Desmatamento supera o da Amazônia
Arquivo FR
Exploração de pecuária no Cerrado, a savana de maior biodiversidade do Mundo
Barbatimão, espécie de interesse econômico (inclusive medicinal) do Cerrado
Óleo-pardo, ou capaúba, outra espécie característica do Cerrado (Alta Sorocana, SP)
Josoé de Carvalho
Pequena área de Cerrado em Rancharia, SP
São 127 milhões de hectares agricultáveis, do total de 204 milhões/ha de Cerrado, mas se continuar a devastação no ritmo atual, superior à taxa de ocupação da Amazônia, em pouco mais de dois anos não restará nada para ocupar. Toda a problemática do Cerrado e do Pantanal, que se encontra também em processo de degradação, será discutida de 23 a 27 de março no workshop Ações Prioritárias para Conservação do Cerrado e do Pantanal, no Centro de Treinamento do Banco Central, em Brasília.
Cerca de 200 especialistas participarão do workshop, que abordará a fauna e a flora do Cerrado e do Pantanal; a sócio-economia, os microorganismos e tudo mais que se relacione àqueles biomas. Somente no Cerrado estão 35 milhões/ha de pastagens cultivadas, 10 milhões/ha de culturas anuais, 2 milhões/ha de culturas perenes, florestas, e ainda restam 80 milhões/ha de fronteira agrícola. O professor Garo Batmanian, Ph.D. em Ecologia, informa, no artigo Cerrado, o bioma esquecido, que há muitas evidências do descaso brasileiro para com o Cerrado. Ele lembra que a própria Constituição, no seu Artigo 225, considera patrimônio nacional apenas a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira. Essas áreas têm direito a proteção oficial. A Constituição não faz referência ao Cerrado.
EsquecidoAna Luce Freitas, coordenadora de projetos nas áreas de política e desenvolvimento do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), diz que o Cerrado tem uma taxa de desmatamento duas vezes maior que o índice de desmatamento da Amazônia. Mas, ressalta, nem por isso recebe a mesma atenção, seja do Governo ou de outras entidades. Considerada uma das últimas fronteiras agrícolas, a região sofre uma rápida devastação causada pelo avanço da agropecuária.
Além de ser a segunda biorregião (a primeira é a Amazônia) mais extensa do País, com quase 2 milhões de quilômetros quadrados, o Cerrado do Brasil Central abriga as nascentes das bacias hidrográficas do Prata, São Francisco e Tocantins. Esta situação aumenta os riscos ecológicos de um desmatamento não sustentado, afirma Ana Luce. Ela adverte que uma exploração irresponsável poderia ter efeitos nocivos nos rios e, consequentemente, na qualidade de vida da população.
BiodiversidadeO Ph.D. em Ecologia, Garo Batmanian, lembra que o Cerrado é a savana de maior biodiversidade do Mundo. Ali já foram catalogadas 774 espécies de árvores e arbustos, das quais 429 endêmicas.
Em termos de animais, o Cerrado é o habitat de espécies como o tamanduá-bandeira, o lobo guará, o pato-mergulhão e o falcão-de-peito-vermelho, todos ameaçados de extinção.
Batmanian observa que o potencial de utilização racional dessa biodiversidade é enorme. Pesquisadores americanos estudam compostos químicos da planta canela-de-ema como um possível substituto do AZT no controle da AIDS. E isto é só o começo. Recentemente, workshop internacional realizado nos EUA identificou o Cerrado como uma das áreas prioritárias para pesquisas botânicas na América Latina. Uma planta comum no Cerrado do Centro-Oeste, de Minas Gerais a São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, é o barbatimão, usado contra queda do cabelo e doenças do couro-cabeludo. Sua casca é rica em tanino, sendo por isso empregada comercialmente na curtição de couro. Estima-se que há ainda centenas de espécies que nem sequer foram descobertas.
Expansão irracionalToda essa riqueza biológica está ameaçada pela expansão desordenada da fronteira agrícola, que já ocupa quase 50% do Cerrado. As estimativas indicam que num cenário favorável de crescimento da Economia, toda a área agricultável restante - cerca de 20% do total - será desmatada e ocupada por pastagens ou plantações de soja até o ano 2000. Um resultado direto do descaso e desconhecimento. Descaso que levou ao estabelecimento de uma política de incentivos que favorece a expansão agrícola irracional, e desconhecimento que alimenta o uso não-sustentável do solo.
Atualmente há centenas de milhares de pastos, cultivados de forma inadequada, abandonados na região. Isto aumenta a pressão de desmatamento de novas áreas apenas para a manutenção do rebanho atual. Estima-se que 11 milhões de hectares do Cerrado foram desmatados e estão ociosos. Apenas o uso dessas terras permitiria poupar outras áreas de Cerrado nativo.
Um passo fundamental seria reorientar as atuais políticas de incentivos e de ocupação agrícola. Tal mudança exigiria uma nova consciência dos proprietários rurais e de outros segmentos envolvidos. A alternativa exige uma campanha de promoção e educação da sociedade sobre o real valor e importância do Cerrado e dos riscos que a região está correndo. O WWF está trabalhando nesse
sentido, ao desenvolver um projeto demonstrativo em torno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A proposta é contribuir para a implementação do Parque em parceria com o Ibama, desenvolvendo alternativas econômicas sustentáveis para a população local. As alternativas incluem ecoturismo e extrativismo de espécies vegetais de valor econômico.
Diante da pressão que o Cerrado enfrenta, é preciso também uma política de conservação mais eficaz por parte do Governo. Enquanto 12% da região Norte do País estão protegidos por unidades de conservação, a média para as outras regiões, incluindo o Cerrado, é inferior a 2%, Essa discriminação tem sido um dos maiores entraves aos esforços conservacionistas do Cerrado, segundo estudiosos que debaterão a temática do Cerrado na próxima semana.





