Dia de enterro
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de julho de 2023
Estela Maria Ferreira 

Era com o som triste da Ave Maria , no alto-falante da Igreja, que “nossas orelhas ficavam em pé”, com atenção redobrada: “Quem morreu?” Como a cidade era pequena, todos ficavam sabendo e começava o burburinho: “Fulano morreu. Do que será? Já estava doente, ah, faz tempo! Descansou! Deus quis assim! Era uma pessoa tão boa! Descanse em paz…” E mais um monte de coisas que ainda se diz, numa hora dessa.
O corpo era velado em casa. As flores que enfeitavam o caixão também eram colhidas nos jardins e trazidas pelos vizinhos e amigos. Assim que tudo ficava pronto, começavam as rezas e cantorias.
Aí vinha o velório, que não era tão ruim. As pessoas passavam a noite sem dormir, velando o ente querido. Apesar da dor da perda, da tristeza e das lágrimas que vinham, principalmente quando chegava alguém para o abraço solidário, a noite era animada! Faziam café, chá e serviam pães. Acho que até rolava uma cachacinha, e muitas piadas (que Deus os perdoe !).
Se fosse parente, a criançada dormia no chão, todas juntas, depois de brincar e correr no quintal como umas doidas. De vez em quando iam espiar o morto. Acreditava-se que, para perder o medo de gente que morria, era preciso, no velório, beijar os pés do defunto. Mas ninguém tinha essa coragem !
No dia seguinte era o enterro. Saía da Igreja e, em procissão, o caixão na frente e o cortejo atrás, a pé; as portas do comércio eram baixadas e os homens tiravam o chapéu, em sinal de respeito. Caminhávamos por uma rua comprida, lembro-me da descida toda verde, gramada, era tão gostoso porque aí a gente corria na frente para ver a cova onde seria enterrado o defunto.
Novamente a cantoria. “ Com minha mãe estarei…” , “Pecador, agora é tempo…” ou “Eu confio em Nosso Senhor, com fé, esperança e amor…”Já no cemitério, ficávamos olhando os túmulos, lendo as plaquinhas - Aqui jaz .
Assim era a vida, assim era a morte. Mistérios, tristezas e alegrias, saudade, esperança. O luto era demonstrado na roupa . A viúva ou viúvo usavam roupas pretas por um bom tempo. Ou uma tira preta no bolso da camisa. Outros tempos, outros costumes para celebrar a morte, que continua a mesma.

A diferença estava no meu olhar de criança. Sem preocupação, era feliz, inocente, tudo era motivo de festa. Afinal, quem está de bem com a vida, não tem porque ter medo de nada, muito menos da morte.
“Qualquer semelhança com seu passado, você viveu uma linda história! “
Estela Maria Ferreira, leitora da FOLHA!


