Eduardo Carriça e a filha: depois de quatro anos de produção orgânica, a família está implantando o novo modelo já com ganhos na eficiência produtiva
Eduardo Carriça e a filha: depois de quatro anos de produção orgânica, a família está implantando o novo modelo já com ganhos na eficiência produtiva | Foto: Fotos: Saulo Ohara



No limite dos municípios entre Arapongas e Sabáudia, uma agrofloresta manejada com conceitos de agricultura sintrópica começa a ganhar espaço graças a um jovem casal simplesmente apaixonado por agricultura e natureza. Eduardo Carriça e Gabriela Oliveira Scolari trabalham com orgânicos há quatro anos – conseguiram certificação há dois – mas têm um projeto de vida bem mais audacioso: transformar nas próximas décadas uma área de 120 alqueires numa imensa floresta produtiva, com os mais variados produtos, inclusive grãos.

A propriedade é da família de Gabriela e seu avô adquiriu as terras de forma gradativa, ao desembarcar da Itália no Brasil em 1917. O plantio, claro, era tradicional e passou por diversos ciclos, desde o café até a soja. Formada em biologia e com mestrado em ecologia vegetal, Gabriela sempre foi ligada à terra e há quatro anos resolveu apostar nos orgânicos numa área de um alqueire na propriedade da família. "Hoje abastecemos cerca de 150 famílias com cestas de produtos orgânicos. Em novembro de 2015, já certificados, começamos com a feira de orgânicos em Londrina, todos os sábados", conta.

Em meados do ano passado, Eduardo, que até então trabalhava como designer gráfico e auxiliava Gabriela na propriedade, resolveu fazer o curso de agricultura sintrópica em Brasília, com Juã Pereira, produtor diretamente ligado a Ernst Götsch. O impacto foi tão grande com os conceitos aprendidos que no retorno, Eduardo deixou o emprego na cidade para se dedicar a aplicação da agricultura sintrópica na propriedade. "Os orgânicos são difíceis de produzir, comercializar e os produtos não saem tão bonitos. Quando fui para a Brasília e vi a produção, percebi que dava para produzir muito, numa qualidade boa, sem ficar numa capina constante", salienta Eduardo.

O que mais os impactou, entretanto, foi a possibilidade de recuperação do meio ambiente, o que não acontece com os orgânicos. Em julho do ano passado, eles iniciaram a implementação dos canteiros de agrofloresta, que segundo a técnica, são distribuídos da seguinte forma: dois canteiros de árvores e três de horta. No sistema, há eucalipto e banana que são fundamentais para o abastecimento de biomassa com podas constantes e na horta a produção é extremamente variada, colocando 12 produtos por metro quadrado, por exemplo. "Trabalha-se muito com estratificação, com plantas com várias alturas. É preciso aplicar isso no canteiro, com plantas com crescimentos diferentes em tempos distintos no consórcio. Em dois ou três anos, não precisaremos mais irrigar a área (hoje é feita irrigação uma vez ao dia), já que as plantas tirarão a água do subsolo ou do próprio ar. O controle de pragas e doenças também fica mais fácil, sem a aplicação das caudas da agricultura orgânica, já que surge uma microfauna que auxilia nesse combate", salienta o casal.

Para cada canteiro, com essa diversidade de produtos e todo o manejo, o investimento gira em torno de R$ 700. O mais complicado no manejo inicial é realizar a cobertura de biomassa, já que o produtor ainda não possui plantas como o eucalipto ou bananeira para abastecer o sistema com as podas. No caso de Eduardo e Gabriela, eles possuem uma área de capim-napier para esse processo, utilizando um triturador. "É muito difícil encontrar essa biomassa. A adubação inicial também é intensa, cerca de uma tonelada de esterco por canteiro. Mas com o tempo, o trabalho de manejo fica bem mais tranquilo comparado com o orgânico, em que é preciso ficar arrancando mato e passando caudas. Antes, para produzir um alface precisávamos realizar entre quatro a cinco capinas. Agora, para produzir um brócolis, em 80 dias, não fizemos nenhuma capina".

Na feira o consumidor percebe que os produtos estão mais bonitos e vistosos. Uma alface que era colhida com 150 gramas, já chegou a 800 gramas com a agricultura sintrópica, numa volume produtivo maior e alta velocidade de crescimento. "O solo está mais rico e fértil. Nossa primeira ideia é conseguir a implementação de um alqueire completo de agrofloresta. Depois, ampliaremos a área e trabalharemos em larga escala, inclusive com grãos. Queremos transformar tudo isso numa grande floresta, como a Mata dos Godoy, mas produtiva".

O casal inclusive realiza mutirões de plantio na propriedade, em que ensina como funciona a agricultura sintrópica para outros produtores e pessoas interessadas. Entre os dias 1 e 3 setembro, vão abrir a propriedade para um curso ministrado por Juã, que virá diretamente de Brasília para conduzir os trabalhos. (V.L.)

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