Ao contrário de outras épocas. quando os moageiros acusavam o trigo nacional de ser de baixa qualidade e preferiam importar, agora querem o trigo brasileiro porque – admitem – encontram aqui mesmo matéria-prima apta à fabricação de qualquer tipo de farinha, para as mais diversas finalidades – panificaçcão, massas e biscoitos.
Os produtores não parecem muito interessados em sentar à mesa de negociações com os moaqeiros, para saber que tipo de trigo os industriais querem comprar e para definir a produção conforme os interesses do mercado. Esses entendimentos já vêm sendo feitos com outras commodities, como soja e algodão.
Interesse dos moinhosOs triticultores não participaram do 7º Seminário de Trigo-Brasil, organizado pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), em Foz do Iguaçu. Estavam lá moageiros e pesquisadores
que falaram das produções e mercados argentino, americano, canadense e brasileiro.
Na abertura do seminário, o presidente da Abitrigo, o paranaense Roland Guth, ‘‘deu a entender’’ que a associação está interessada no trigo nacional – disseram à Folha Rural os pesquisadores Sérgio Dotto, da Embrapa-Soja e Luiz Alberto Cogrossi Campos, do Iapar. No encontro, Guth declarou à imprensa que apóia a produção nacional de trigo. Segundo ele, os moageiros estão dispostos a adquirir, num prazo de três anos, até 5 milhões de toneladas do produto do Brasil.
Esta é uma novidade, porque antes os industriais se queixavam da qualidade do grão brasileiro e por isso não queriam o produto. Agora os moageiros declaram que querem comprar. ‘‘Então as classes produtoras, principalmente cooperativas, deveriam negociar’’, disseram os pesquisadores.
A mudança de opinião dos moageiros, que agora têm interesse no trigo local, deve-se à qualidade. Dotto e Campos lembraram que nos últimos dez anos a pesquisa comprovou a boa qualidade do trigo brasileiro. É um produto competitivo com o argentino e desde 1994 foram lançadas variedades com alta força de glúten (importante para panificação), como os moinhos queriam. ‘‘Antes iam comprar fora; agora, querem conversar’’, disse Dotto.
Em 98 e 99, anos bons para a triticultura brasileira, ‘‘não sobrou um quilo de trigo’’ produzido no País. Isto ocorreu porque a qualidade atendia, como atende hoje, às exigências dos moinhos.
Outras commodities são compradas antes de serem plantadas. Os pesquisadores acham que o mesmo deveria ocorrer com o trigo, segundo grão mais produzido no mundo (o primeiro é o arroz). Porém, ressalvam, a qualidade depende muito das condições de clima e solo onde uma variedade é semeada. Além das próprias características das sementes. No Norte do Paraná, o Moinho Globo, de Sertanópolis, acerta contratos na época do plantio e na colheita confirma a compra, se a mercadoria tiver as qualidades definidas no contrato antecipado.
Na safra 2000 uma corretora de cereais, uma empresa de insumos e um moinho contrataram antes do plantio, ‘‘desde que o produto atingisse certa qualidade’’. Hoje, sugerem os pesquisadores, as cooperativas das regiões produtoras têm que sentar com os moinhos, para saber do que eles necessitam’’, isto é, quais suas linhas de produção – macarrão?, pão?, biscoitos?
Regionalização e preçoDotto lembra que em primeiro lugar os triticultores querem saber do preço que vão receber. ‘‘Mas – ressalva –, eles (produtores) têm que entender a variação internacional do mercado, que muda em função da oferta e demanda. Em 1995, quando faltou trigo, o preço chegou a US$ 280,00 a tonelada, mas em 1996 a grande produção derrubou as cotações a patamares que estão em torno de US$100,00 a US$120,00 a tonelada, devido também à competição com outros países. E, se o País não tem onde armazenar e os preços variam em função da demanda, o trigo deve ser vendido por antecipação nos primeiros quatro meses do ano.
Assim como outros seres vivos, as variedades de trigo adaptam-se melhor a determinadas regiões, onde alcançam maior produtividade e melhor qualidade, características procuradas pelo mercado. ‘‘As condições ambientais é que vão conferir a qualidade. Então, o trigo deve ser semeado em solo adequado’’, recomenda Campos. O Governo brasileiro não pode mais fixar preço, porque este depende do mercado externo. O preço interno é fixado mais devido ao PEP , quando o Governo entra comprando, se os agricultores não conseguem vender e a cotação está abaixo do preço mínimoo, em torno de R$205,00 a tonelada.
Custo de produçãoO pesquisador Campos, do Iapar, observa que o preço mínimo está mais atrelado ao custo de produção e este custo pode ser reduzido’’. Isso, explica, depende do manejo da cultura e da propriedade; do uso de variedades que necessitam de menos fungicidas, que têm maior rendimento por região, pela melhoria dos solos no decorrer dos anos, quando vai precisar de menos adubos e outros fatores de produção.
Tudo depende do manejo da cultura e da propriedade; do uso de variedades que necessitem de menos fungicidas, tenhamm maior rendimento por região – pela melhoria dos solos no decorrer dos anos. Dotto propõe que os preços do trigo brasileiro tenham paridade com os internacionais, conforme a qualidade.
Os pesquisadores sugerem que a qualidade seja medida pela força de glúten, não mais pelo pH. Dotto acredita que essa medida venha a atender a cultura do trigo no Sul do País, porque nos Estados do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, e partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul ‘‘o trigo é de tremenda importância no inverno’’. Ele acredita que dentro de três anos o Brasil estará produzindo 50% das necessidades nacionais, o que virá satisfazer a disponibilidde desta região no inverno.
Culturas em sua épocaCampos defende as culturas do inverno no lugar do milho ‘‘safrinha’’. O milho é uma cultura do verão e pode ser totalmente destruído por uma geada, enquanto o trigo resiste bem ao frio. Neste ano, por exemplo, o milho perdeu 100% e o trigo perdeu 60%, ‘‘Se não tem trigo, que seja triticale, aveia. O que é de inverno tem que ser cultivado no inverno’’, diz Campos. O pesquisador ressalva que o agricultor pode distinguir em sua propriedade, mesmo assim, um lugar para o milho, outro para o trigo, saindo do sistema trigo-soja, ‘‘porque a rotação de culturas também é importante.’’
Fala-se muito em auto-suficiência, mas é mais caro levar trigo do Sul do Brasil para o Nordeste, do que levar do Golfo do México e da Argentina. Isto favoreceria os moinhos que estão no Litoral.

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