Duas novas ameaças às lavouras
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sexta-feira, 18 de setembro de 1998
Josiane Schulz 
Provavelmente muitos produtores brasileiros ainda não ouviram falar na striga ou na cochonilha-rosada. as duas pragas ainda não são encontradas no Brasil, mas já causam preocupação. Pesquisadores da Embrapa alertam que, se não houver cautela, a striga e a cochonilha-rosada podem chegar a qualquer momento ao País, principalmente através de produtos agrícolas importados.
A striga (Striga asiatica) é uma planta daninha parasita, que ataca preferencialmente as gramíneas - milho, sorgo, arroz e cana-de-açúcar -, podendo levar à perda total da lavoura. Originária da Ásia, a praga já infestou a maioria dos campos da África. Sua ação é tão devastadora, que nos Estados Unidos, onde chegou há 40 anos, é conhecida como Erva-de-Bruxa (Witch Weed), conta o pesquisador da Embrapa Cerrados, Roberto Carvalho Pereira.
SintomasCada planta de striga pode produzir anualmente até 500 mil sementes, que medem entre 0,2 e 0,4 milímetros. Essas sementes podem permanecer em estado de dormência no solo durante 20 anos. Pereira explica que, com o cultivo de gramíneas na área infestada, as sementes da striga encontram condições ideais de germinação. É que, ao se desenvolverem, as gramíneas eliminam uma substância conhecida como strigol. Essa substância ativa as sementes da striga, que passam a germinar, diz.
As primeiras raízes da praga penetram nas raízes da cultura hospedeira e passam a sugar toda a seiva. Isso acontece cerca de 30 dias após a emergência da planta hospedeira. Ou seja, a striga age ainda dentro do solo. O produtor vê as plantas da lavoura morrendo e não sabe o que ocorre, conta Pereira. Apenas um mês depois de começar a germinar,a striga emerge e pode ser identificada. Nesse meio tempo, as perdas já foram drásticas.
RotaçãoPara a striga ainda não existem métodos eficazes de controle imediato. A rotação de culturas pode contribuir a longo prazo para a extinção das sementes no solo. Nos Estados Unidos, alguns centros de pesquisa estão desenvolvendo cultivares de sorgo resistentes a essa planta daninha. São variedades que não eliminam o strigol, explica Pereira. Outra forma de combate à praga é a aplicação de etileno no solo. Esse produto químico estimula a germinação da semente, que acaba morrendo por não encontrar a planta hospedeira.
Mas não podemos, de maneira alguma, permitir que essa praga chegue ao Brasil, alerta o pesquisador. O assunto já foi discutido com técnicos do Ministério da Agricultura e do Abastecimento (MAA), responsável pelas normas de importação de produtos agrícolas. Sugerimos medidas de ordem sanitária e quarentenária sobre os produtos importados da África, Ásia e Estados Unidos, diz o pesquisador.
Pereira alerta os produtores de milho, arroz, sorgo e cana-de-açúcar para observarem suas lavouras. Qualquer sintoma similar aos provocados pela striga deve ser comunicado aos técnicos da Embrapa, do Ministério da Agricultura ou da Emater. Identificando o problema rapidamente, podemos evitar a disseminação da striga, que se espalha com muita rapidez, através do vento, calçados e implementos agrícolas, argumenta Pereira.
CochonilhaOutra praga que está preocupando os pesquisadores é a cochonilha-rosada (Maconellicoccus hirsutus), um inseto que ataca mais de 200 espécies de plantas como citros, algodão, cacau, cana-de-açúcar, café, milho, frutíferas, verduras e o ornamental hibisco - principal hospedeiro. Essa praga ainda não chegou ao Brasil, mas está muito próxima, diz o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Fernando Junqueira Tambasco. Em 1994, a cochonilha-rosada foi detectada em Granada e outras 14 ilhas caribenhas e já chegou à Guiana Inglesa, na América do Sul. Segundo Tambasco, só em Granada as perdas econômicas provocadas pela praga chegaram a US$10 milhões, na safra 96/97.
A cochonilha-rosada é assim conhecida por sua coloração. O inseto prejudica o desenvolvimento da planta hospedeira, ao sugar sua seiva. Ao mesmo tempo, a cochonilha-rosada injeta uma toxina que provoca má-formação das folhas e dos frutos, que secam e ficam deformados. Essas ações reduzem a produção e muitas vezes levam à morte da planta. As perdas podem ser drásticas, diz Tambasco.
Controle biológicoA disseminação da praga acontece, principalmente, através do transporte de material vegetal. Para evitar que a cochilha-rosada chegue ao Brasil, o Ministério da Agricultura e do Abastecimento, através da Secretaria de Defesa Agropecuária, e a Embrapa Meio Anbiente estão elaborando um plano de controle, que envolve desde a conscientização dos turistas que vão ao Caribe, até o treinamento de fiscais agropecuários para atuarem nos portos de entrada. Outro trabalho é o investimento em pesquisa para controle biológico da praga.


