É possível produzir alimento e preservar o meio ambiente
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sexta-feira, 08 de junho de 2001
Rosana Félix Enviada a Guaraqueçaba 
Até o final da próxima semana, deve terminar, em Guaraqueçaba, Litoral do Paraná, a colheita da primeira safra de arroz de várzea orgânico do Estado. A previsão é de que sejam colhidas 2,38 mil toneladas do grão, em uma área total de 340 hectares. Isso representa uma produtividade semelhante ao arroz tradicional, de 140 sacas por hectare. Segundo a Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), esses resultados mostram que o homem pode trabalhar normalmente em uma Área de Preservação Ambiental (APA), como Guaraqueçaba, desde que use técnicas que não prejudiquem a natureza.
Dos dez agricultores que estão cultivando o arroz, nove são catarinenses. Todos arrendaram antigas áreas de pastagens que estavam abandonadas. Os terrenos fazem parte das comunidades Serra Negra e Tagaçaba, em Guaraqueçaba, e também em Morretes. Segundo a engenheira agrônoma Ruth Adriana, responsável da Emater pela agricultura orgânica no Litoral, a permissão para uso do terreno é concedida pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) anualmente. O Ibama não renova o contrato para o próximo ano antes de fazer uma análise, além de acompanhar sempre o trabalho, conta Ruth. Na agricultura orgânica, nenhum insumo nocivo ao meio ambiente ou ao ser humano é utilizado.
CustosO baixo custo da lavoura orgânica foi comprovada pelos agricultores. Sem dúvida é muito mais rentável que o sistema convencional, assegura Fernando Nilson da Silva, que plantou 50 hectares de arroz e para isso gastou R$ 30 mil. Ele diz estar satisfeito com a plantação. Essa área que estamos não sofreu ação de agrotóxicos, e por isso não está degradada, o que tornou fácil nosso trabalho, relata. Segundo Silva, uma das maiores vantagens para o agricultor em adotar a plantação orgânica, além do fator econômico, é não precisar usar agrotóxicos. Mas quem ganha mais, até mais do que o agricultor e o meio ambiente, é o consumidor, que compra produto totalmente natural, opina.
A maioria dos produtores de arroz orgânico de várzea teve um gasto médio de R$ 600,00 por hectare. Segundo Wilmar Jacobi, um dos produtores, no sistema tradicional o valor por hectare fica no mínimo em R$ 1,2 mil, porque os herbicidas e outros insumos custam muito caro. Mesmo assim, a previsão é de que o retorno dos investimentos aconteça daqui a quatro anos. Isso porque o nivelamento, que é feito também na plantação convencional de arroz, tem custo elevado.
Falta de infra-estrutura Mesmo apresentando bons resultados, as plantações de arroz em Guaraqueçaba e Morretes foram prejudicadas por fortes chuvas na região no final de junho, atrasando a colheita, e também pelo fato de esta ser a primeira safra. Como é o primeiro ano, o solo não está bem nivelado, deixando algumas áreas alagadas e provocando o desenvolvimento de bicheiras, que não podem ser mortas porque os agricultores não usam herbicidas, explica a engenheira agrônoma.
A falta de infra-estrutura no Litoral paranaense também prejudicou os produtores de arroz, que ainda não possuem moinho ou silo no local. Como a maioria é de Santa Catarina, onde possuem ainda plantações de arroz tradicional, eles transportaram o grão para ser beneficiado no outro Estado. Mas fica caro, porque só de imposto tem que pagar 12% do valor da carga, comenta Jacobi. Segundo ele, até o final do ano, o grupo quer instalar pelo menos um silo. A precariedade da estrada que liga Antonina a Guaraqueçaba, a PR205, também atrapalha o escoamento da safra, afirma Jacobi.
CertificaçãoAtualmente o arroz orgânico produzido em Guaraqueçaba e Morretes ainda não pode ser comercializado oficialmente, porque os agricultores precisam antes de uma certificação. Mas eles já estão encaminhando a matrícula no Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD), em Botucatu, São Paulo. O IBD faz a análise do produto que se for aprovado, recebe um selo reconhecido internacionalmente.
Com o selo, que deverá ser dado até a próxima safra, o arroz orgânico poderá ser vendido a R$ 18,00 a saca. Atualmente, os agricultores do Litoral do Paraná comercializam pelo valor do produto tradicional, a R$ 11,00/sc. Isso desanimou um pouco o produtor Edio Rohenkohl, que plantou 48 hectares de arroz. Há dois anos atrás o preço da saca convencional era R$ 18,00, recorda.
Enquanto a certificação do IBD não chega, os agricultores comercializaram o produto com a Associação dos Agricultores Orgânicos do Paraná (Aopa), que embala e revende o produto. Segundo Jacobi, a Aopa está negociando para pagar R$ 18,00 pelo produto, por confiança ao trabalho feito por eles. Ruth diz também que a Emater está promovendo uma parceria com comerciantes da Rua das Flores, em Morretes, para que comprem o grão para servirem aos clientes.
Para os agricultores, o que os motivou a adotar a agriculura orgânica foi o auxílio técnico da Emater. Esperamos que os governantes continuem investindo nesses cursos da Emater, porque sem assistência não podemos manter a produção, alerta Silva. Se não fosse o esforço da Emater, não haveria incentivo para a gente plantar orgânico e a relação com o Ibama seria mais difícil, opina Jacobi.


