Destino complicado das embalagens
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sábado, 17 de janeiro de 1998
Cristina Côrtes 
ImpasseProdutores continuam sem saber o que fazer com as embalagens estocadas nas propriedadesA iniciativa é inédita e foi tomada por um grupo de agricultores do município de Cambé, vizinho de Londrina, no Norte do Estado, onde foi protocolado pedido de providências ao Ministério Público, no final do ano passado.
Com base nessa solicitação, o promotor do Meio Ambiente do Município de Cambé, Miguel Jorge Sogaiar, iniciou um procedimento administrativo e está convocando os fabricantes de agrotóxicos para assumirem suas responsabilidades em relação a destinação final das embalagens. Para o próximo dia 10 de fevereiro está marcada reunião entre as partes, para discutir soluções. No entendimento do promotor, as indústrias de agrotóxicos não podem se ausentar da busca de soluções para os problemas criados pelos seus vasilhames. Não é justo que somente os produtores ou o Poder Público assumam a solução destes problemas, afirma.
O produtor Ícaro Lagrota, a produtora Gilvani Amano, o extensionista Edson Marioto e o produtor João Aguinaldo Tomeleri
O coordenador das promotorias de proteção ao meio ambiente do Paraná, Saint-Clair Honorato Santos, também concorda em que a responsabilidade com relação ao destino das embalagens é da indústrias. A legislação federal (artigo 45, parágrafo único do Decreto nº 98.816 de 11.01.90) permite a reutilização das embalagens apenas pelas indústrias de agrotóxicos, e se é assim, o mais coerente é que elas assumam este trabalho, diz o promotor Saint-Clair.
PreocupaçãoO grupo de produtores de Cambé é formado por representantes do Conselho Municipal de Agricultura, Sindicato Rural e outras lideranças que estão precupadas com o acúmulo de lixo tóxico nas propriedades. Participaram da primeira reunião representantes do IAP, Seab, Prefeitura, Câmara Municipal e sindicato de trabalhadores rurais.
O produtor está se sentindo acuado, sem saber o que fazer, pois não pode jogar fora, não pode vender, enfim vai acumulando este lixo na propriedade afirma Ícaro Lagrota, produtor e vice-presidente do Conselho Municipal de Agricultura.
As embalagens de agrotóxicos que se encontram estocadas nas propriedades rurais causam degradação ambiental e são ameaças à saúde da população. O produtor João Aguinaldo Tomeleri conta que a cada safra ele lota um depósito de 30 metros quadrados com vasilhames. Ele informa que de tempos em tempos aparecem compradores e levam estas embalagens.
Pacotes de BHC jogados numa máquina de café abandonada, à espera de solução
A compra destas embalagens por recicladores clandestinos é um outro problema grave. A produtora Gilvani M.F. Amano comenta que uma fábrica de bonés da região estava usando o plástico reciclado de embalagens de agrotóxicos, comprometendo a saúde dos usuários. Pequenas fábricas de águas sanitárias, ou mangueiras também utilizam este material por ser mais barato, e este tipo de reutilização é proibido. É comum também ficarmos sabendo de contaminações de crianças, animais domésticos que convivem próximos a áreas onde ficam este lixo, diz Gilvani.
O município de Cambé tem uma área agricultável de 24 mil hectares, com aproximadamente 800 propriedades, e boa parte dos produtores está consciente dos problemas com o meio ambeinte, fazendo algum tipo de controle biológico de pragas, mas ainda existem casos graves de contaminações.
Numa mata próxima à Fazenda Santa Cândida, Folha Rural encontrou centenas de vasilhames jogados. Muitas pessoas ainda preferem jogar este lixo nos fundos de vales, próximos a riachos e córregos, pensando que estão se livrando do problema, diz o extensionista da Emater, Edson Marioto.
Em outra propriedade, vários sacos do veneno BHC estavam guardados numa antiga máquina de café. Segundo o extensionista, provavelmente depois da proibição o produtor não pôde usar mais esse tipo de veneno e agora também não tem como se desfazer dele.
Em plena safra de soja, a quantidade de pulverizações é grande em toda a região
RetratoA gravidade dos problemas em Cambé é um retrato que reflete a realidade de todo o Paraná, segundo o promotor Sant-Clair Honorato Santos. Hoje, todos os casos de agrotóxicos, como de outros problemas ambientais, podem ser denunciados nas promotorias do meio ambiente. Em todas as 149 comarcas existentes do Estado, os promotores públicos estão aptos a atender estes casos. As pessoas prejudicadas não só podem como devem procurar a Justiça para resolver estes problemas, informa.
Algumas iniciativas para tentar solucionar os problemas foram tomadas, mas esbarraram sempre na questão da reutilização ou destruição dos vasilhames. Por exemplo, em Santa Terezinha de Itaipu foi inaugurada no ano passado a primeira Unidade Redutora de Embalagens de Agrotóxicos, numa iniciativa da Prefeitura, Itaipu Binacional e Cooperativa Três Fronteiras, com o apoio da Secretaria do Meio Ambiente, Sudhersa, Seab e Emater. Da meta inicial de processar 5 milhões de embalagens vazias por ano, só conseguiram compactar no ano passado 1,2 milhão de embalagens.
O engenheiro agrônomo Sidney Baldepar, secretário de Agricultura e Meio Ambiente de Santa Terezinha de Itaipu, disse que o município está praticamente limpo dessas embalagens, mas enfrenta outro problema: até agora nenhuma carga compactada foi enviada para as indústrias de reciclagem, porque ainda não tem autorização para o transporte da carga. As embalagens de ferro seriam enviadas para uma indústria em Araucária e as demais para duas indústrias no Estado de São Paulo.
Em Palotina também foi instalada, há um ano e meio, uma usina redutora de embalagnes. A usina atualmente está praticamente parada, pois os vasilhames foram recolhidos, preparados e eles aguardam agora que o Estado lhes dê um destino, informa Ademir Luiz Mariani, técnico agropecuário, encarregado da usina. Como o governo ainda não decidiu nada, a usina de Palotina não está recebendo embalagens de outros municípios, que era a idéia inicial. Tememos que Palotina se torne um grande depósito de lixo tóxico, afirma Mariani.
Ademir informa também que recicladores clandestinos tem aos montes e vêem aqui procurar cargas. Ele destaca que o objetivo não é livrar-se do lixo tóxico de qualquer maneira, mas chegar a uma solução técnica, mais ambiental do que econômica.


