No final de novembro e início de dezembro, foram observadas, nas lavouras de soja do Norte e Oeste do Paraná, além da região do Vale do Paranapanema (SP), ocorrências severas de morte de plântula, preocupando produtores e assistência técnica. Incidências esporádicas foram observadas na região Sul (Castro). Em diversas lavouras a redução de estande exigiu a ressemeadura da soja.
A principal causa da morte das plântulas foi a doença chamada tombamento, caracterizada pela murcha e seca das plântulas de soja, do início a 30-35 dias após a emergência. Essa doença é causada pelos fungos denominados Rhizoctonia solani e Sclerotium rolfsii. Esses fungos são habitantes naturais de todos os solos cultivados das regiões tropicais e subtropicais e afetam a maioria das culturas quando ocorrem condições favoráveis.
O tombamento ocorre quando, após chuvas intensas que encharcam o solo, coincidem temperaturas elevadas. A situação é agravada pela presença de palha de uma cultura anterior recente e solo compactado. A compactação dificulta a drenagem da água da chuva e a permanência da palha e do solo encharcado por dois a três dias, sob altas temperaturas, fazem com que os fungos do solo desenvolvam rapidamente os restos culturais. Em dois a três dias a lavoura de soja pode ser totalmente destruída.
De modo geral, o tombamento ocorre em reboleiras, sendo mais comumente observado nas margens das lavouras, nas áreas mais compactadas e na parte inferior das curvas de nível, acima dos terraços, onde acumula a água da chuva. Severas incidências foram observadas tanto sob semeadura direta como em preparo convencional do solo (subsolagem, aração ou gradagem superficial), em solos compactados e que tiveram ‘‘safrinha’’ de milho após a soja na safra anterior.
A diferenciação dos tombamentos causados pelos S. rolfsii e R. solani pode ser feita facilmente no campo, com solo úmido, pelo exame do sistema radicular das plântulas em murchamento, observando, principalmente, a região da raiz compreendida entre o nível do solo e as primeiras raízes secundárias. Em ambos os casos, a identificação no campo é fundamental. Exames laboratoriais podem resultar em diagnósticos errados em virtude da rápida contaminação dos tecidos infectados por outros microorganismos.
O tombamento ocasionado pelo fungo Sclerotium rolfsii resulta de uma podridão mole, aquosa, que geralmente se inicia logo ao nível do solo. As plântulas afetadas murcham e secam e, ao serem puxadas, rompem-se com facilidade na parte infectada. Sobre a área infectada e estendendo-se para o solo ao redor da plântula afetada, em solo úmido, desenvolve-se um fungo branco (micélio), com certa semelhança com um fino tecido branco desfiado. Sobre o micélio branco podem ser formadas pequenas estruturas esféricas (esclerócios) de cerca de 1 milímetro de diâmetro e de cor variando de branca a castanha-escura.
O sintoma provocado pelo fungo Rhizoctonia solani inicia-se por estrias castanho-avermelhadas na raiz, nos primeiros centímetros abaixo do nível do solo. Essas estrias expandem-se, aglutinam-se e resultam em podridão seca e coloração castanha a castanho-avermelhada. É frequente o estrangulamento da raiz abaixo do nível do solo, com contornos cor de vinho tinto, resultando em murchamento com morte ou dano parcial das raízes. Plantas, mesmo atacadas nessa fase, podem emitir raízes acima da região afetada (raízes adventícias), mas geralmente morrem entre os estágios de floração e o início da granação.
A incidência de tombamento causado por S. rolfsii na presente safra representou mais de 90% dos casos observados, com ocorrência esporádica de tombamento por R. solani. Dependendo do ano, os dois fungos podem ocorrer em iguais níveis ou ter a predominância do R. solani.
O sintoma típico de tombamento causado pelos fungos no solo pode ser confundido com o sintoma de ataque severo de coró e piolho-de-cobra, em áreas semeadas após o milho ‘‘safrinha’’. Devido a isso, é necessário examinar as raízes e confirmar a presença dos insetos para o diagnóstico correto.
Com ocorrência esporádica, foi também observada a incidência de estrangulamento da região do colo da planta (ao nível do solo), tendo como causa a elevada temperatura nos primeiros 2 a 3 dias após a emergência. Nesse caso, ocorre um simples secamento anelar (estrangulamento) da haste, ao nível do solo, permanecendo a parte inferior túrgida e firme.
Uma vez semeada a soja, não há meios de controlar o tombamento. Todavia, é possível reduzir o risco ou impacto da doença nas safras futuras, através da adoção de práticas agronômicas adequadas, antes da semeadura:
- Fazer as análises do solo através da escarificação (cultivo mínimo) ou da aração a 25-30 cm de profundidade, a fim de facilitar a infiltração da água da chuva e favorecer o desenvolvimento da raiz;
- Fazer a rotação de cultura da soja com o milho;
- Fazer o tratamento da semente conforme a recomendação técnica, para garantir a emergência. O tratamento da semente apresenta pouco ou nenhum efeito no controle do tombamento, porém, garante a germinação mesmo em condições adversas de umidade.
Até o momento, não há relato da existência de soja resistente aos tombamentos pelos dois fungos. Todavia, na presente safra, foram observadas evidências de diferenças a campo entre algumas cultivares quanto à morte por S. rolfsii. A Ocepar-13 não apresentou plantas mortas e foram observadas incidências esporádicas na FT-9 e Ocepar-4 (Iguaçu), esta no Estado de São Paulo. As demais cultivares apresentaram os sintomas em maior intensidade.
Estudos mais detalhados sobre a reação à S. rolfsii das cultivares recomendadas no Brasil estão sendo iniciados na Embrapa-Soja, em Londrina.
Nota: Solos compactados e sem rotação de culturas podem ser favoráveis ao desenvolvimento de doenças, como por exemplo o tombamento. O problema se agrava quando, de forma errônea, é implantado o plantio direto em áreas compactadas e não equilibradas física e quimicamente. Nesses casos, agravam-se os problemas não só de doenças, como também podem ocorrer infestação de coró, piolho-de-cobra e caracóis.
O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa-Soja.

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