Dia de chuva
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de agosto de 2019
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" ... corre pra dentro criançada! Tá vindo chuva!" Era só a Vó Luiza gritar que nós vínhamos correndo mesmo, de onde quer que estivéssemos, era costume correr para casa quando o tempo armasse para chuva. Começava aquela ventania, folhas e penas voando para todos os lados, minha avó correndo para fechar as janelas, recolher as roupas, tocar as galinhas e pegar baldes para pôr nas goteiras.
Nós, muito assanhados, ficávamos de olho nos redemoinhos que levantavam poeira e nos deixavam com medo porque, dizia, tinha um capetinha lá dentro! A gente morria de medo mas a curiosidade era maior !
A nossa casa, como a maioria do lugar, era de madeira, alta, sem forro e sem pintura, mas tão gostosa e acolhedora! Se a chuva vinha forte e com vento, minha avó já ia enfiando todo mundo para debaixo da mesa, apanhando velas e ramos bentos, enquanto rezava: "Santa Barba, São Jerome!" A chuva forte caía lá fora e lá dentro, compondo um som de orquestra ao pingar nos baldes...
Embaixo da mesa enfiávamos o dedo nas velas, cutucávamos uns aos outros, ríamos e cantávamos cantos religiosos. Aprendemos a rezar o “Crendeuspai” para nos livrar de todos os perigos das tempestades... Protegidos pela mesa e seguros com os cuidados da vó, transformávamos aqueles momentos em pura alegria ou melhor dizendo, em alegria pura e inocente.
A chuva ia diminuindo, passava, e a gente, com permissão da vó, já podia sair. Mas o que queríamos agora era brincar lá fora. O tempo ia "estiando”, o céu ficava limpinho, literalmente saído do banho, o ar perfumado e o sol voltava a brilhar. Então saíamos pulando nos restos de lama, batendo os pés descalços na grama ou deixando nossas pegadas cuidadosas no barro...Quando secassem e virassem cascalhos a gente pisaria de novo e seria uma nova brincadeira...
O tempo foi passando e com ele passaram as chuvas, veio o sol e novamente a chuva e o sol. Dia desses, sentindo o ar abafado, folhas voando, um pequeno redemoinho levantando poeira em espiral, notei que começava a chuviscar. Por alguns minutos, voltei àquele tempo: o alvoroço, a concentração embaixo da mesa, a algazarra, o medo apaziguado pela presença querida e protetora da vó Luiza e, depois, as brincadeiras mais gostosas!
Como atrás de uma boa lembrança sempre vem a saudade, uma sensação de alegria infantil tomou conta de mim e me fez sorrir. O riso vai ficando molhado pelos pingos da chuva e eu corro para me abrigar. Já não ouço a orquestra de goteiras, nem a cantoria infantil e nem me escondo embaixo da mesa porque estou muito longe daquela casa e daquelas pessoas queridas. Tudo porque o tempo envelheceu, nunca mais o céu ficou tão clarinho, nem o ar tão perfumado! Não tem mais poças d'água, nem areia macia para deixar marcas e poder voltar depois, certos de que elas estariam lá, intactas. Apenas no coração, enternecido pela saudade, esses momentos que faziam tão felizes as nossas vidas, podem fazer sua morada!
“Se a chuva vinha forte e com vento, minha avó já ia enfiando todo mundo para debaixo da mesa, apanhando velas e ramos bentos”
Estela Maria Frederico Ferreira, leitora da FOLHA


