Desafio para satisfazer consumidor
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de junho de 1998
Cláudia Barberato 
O veterinário, da Associação Brasileira de Criadores de Limousin (ABCL), acredita que, além de todas as medidas técnicas a serem adotadas para a produção de carne, o pecuarista deve estar atento ao mercado consumidor de sua região para conseguir viabilizar a atividade. Hoje o desafio, segundo ele, é produzir tipos diferentes de animais, para atender mercados regionalizados.
O Brasil é um país continental. Há diversidade climática e de vegetação, entre outras dificuldades. Há também diferença do poder aquisitivo da população e da preferência por certos tipos de carne em cada região do País. No Rio Grande do Sul, por exemplo, segundo Nunes, a preferência é por um carne gorda. Lá, segundo ele, o consumo per capita é de 70 quilos(kg)/ano.
Já no Norte/Nordeste, onde existem 35 milhões de pessoas, o consumo cai para 5 kg/per capita/ano, com mercado para uma carne mais enxuta. No centro do País, a preferência é por uma carne intermediária e o consumo fica nos 30 a 35 kg/per capita/ano. O consumidor desta região prefere visualização de carne com gordura, mas tira a gordura quando vai comer.
Escolha dos animaisNo Rio Grande do Sul, segundo Nunes, nos cruzamentos deve-se usar animais de menor esqueleto, maior precocidade no abate e maior cobertura de gordura de carcaça. No Norte e Nordeste o melhor é usar animais altos, com maior esqueleto, tentando preservar musculosidade.
No Brasil Central a tendência é procurar um gado do tipo misto, com esqueleto, acabamento de musculatura e gordura medianos, em função da preferência do consumidor e da exigência dos frigoríficos.
Falta caprichoApesar de clima diferenciado, temperado no extremo Sul e tropical e sub-tropical no Centro do País, não se tem no Brasil o frio e a neve que existem em países da Europa, nos Estados Unidos e Canadá, limitantes para acasalamento das fêmeas. Nestes países, se o criador não consegue prenhez antes do frio, terá que esperar outro ano.
Como no Brasil o clima favorece a criação de bovinos, explica Nunes, existe um certo relaxamento em vários índices zootécnicos. Falta rigor no programa de inseminações, concepções, nascimentos, intervalos entre partos, idade de primeira cria, entre outros itens. Segundo o veterinário, a média de primeira concepção das fêmeas ainda é de 24 meses, com o nascimento da primeira cria aos três anos e um intervalo entre parto também de 24 meses.
No caso da primeira concepção, é preciso reduzir o tempo, ganhar um ano, fazendo com que as fêmeas produzam um filho a mais na sua vida reprodutiva. A média nos intervalos entre partos não deve passar de 15/16 meses para tornar a atividade produtiva.
Lucro é possívelHá cinco anos, segundo Nunes, havia diferença no preço da carne de entressafra para a da safra. Na entressafra a arroba era cotada de US$35 a US$43. O pecuarista tinha aí uma gordura de sobrevivência para continuar produzindo, já que o custo de produção dessa mesma arroba era de US$18 a US$19.
De cinco anos para cá essa diferença caiu. Nos picos da entressafra a arroba vem mantendo-se na média de US$22 a US$25, fazendo com que o pecuarista deixe de ganhar a chamada gordura. Não se ouvia falar que pecuarista estava quebrando. Hoje é comum. Evitar quebras, aconselha Nunes, é possível com a adoção de tecnologias e o tratamento da propriedade como uma empresa. Não é preciso equipamento sofisticado, mas usar programas de gerenciamento, através de computadores e mão-de-obra especializada.
A partir de um controle rígido da propriedade, o pecuarista conseguirá, garante o veterinário, reduzir custos e chegar a um preço de produção por arroba de U$13 a US$15 e lucro de 80% a 90%. Mas, avisa que não adianta melhorar a parte reprodutiva das fêmeas, reduzindo a idade de primeiro parto, intervalos e uso de touros provados para aumento de produtividade, sem fornecer alimentação adequada aos animais.
Quando se melhora o nível do rebanho, a fim de ter um bezerro pronto aos 18 meses, com 17 arrobas, não se pode fornecer qualquer alimento. É preciso melhorar as pastagens, partindo de análise de solos e correção quando necessário; e fazer adubação, se for o caso.
Hoje o criador que larga sua propriedade, sem se especializar no ramo pecuário, ainda consegue 2% de lucro do investimento aplicado; mas isso é pouco e tende a acabar no primeiro deslize. Fazendo a coisa certa, a tendência é atingir de 14% a 15% de lucro.
Tipos diferentesA ABCL, segundo Nunes, tem orientado seus associados para a produção de tipos morfológicos diferentes do limousin, de acordo com a região e o mercado consumidor onde está a propriedade. Com a raça, garante o veterinário, o criador pode conseguir um animal de um tipo esquelético para terminação a pasto.
Pode também obter animais do tipo misto, para produção a pasto e terminação em semiconfinamento. E há os animais somente para confinamento e acabamento superprecoce (abate de 12 a 14 meses) ou hiperprecoce (abatido por volta dos 8 a 10 meses). O hiperprecoce é um animal amamentado no pé da vaca até os cinco meses, ou até os oito meses quando necessário, que recebe ração com alto nível energético para boa terminação de gordura.


