Dificuldades do homem pantaneiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de fevereiro de 1997
Luiz Taques de Corumbá (MS) 
O assoreamento, o desmatamento e o fechamento de baías acabaram por mudar a paisagem do Pantanal de Mato Grosso do Sul; interferir no ciclo das águas e alterar a convivência pacífica que existia ali entre o homem do campo e a Natureza. A produção agropecuária também foi afetada por essa destruição.
Os habitantes da região do Paiaguás são um exemplo do sofrimento do homem do campo com essa desfiguração do Pantanal.
O Paiaguás é formado por seis colônias: Cedro, Bracinho, Miquelina, Rio Negro, Corixão e São Domingos. O último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) só pode ser realizado com a ajuda dos próprios nativos. Pelo levantamento, 2.504 pessoas vivem na região, onde só há duas escolas primárias. Nessas colônias a podução de banana-maçã é a principal fonte de renda, mas enfrenta vários problemas.
Nei Costa Soares, da Colônia São Domingos: Meu pai tem 950 hectares debaixo dágua
BananasComo as águas do Rio Taquari não têm mais para onde correr lá pelas bandas de Coxim, veio para cima da gente, explica Manoel Xavier Castelo, 81 anos, 9 filhos, dono do Sítio São Roque, que fica na Colônia São Domingos. A propriedade, de 390 hectares, agora está praticamente toda debaixo dágua. Na parte seca eu ainda planto uns 500 pés de banana, conta.
O cultivo de banana-maçã sempre foi a principal fonte de renda dos pantaneiros da localidade de Paiaguás. No pico da colheita, que vai de novembro a fevereiro, eles chegavam a retirar dos bananais mais de 40 toneladas de banana-maçã por mês. Atualmente a safra atinge no máximo 15 toneladas po mês.
Nesta safra o milheiro da banana-maçã está sendo comercializado nos portos de Corumbá e Ladário a R$ 30,00. Para o produto chegar ao porto, o pantaneiro precisa desembolsar, com o transporte, R$ 6,00 por milheiro, pagos aos donos de lanchas. Além disso, ele ainda paga R$ 10,00 de passagem.
Ambrósio Xavier, da Colônia Rio Negro, alimenta animais na porta de sua casa. A sobrevivência do pantaneiro deve-se também às pequenas criações e à pesca
Na Ceasa de Campo Grande (425 km de Corumbá), a banana-maçã é comercializada por caixa. A caixa (pesando entre 25 e 27 quilos, contendo em torno de 200 unidades) está custando R$ 20,00. No Mercado Municipal de Campo Grande a banana-maçã já é vendida em dúzia. Na semana passada a dúzia estava valendo R$ 1,50. Ou seja, do milheiro vendido pelo pantaneiro é possivel fazer 83,33 dúzias de banana-maçã.
A baixa cotação tem levado muitos pantaneiros a praticar a forma mais antiga de comércio: o escambo. A gente já não tem idade para tanto sacrifício; por isso na maioria das vezes nós trocamos aqui mesmo na beira do rio a nossa produção por alimentos, diz Tomásia da Silva, 50 anos, que toca o Sítio Piovinha, situado na Colônia São Domingos, com o marido Eduardo de Freitas, 37 anos, e o filho Edésio, 7 anos. O sítio tem 160 hectares, mas apenas dois são destinados à cultura da banana, pois todo o restante da área há muito tempo virou brejo.
Com sua carga de gente e bananas o tuque-tuque corta devagar o Rio Negrinho
Um grande lagoAssoreadas no município de Coxim, como diz o velho pantaneiro Manoel Xavier Castelo, as águas do Rio Taquari inundaram a região do Paiaguás, formando um enorme lago, igual ou maior que o da hidrelétrica de Itaipu, na divisa do Paraná e Paraguai. Com o fechamento de inúmeras baias por fazendeiros, para aumentar as suas áreas de pastagens, o Rio Taquari foi abrindo novos canais no Pantanal. Com isso, agora é possível ver trechos quilométricos do rio que já estão sendo chamados pelos ribeirinhos de braços do Taquari.
