Dúvida sobre eficiência do alho
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de dezembro de 1998
Da Redação 
Alguns pecuaristas vêm experimentando dar aos seus rebanhos alho em pó, misturado ao sal, para afugentar moscas-dos-chifres ou controlar carrapatos. Pesquisa desenvolvida pelo Centro Nacional de Pecuária de Corte, da Embrapa, sediado em Campo Grande (MS), concluiu que o alho não é eficaz no controle de parasitas, como vermífugo, e não contribui para o crescimento do peso animal. Nem como palatalizante ele pode ser considerado o melhor, afirma o pesquisador da Embrapa, Ivo Bianchin, que coordenou o experimento.
A pesquisa começou no mês de março e teve duração de 109 dias. Foram utilizados 42 animais cruzados divididos em dois grupos de 21 animais. Cada animal foi inoculado com 2500 larvas de carrapato - o objetivo era medir a ação do produto sobre esse parasita.
Um lote recebeu o alho em pó na proporção de 2%, conforme recomendação do fabricante. Para o outro lote de animais foi dado apenas sal. A cada 14 dias foram contadas moscas e carrapatos e coletadas fezes para exames laboratoriais para controle do número de ovos de vermes. Além disso, foram observados e contados os movimentos de cabeça e rabo, comum nos animais infestados de moscas. É com essa movimentação, um dos fatores de estresse, que os animais tentam livrar-se da mosca.
Baixa eficiênciaSegundo Ivo Bianchin, o lote que recebeu o sal com alho não apresentou diferença significativa no ganho de peso, no número de moscas e carrapatos e também no consumo de sal. Os animais desse lote comeram a mais cerca de 8,69 gramas por dia, quantidade pouco expressiva.
Na contagem dos movimentos do rabo e da cabeça constatou-se diminuição em torno de 29,6% e 32,8%, respectivamente. Assim, pode-se dizer que o lote alimentado com alho, de certa forma, sofreu menos estresse que o outro. O pesquisador pergunta: se o alho não espantou a mosca, por que este lote se debateu menos? Será que o alho tem efeito calmante ou anestésico? Por enquanto ele não tem as respostas. Seria preciso se aprofundar mais nas pesquisas, justifica.
Achamos que a linha de pesquisa é boa para eliminar ou reduzir o uso de inseticidas prejudiciais ao meio ambiente e à própria carne. Mas, por enquanto, não existe indicativo de que o alho seja eficaz. Seriam necessários mais estudos sobre a dosagem do alho, por exemplo, para comprovar eficiência, afirma Bianchin.
Segundo o pesquisador, hoje o uso do alho no combate a parasitas não é uma prioridade da pesquisa. O experimento começou por uma demanda da sociedade que desde 1993 vem utilizando o produto. No trabalho da Embrapa ficou provado que houve uma redução em termos de verminoses, mas essa eficiência é muito baixa, talvez o caminho seja uma dosagem maior.
A percentagem usada também não é suficiente para controle de parasitas, garante o pesquisador. A indicação ainda é o uso de inseticidas, o mínimo possível, além de deixar que o controle biológico, do meio ambiente, possa contribuir para reduzir os prejuízos. É preciso aprender a conviver com os prejuízos da mosca e de outros parasitas.
Uma alternativa, para pequenos rebanhos, pode ser o uso do túnel, uma tecnologia americana. No túnel, escuro e com borrachas e fitas por dentro e uma rede por fora, as moscas se espantam pelo contato da pele dos animais com essas borrachas e fitas. As moscas saem por umas frestas feitas no próprio túnel. Sendo impedidas de sair no ambiente, por uma tela por fora do túnel, morrem.
Sem indicaçãoNo experimento conduzido pela Embrapa, o número de ovos de parasitos gastrointestinais (vermes) diminuiu em torno de 47% no lote que consumiu o alho. Mas, do ponto de vista do conhecimento científico obtido até o momento, o produto não deve ser usado como substituto dos químicos no combate aos parasitos internos, nem externos, afirma Bianchin.
Segundo o pesquisador é preciso aprofundar pesquisas para responder as dúvidas que se tem a respeito do uso do alho no combate aos parasitos. Uma delas é se a redução de ovos de vermes deve-se à mortalidade dos parasitos internos ou diminuição das posturas das fêmeas. No experimento já realizado, não foram feitas necrópsias, e perguntas como essa ficaram sem respostas.
O professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Breno Verissimo Gomes, que conduziu uma pequisa semelhante durante um ano (de abril de 1997 a abril de 1998), obteve resultados semelhantes no controle da mosca. O alho em pó não apresentou eficiência no combate à mosca-dos-chifres, afirmou Verissimo.
A perda na produção, causada por uma grande infestação de mosca-dos-chifres, pode atingir até 10%. A mosca não pode ser eliminada por completo. Prejuízos vamos ter de qualquer maneira e temos que aceitar a situação, afirma o pesquisador Bianchin.
Ele recomenda mais uma vez que os pecuaristas sigam as recomendações da pesquisa. Entre outras, está o controle biológico: devemos usar produtos químicos somente quando o número de moscas estiver incomodando muito os animais. A recomendação serve para vacas em lactação, animais em fase de crescimento (dos sete meses aos dois anos e meio de idade) e touros.
O pecuarista, continua o pesquisador, deve fazer o primeiro tratamento no rebanho na época das chuvas, usando produtos à base de organofosforados ou piretróides durante o período, sempre seguindo as dosagens recomendadas pelo fabricante.


