Oriunda do Norte Pioneiro de idos tempos, Aurora era do tempo em que ‘‘a gente se guardava durante a quaresma inteira, bem diferente de hoje, que é tudo levado a eito, levado a breca, e por isso o mundo está indo pro buraco’’. Criada na roça, sob rigorosa disciplina religiosa, para Aurora ‘‘tudo mudou, e pra pior, o respeito e o amor a Deus são coisas do passado.’’ E, para comprovar o que dizia, acentuava que ‘‘a coisa mudou tanto, mais tanto, que nem assombração a gente encontra mais!’’
  É, gente, quem viveu aquele tempo garante que dar de cara com assombração e outros bichos mais cabeludos era a coisa mais corriqueira deste mundo. Dona Pedrina, por exemplo, não esconde de ninguém e jura de pé junto que ‘‘já conheci uma pessoa que virava lobisomem, era amarelo e os dentes muito amarelos, também.’’
  Segundo ela, o tal homem aparecia, nas sextas-feiras de lua cheia, ‘‘transformado num cachorro muito peludo’’, mas, no entanto, Pedrina garantia que ‘‘esse lobisomem que conheci não atacava ninguém, só atacava os puleiros e comia fezes de galinha durante a noite, durante o dia, muito pálido, ele andava pela rua, mas ninguém tinha medo dele não’’.
  Mas nem só de bosta de galinha viviam as assombrações. Um caso que ficou famoso foi o da moça, cujo aniversário de 15 anos caiu numa Sexta-feira Santa. Não é que a menina bateu pé, queria por que queria fazer um baile na noite da Paixão de Cristo! O Pai, supersticioso e temente a Deus, argumentou, explicou
o significado da data,
não teve jeito, a menina, filha única, bateu o pé
e a festa saiu.
  Na noite da comemoração, baile já começado, de repente, vindo não se sabe de onde, apareceu um moço lindo no salão, todo vestido de branco, de chapéu e sapatos brancos, e dançou a noite inteira com a aniversariante, que era só felicidade ao lado do seu príncipe encantado.
  Quando começaram as badaladas da meia-noite, porém, aconteceu algo que deixou todo mundo paralisado de terror: o chapéu do ‘‘príncipe’’ começou a subir, os sapatos arrebentaram, as unhas começaram a crescer, os pés viraram cascos e, quando deu a última badalada, o capeta em pessoa – de rabo e chifre – tomou forma no salão. Uma gargalhada de causar calafrio no mais corajoso dos homens, seguida de um estouro que encheu o recinto de fumaça, e o capeta, esperto feito o diabo e rápido feito um cão, sumiu levando a moça junto consigo.

Apolo Theodoro

■ Próxima semana:
Outros casos de lobisomens e o falso lobisomem que causou terror em Londrina

mockup