Droga de uso humano aumenta eficácia de remédio animal
Umuarama - Uma droga de uso humano, o verapamil, indicado para controlar a angina, pode aumentar em até 80% a eficácia de medicamentos veterinários contra parasitoses.
A descoberta foi feita por um grupo de pesquisadores da universidade canadense McGill, do qual faz parte o professor da Universidade Paranaense (Unipar) Marcelo Beltrão Molento.
O grupo patenteou a descoberta nos Estados Unidos e está negociando com grandes laboratórios o uso da pesquisa na elaboração de medicamentos antiparasitários mais eficazes. Molento acredita que dentro de 5 anos chegarão ao mercado novas drogas veterinárias contendo o verapamil na composição.
O estudo da Universidade MacGill, realizado durante 6 anos, confirmou o papel da glicoproteína-P, uma estrutura de defesa presente na parede celular, como fator responsável pelo desenvolvimento da resistência dos parasitos à determinadas drogas. O verapamil bloqueia a proteína, permitindo a ação da droga antiparasitária.
A pesquisa partiu de um estudo sobre o uso do verapamil combinado com outras drogas no tratamento de determinados tipos de câncer que alcançava melhores resultados. Os estudiosos deduziram que o mesmo efeito obtido nas células humanas cancerosas poderia se repetir nas células de parasitos resistentes.
Mosca do chifre - Vermes e moscas são a principal fonte de perdas na pecuária, porque reduzem a produção de leite e de carne e a qualidade do produto. Nos Estados Unidos, estima-se uma perda anual de US$ 320 milhões.
No Brasil, não há estatística a respeito, mas o que mais preocupa os produtores e os médicos veterinários é a resistência que os parasitos estão desenvolvendo às drogas disponíveis no mercado.
''A mosca-do-chifre é uma praga nova na pecuária brasileira e já desenvolveu resistência a todos os pesticidas disponíveis'', observa. De acordo com Molento, as drogas antiparasitárias respondem por 20% das vendas de medicamentos veterinários em todo o mundo, mas os laboratórios não investem em pesquisas e novos produtos nesta área.
Outro agravante é o uso indiscriminado de medicamentos, condenado pelo pesquisador. Criou-se o hábito de aplicar antiparasitários nos rebanhos periodicamente, sem avaliar se há realmente necessidade de desverminar os animais. Esta prática está-se disseminando também na medicina humana.
Já é comum pediatras receitarem vermífugos para as crianças sem solicitar o exame de fezes. Molento garante que o exame nos rebanhos pode ser feito por amostragem (uma ou duas em cada 100 cabeças) e dependendo do grau de infestação não há necessidade de dar remédio. Um pouco de vermes não compromete a saúde do animal e não causa prejuízos para o produtor.''Um boi pode conviver com uma população de 50 a 100 vermes no sistema digestivo sem ter problemas''. afirma.
Estima-se que 80% das propriedades no Brasil já apresentam algum tipo de resistência parasitária. O problema atinge mais caprinos e ovinos, com população estimada em 33 milhões de cabeças, mais suceptíveis à verminoses.
''Em todos os países, nenhuma droga disponível no mercado apresenta resultados satisfatórios no controle parasitário para estas espécies'', diz Molento. Na pecuária bovina, com aproximadamente 170 milhões de cabeças, o problema é menos grave, mas igualmente alarmante. ''Se não houver mudanças na forma de uso dos medicamentos, dentro de 5 ou 10 anos, a maioria das drogas se tornará inútil'', alerta o pesquisador.
Para orientar veterinários e produtores, a Unipar, o Conselho Regional de Medicina Veterinária e o laboratório americado Merial vão realizar simpósios sobre resistência parasitária em animais. O primeiro aconteceu dia 28 de agosto na universidade em Umuarama, com palestra de Molento e de outro pesquisador da Uniersidade Mac.Gill, o veterinário canadense Roger Prichard.
A pedido do Laboratório Merial, Molento está produzindo dois fascículos sobre o assunto. O primeiro já está pronto e informa sobre a resistência parasitária em detalhes para o produtor. Cerca de 3 mil exemplares estão sendo distribuídos no país. O segundo abordará o tema dos medicamentos genéricos.





