alqueireEstímuloA necessidade de melhorar a produtividade, somada ao incentivo e informações, é o que tem feito muitos produtores mudarem. É o caso do agricultor Eder Alves de Oliveira, do município de Faxinal, no Norte do Estado, que começou no plantio direto há 14 anos e está muito satisfeito com os resultados. Tão satisfeito que, além do cultivo da soja e milho na palha, há dois anos ele resolveu adotar o sistema também para o feijão.
Eder lembra que, quando recebeu as primeiras informações, a dificuldade maior para começar foram alguns investimentos que teve de fazer, como a compra de uma boa plantadeira, de precisão. ‘‘Mas, fui convencido mesmo pelo estímulo recebido dos pesquisadores, e em pouco tempo consegui recuperar o investimento feito’’, diz.
Aquele lavrador explora uma área de 150 hectares, onde cultiva soja, milho e feijão. No inverno planta aveia, trigo, ervilha, painço. Desde que iniciou o plantio direto, teve um aumento de 60% na sua produtividade. No ano passado colheu 145 sacas de soja por alqueire e para este ano espera uma produtividade ainda melhor.
O gráfico mostra as estimativas da área total de plantio direto ( somando inverno e verão) no BrasilAdemir Calegari informa que produtividades entre 145 e 170 sacas por alqueire são bastante comuns nas áreas com plantio direto, enquanto no plantio convencional poucos produtores conseguem atingir 110 sacas/alqueire.
Para o presidente para Federação Brasileira de Plantio na Palha, Mauri Sade, uma das dificuldades na ampliação das áreas com o novo sistema está na falta de aval dos governos para incentivar os produtores. ‘‘Até agora o trabalho tem sido feito por iniciativa dos produtores e alguns pesquisadores entusiastas do sistema, mas não temos o apoio como um programa de governo’’, declara.
O produtor Carlos Chagas Ferreira, de Mamborê, faz plantio direto desde 85, e diz que teve dificuldades inicialmente por causa de maquinaria inadequada e falta de informações. ‘‘Mas, fomos incluindo práticas devagar. A mais importante delas, para mim, foi quando comecei a fazer rotação de culturas’’, declara. O produtor faz também a integração lavoura-pecuária, para aproveitar a palhada.
Calegari explica que essa integração é muito importante, pois resolve um problema do sistema, que é o excesso de palhada.

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