Alguns pecuaristas vêm experimentando dar aos seus rebanhos alho em pó, misturado ao sal, para afugentar moscas-dos-chifres ou controlar carrapatos. Pesquisa desenvolvida pelo Centro Nacional de Pecuária de Corte, da Embrapa, sediado em Campo Grande (MS), concluiu que o alho não é eficaz no controle de parasitas, como vermífugo, e não contribui para o crescimento do peso animal. ‘‘Nem como palatalizante ele pode ser considerado o melhor’’, afirma o pesquisador da Embrapa, Ivo Bianchin, que coordenou o experimento.
A pesquisa começou no mês de março e teve duração de 109 dias. Foram utilizados 42 animais cruzados divididos em dois grupos de 21 animais. Cada animal foi inoculado com 2500 larvas de carrapato - o objetivo era medir a ação do produto sobre esse parasita.
Um lote recebeu o alho em pó na proporção de 2%, conforme recomendação do fabricante. Para o outro lote de animais foi dado apenas sal. A cada 14 dias foram contadas moscas e carrapatos e coletadas fezes para exames laboratoriais para controle do número de ovos de vermes. Além disso, foram observados e contados os movimentos de cabeça e rabo, comum nos animais infestados de moscas. É com essa movimentação, um dos fatores de estresse, que os animais tentam livrar-se da mosca.
Baixa eficiênciaSegundo Ivo Bianchin, o lote que recebeu o sal com alho não apresentou diferença significativa no ganho de peso, no número de moscas e carrapatos e também no consumo de sal. ‘‘Os animais desse lote comeram a mais cerca de 8,69 gramas por dia, quantidade pouco expressiva.’’
Na contagem dos movimentos do rabo e da cabeça constatou-se diminuição em torno de 29,6% e 32,8%, respectivamente. Assim, pode-se dizer que o lote alimentado com alho, de certa forma, sofreu menos estresse que o outro. O pesquisador pergunta: ‘‘se o alho não espantou a mosca, por que este lote se debateu menos? Será que o alho tem efeito calmante ou anestésico?’’ Por enquanto ele não tem as respostas. ‘‘Seria preciso se aprofundar mais nas pesquisas’’, justifica.
‘‘Achamos que a linha de pesquisa é boa para eliminar ou reduzir o uso de inseticidas prejudiciais ao meio ambiente e à própria carne. Mas, por enquanto, não existe indicativo de que o alho seja eficaz. Seriam necessários mais estudos sobre a dosagem do alho, por exemplo, para comprovar eficiência’’, afirma Bianchin.
Segundo o pesquisador, hoje o uso do alho no combate a parasitas não é uma prioridade da pesquisa. ‘‘O experimento começou por uma demanda da sociedade que desde 1993 vem utilizando o produto. No trabalho da Embrapa ficou provado que houve uma redução em termos de verminoses, mas essa eficiência é muito baixa, talvez o caminho seja uma dosagem maior’’.
A percentagem usada também não é suficiente para controle de parasitas, garante o pesquisador. A indicação ainda é o uso de inseticidas, ‘‘o mínimo possível, além de deixar que o controle biológico, do meio ambiente, possa contribuir para reduzir os prejuízos. É preciso aprender a conviver com os prejuízos da mosca e de outros parasitas.’’
Uma alternativa, para pequenos rebanhos, pode ser o uso do túnel, uma tecnologia americana. No túnel, escuro e com borrachas e fitas por dentro e uma rede por fora, as moscas se espantam pelo contato da pele dos animais com essas borrachas e fitas. As moscas saem por umas frestas feitas no próprio túnel. Sendo impedidas de sair no ambiente, por uma tela por fora do túnel, morrem.
Sem indicaçãoNo experimento conduzido pela Embrapa, o número de ovos de parasitos gastrointestinais (vermes) diminuiu em torno de 47% no lote que consumiu o alho. Mas, ‘‘do ponto de vista do conhecimento científico obtido até o momento, o produto não deve ser usado como substituto dos químicos no combate aos parasitos internos, nem externos’’, afirma Bianchin.
Segundo o pesquisador é preciso aprofundar pesquisas para responder as dúvidas que se tem a respeito do uso do alho no combate aos parasitos. Uma delas é se a redução de ovos de vermes deve-se à mortalidade dos parasitos internos ou diminuição das posturas das fêmeas. No experimento já realizado, não foram feitas necrópsias, e perguntas como essa ficaram sem respostas.
O professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Breno Verissimo Gomes, que conduziu uma pequisa semelhante durante um ano (de abril de 1997 a abril de 1998), obteve resultados semelhantes no controle da mosca. ‘‘O alho em pó não apresentou eficiência no combate à mosca-dos-chifres’’, afirmou Verissimo.
A perda na produção, causada por uma grande infestação de mosca-dos-chifres, pode atingir até 10%. ‘‘A mosca não pode ser eliminada por completo. Prejuízos vamos ter de qualquer maneira e temos que aceitar a situação’’, afirma o pesquisador Bianchin.
Ele recomenda mais uma vez que os pecuaristas sigam as recomendações da pesquisa. Entre outras, está o controle biológico: ‘‘devemos usar produtos químicos somente quando o número de moscas estiver incomodando muito os animais.’’ A recomendação serve para vacas em lactação, animais em fase de crescimento (dos sete meses aos dois anos e meio de idade) e touros.
O pecuarista, continua o pesquisador, deve fazer o primeiro tratamento no rebanho na época das chuvas, ‘‘usando produtos à base de organofosforados ou piretróides durante o período, sempre seguindo as dosagens recomendadas pelo fabricante.’’

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