Dólar e MST inibem compra de terra
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sexta-feira, 29 de agosto de 2003
Vânia Casado<br>Equipe da Folha 
Curitiba - A procura por terras no Paraná caiu nas últimas semanas, esfriando o clima de valorização que predominava no final do ano passado, quando havia muitos compradores e ninguém queria vender. Hoje, o imóvel mantém a valorização mas o mercado está parado, informam os corretores.
O fim da euforia foi atribuído à queda do câmbio, que determina um preço menor para a soja.
Mas outro fator começa a influenciar no mercado de terras do Paraná, alegam corretores: é o temor do Movimento dos Sem Terra (MST), que tem desestimulado os investimentos na terra.
Em 5 anos, alta de 100% - No Paraná, a valorização da terra superou os 100% nos últimos cinco anos. Ela coincide com a valorização da soja, cujas cotações começaram a subir após a desvalorização do real ocorrida em janeiro de 1999. A partir de então seguiram-se recordes sucessivos de produção e a procura pela terra provocou uma valorização sem precedentes na área rural de todo o Estado.
No período de cinco anos, o preço da soja saltou de uma média de R$ 12,27 a saca para R$ 34,50 a saca, que corresponde a uma valorização de 180% aproximadamente, quase a mesma da valorização da terra.
''Hoje, o valor das terras permanece em alta mas não viabiliza mais bons negócios como há seis meses'', disse o engenheiro agrônomo Richardson de Souza, do Deral. Na região Norte e parte da região Oeste, onde predomina o solo roxa, de melhor qualidade, o preço da terra evoluiu 146% desde julho de 1998.
Nas áreas de terra mista, que predominam em praticamente todo o Estado, o valor da terra subiu 174% nos últimos cinco anos. Mas foi na área do arenito na região Noroeste do Estado, onde houve a maior valorização no período, de 228%. Nessa região, o hectare de terra passou de R$ 1.709,00, em 1998, para R$ 5.602,00 este ano. ''Os valores levam em consideração a média de preços praticada na região'', explicou o técnico.
A valorização do arenito ocorreu após a execução de um plano de desenvolvimento para a região, executado por técnicos do governo do Estado, cooperativas, institutos de pesquisas e sociedade local. O programa proporcionou o desenvolvimento de tecnologias próprias para o uso do solo do arenito com a integração entre lavoura e pecuária, e rotação de culturas. Com a recuperação da fertilidade na região, o cultivo de soja avançou muito.
O grande salto na valorização das terras ocorreu do ano passado para este ano. Na área de terra roxa e arenito a valorização foi de 61% e nas regiões de terra mista foi de 59%.
As imobiliárias confirmam o salto nas cotações, embora na prática o valor das terras esteja acima da média detectada pelo Deral. Na região Noroeste, por exemplo, o alqueire de terra vale cerca de R$ 15 mil, segundo o engenheiro agrônomo José Carlos Mariano, presidente da Sociedade Rural de Santo Inácio.
MST assusta - Para Mariano, parte da estabilidade do mercado deve ser atribuída ao MST, que estaria assustando os produtores. Além disso ele cita o mercado de grãos que também está colaborando para desaquecer a venda de terras: o recuo no preço da soja, de R$ 42,00 a saca na safra passada para cerca de R$ 35,00 nesta safra.
Para Tarcísio Barbosa de Souza, coordenador da Comissão Estadual de Política Fundiária da Federação da Agricultura do Paraná (Faep), as famílias que já sofreram com invasão de terras ficam traumatizadas e acabam abandonando a atividade agrícola. Ele cita o exemplo de uma família do município de Itaguajé (110 km ao norte de Maringá), que teve a fazenda invadida e está procurando vender a propriedade para comprar no Mato Grosso do Sul, onde acredita que a pressão do MST não é tão grande.
Na região Norte do Estado, uma das áreas mais valorizadas, onde o alqueire de terra oscila entre R$ 39 mil e R$ 40 mil, o mercado também esfriou, de acordo com o corretor Iracy Lucio Mochi, dono da Imobiliária Paiaguás, de Maringá. que não acredita que o MST tenha influência. ''Os produtores estão capitalizados mas esperam uma definição dos indicadores da economia para decidir se investem ou não'', avalia.