Os mais velhos dizem que antes grande parte da área alagada aqui era seca num período do ano, o que permitia que eles levassem, de carro-de-boi, de Jipe ou de Toyota, toda a produção até as margens do Rio Paraguai, já próximo dos municípios de Corumbá e Ladário, observa Aryzoli Trindade Sobrinho, 34 anos, dois filhos, dono de um sítio de 45 hectares, na Colônia Cedro. A propriedade dele também já foi engolida pelas águas de um dos braços do Taquari, como ele salienta.
Assoreado, Taquari inunda o PaiaguásA consequência disso tudo aí é que há mais de vinte anos essa área toda não seca mais, argumenta Plácida de Almeida, 66 anos, 13 filhos, 42 netos. Herdeira do Sítio Coqueiros, de 36 hectares, localizado na Colônia Rio Negro, dona Paitinha, como Plácida de Almeida é conhecida no Paiaguás, fala que antes da inundação ela criava mais de 200 bois na propriedade. Mas, hoje a gente só tem 23 reses e duas quadras com banana, conta.
Capivara, mais tormento
A viagem de lancha da região de Paiaguás até Corumbá chega a durar 18 horas. A embarcação de porte médio (o motor tem potência equivalente a 10 cavalos) tem capacidade para transportar até 35 mil bananas-maçãs por vez. O barco pequeno, também conhecido como tuque-tuque (motor de um cilindro), leva no máximo 20 mil bananas por viagem. A Paróquia São João Bosco, de Corumbá, cedeu duas embarcações em regime de comodato para auxiliar os pantaneiros do Paiaguás na comercialização da safra.
Mas essa enchente deixou muitos pobres, inclusive o meu pai, que tem 950 hectares debaixo dágua, informa Nei Costa Soares, 37 anos, dono do Sítio Nova Vida, na Colônia São Domingos. A sobrevivência aqui vem da criação de porcos, da pescaria e da pequena lavoura de feijão, milho, banana e mandioca, esclarece Ambrósio Xavier, 59 anos, nove filhos, proprietário, na Colônia Rio Negro, do Sítio Santa Rosa, de 36 hectares, dos quais apenas dois hectares são agricultáveis.
Além da cheia contínua, a capivara tornou-se outro tormento enfrentado pelo pantaneiro na luta pela sobrevivência. É que a capivara destrói as plantações de bananas. O pantaneiro que for pego abatendo o animal, tem a arma apreendida e pode ir parar na cadeia. Pelas leis brasileiras, matar capivara é considerado crime inafiançável.
A água é o habitat natural da capivara. Quando era seco, não existia tanto essa tal de imundice, desabafa Adelino Ramos, 43 anos, um dos filhos de dona Paitinha, referindo-se à capivara. Da banana, a capivara só deixa o talo, comenta Ramos.
Outro drama do pantaneiro é o tempo: com quatro a cinco dias depois de colhida, a banana-maçã amarela e então ninguém compra mais. Antes que isso ocorra, a produção precisa estar no porto. Se a lancha não passar, o que não é difícil de ocorrer, a produção vai para o fundo das águas dos rios.(L.T.)
Isolamento
Alô, Pantanal, programa transmitido diariamente das 12 às 14 horas pela Rádio Difusora de Corumbá é o único canal entre a cidade e o homem do campo. Na região do Paiaguás os moradores chegam a passar um, dois e até três dias na beira do rio à espera de uma embarcação para viajar para Ladário ou Corumbá.
Edgar, 10 anos, um dos netos de Plácida Xavier de Almeida, a dona Paitinha, foi mordido na perna por três cachorros na Colônia Rio Negro. Bastante machucado e com poucas condições de se locomover, o garoto só iria ser levado para a cidade dali a três dias.
Nem ao menos Edgar havia sido medicado. A avó amarrou um pequeno pedaço de pano na ferida, para evitar que as galinhas picassem a perna do moleque. No Pantanal, muitas vezes é assim: é preciso ter paciência e contar com a sorte. Afinal, nos dois Estados (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) o Pantanal 140 mil quilômetros quadrados.(L.T.)


