Doença ameaça produção do País
Da Redação
Pela velocidade com que a sigatoka negra, doença que já atinge plantios de banana em algumas regiões do Brasil, vem se espalhando, pesquisadores da Embrapa de Cruz das Almas, na Bahia, calculam que em poucos meses ela estará em todos os cultivos da fruta pelo País. Antes que isso ocorra já estão produzindo, em larga escala, mudas de bananeiras resistentes à doença. A sigatoka provoca redução de produtividade e também no tamanho do fruto.
Com uma produção anual de seis milhões de toneladas, o Brasil tem 520 mil hectares plantados de banana. Menos de 1% desse total vai para exportação, ou seja, é uma cultura produzida quase que somente para consumo interno.
A ocorrência da doença começou no ano passado. Cerca de 350 mil mudas, cultivadas numa usina na Embrapa Mandioca e Fruticultura, serão levadas ainda este ano para o Amazonas e Acre, primeiros Estados a registrarem a ocorrência da doença.
Há notícias de que a sigatoka negra está infestando bananais em Rondônia e no Mato Grosso. Por isso, pesquisadores que coordenam os estudos com variedades resistentes à doença deram treinamento a extensionistas e produtores para que saibam identificá-la.
De acordo com o agrônomo e fitopatologista Zilton José Maciel Cordeiro, produtores do Ceará também pediram informações para os pesquisadores da Embrapa porque temem que a doença chegue aquele Estado. Vamos dar treinamento lá, afirma o pesquisador. Os treinamentos foram solicitados também pelas autoridades de defesa sanitária vegetal do Ministério da Agricultura.
Perda total O receio se justifica, explica Cordeiro, porque a transmissão da sigatoka negra é aérea. O vento naturalmente transporta o fungo, diz. Ele se refere ao fungo Mycosphaerella fijiensis, que causa a doença. Depois de infestar as folhas, impede o desenvolvimento dos frutos. Por isso, as perdas da sigatoka podem chegar a 100%, segundo calculam os pesquisadores.
Cordeiro analisa que para uma cultura de interesse econômico e social como a banana, o resultado pode ser desastroso. O tamanho da fruta e seu vigor determinam uma boa aceitação no mercado. E são justamente essas duas qualidades as mais afetadas pela praga.
De acordo com o pesquisador, é da folha que vem a energia para produzir. No caso da bananeira, são necessárias 15 ou 16 folhas para que a planta acumule boas reservas e os frutos cresçam bem. Mas se o fungo as ataca, deixa manchas negras que as debilitarão, provocando uma morte rápida das folhas. Um pé de banana que tenha sido infectado, não terá mais que cinco folhas.
Sem a quantidade de folhas suficiente para que a bananeira vegete normalmente, os frutos ficarão raquíticos. Isso acontece porque a planta não tem mais condições de armazenar energia, fazendo com que os cachos encham só pela metade.
Num crescimento normal, a fruta se arredonda à medida que os cachos enchem. Com a invasão do fungo, os frutos ficarão cheios de quinas. Além disso, as bananas podem amadurecer ou amarelar ainda no campo, mesmo que os frutos estejam mal formados. Não se paga bons preços no mercado por frutos assim, conclui Cordeiro.
Dicas para o produtor Nas áreas em que a doença já foi detectada, pesquisadores estão testando variedades resistentes à sigatoka negra, como a Caipira, a PV03-44 e a Thap Maeo. Juntamente com técnicos da Embrapa Acre, em Rio Branco, e da Embrapa Amazônia Ocidental, em Manaus, a equipe de Cruz das Almas vem passando aos produtores alguns princípios básicos para ter uma plantação mais sadia.
O primeiro passo é eliminar as folhas doentes. Outra dica é cultivar as bananeiras em áreas sombreadas. Ou seja, em consórcio com plantas mais altas que lhe façam sombra. Não há garantia de que a doença não se apresentará, mas a contaminação pode ser menos severa porque o fungo se desenvolve em boas condições de luz e umidade.
Nas plantas sombreadas reduz-se a concentração de orvalho, comenta o pesquisador. É verdade que, neste caso, o crescimento da planta será mais lento e ela demorará mais para produzir, mas é uma situação menos incômoda do que a infestação, garante.
Conforme Cordeiro, o cultivo em áreas de solos férteis também deve ser observado. Nessas condições, as bananeiras se desenvolverão mais rápido e ficarão mais resistentes. Presume-se que sofrerão menos com doenças, acrescenta.
Áreas mais férteis Cordeiro explica que as plantas têm um mecanismo natural de defesa, que as permite resistir a doenças até certo ponto. Acontece que esse mecanismo está sendo afetado pela baixa fertilidade do solo. Por isso, acredita-se que o cultivo em áreas mais férteis torne as bananeiras mais resistentes ou, pelo menos, que a perda na produção seja menor.
Apesar dessas alternativas, com o uso de manejo adequado, não há motivos para otimismo. O próprio pesquisador afirma: não há como prevenir o mal. A sigatoka negra vai avançar e, por isso, estão sendo testadas as variedades existentes atualmente para gerar outros materiais que apresentem resistência à doença.





